
















Este livro  dedicado s minhas grandes amigas do
grupo de discusso See You Next Tuesday,
Daryl Chen, Lauren Purcell e Jeanie Pyun,
escritoras fantsticas que adoram
beber, comer, falar, rir e ouvir.










































Agradeo especialmente a
Michele Cagan pela sugesto do ttulo.



















Captulo 01

PENNY BRACKET, VINTE E TRS ANOS, vestida de branco, parecia mais um fantasma. Em vez do vestido, ela bem que podia ter recortado dois buracos num lenol e jogado
sobre a cabea.
"Estou igual  noiva cadver", ela disse olhando sua palidez cadavrica no espelho do toucador. "Assim que a cerimnia terminar eu me dispo."
"Voc podia cair fora agora", Esther Bracket, quarenta e cinco anos, me de Penny, sugeriu. "Escapar definitivamente da cerimnia."
Penny olhou o rosto da me refletido no espelho. No vestirio da noiva, sentada num banco coberto por um tecido adamascado, Esther vestia um traje cinza-prola acompanhado 
de um par de sapatos cujos saltos altos desapareciam no tapete felpudo. Ostentava diamantes caros em nmero cinco vezes maior que o necessrio nos braos, no pescoo 
e nos dedos. Mas em Nova Jersey o excesso era regra, tanto nos cabelos como nas roupas, na decorao, na personalidade, na violncia dos crimes, na corrupo do 
governo ou nos escndalos polticos.
Penny era uma garota de Nova Jersey. Nascera pertinho do Garden State Parkway. Sinatra era de l tambm. Como Frank, seus habitantes faziam as coisas  sua maneira. 
A cano do estado: "Born to run" (que ironicamente fala de uma fuga de Nova Jersey). O lema do estado: "Veja com seus prprios olhos", j que no se pode confiar 
no que diz algum de l. O modelo do estado: Tony Soprano. Sendo geograficamente um dos menores estados da nao, apresenta a mais densa populao. De diversas maneiras.
Alguns nova-jersianos se colocam  parte com decoro, dignidade e discrio, mas Penny no havia conhecido nenhum deles. Embora ela tivesse deixado bem claro que 
preferia um casamento modesto, sua me no abriu mo do luxuoso salo no Short Hares Plaza. Apesar de no admitir, Esther gastara setenta e cinco mil dlares para 
que a filha casasse com um homem que ela desprezava, apenas para impressionar a vizinhana.
"Casa cheia?", Penny perguntou enquanto passava blush nas maas do rosto, na tentativa de parecer um ser vivo.
"Entupida", disse Vita Trivoli, vinte e trs anos, a terceira pessoa naquele aposento apertado. Vita era a melhor amiga de Penny e sua dama de honra. "Duas centenas 
dos brancos mais elegantes que eu j vi. Por que a senhora mesma no vai ver, madame Bracket? Talvez tenha que dar uma palavrinha com a organizadora do casamento. 
Ou agradecer aos convidados. Ou fazer qualquer coisa que a tire deste quarto".
A dama de honra, uma ruiva, no era nada sutil. Enfiada em um escandaloso vestido magenta decotado nas costas, ela praticamente usava todas as jias que possua.
"Seu visual est a sua cara, Vita", declarou Esther, referindo-se s sobrancelhas corretamente delineadas ao estilo Garbo. "Eu nunca teria coragem de ser to chamativa."
"Mas a camada de verniz de amargura que est usando lhe d um perfeito je ne sais quoi", disse Vita com falsa admirao.
" s uma camadinha", Esther retrucou, dando umas palmadinhas em suas bochechas.
"A camadinha  quebradia?", Vita perguntou.
"Estou feliz por finalmente vocs duas terem engatado um papo", Penny falou, tentando desfazer a tenso entre a me e sua melhor amiga.
"Voc j se deu conta de que  a primeira do colgio a se casar? Isso significa que voc venceu", disse Vita para a amiga.
Quando Vita emitiu a palavra "casar", Esther tremeu nas bases.
"Eu venci? Quer dizer que o casamento  um jogo?", Penny indagou.
"Voc ganha prmios fabulosos", Vita falou apontando a mesa apinhada de presentes, com as pernas trmulas pelo reconhecimento de cada embalagem da Tiffany's. "Ganha 
a viagem dos seus sonhos para o Hava. Entra no crculo dos vencedores e ainda beija o seu marido adorvel enquanto todos aplaudem.  igualzinho  Roda da Fortuna".
"A roda da fortuna gira", Esther resmungou entre dentes.
"Mame,  melhor voc ficar de boca fechada", disse Penny.
 "Se voc detestou tanto o vestido, porque o comprou?", Esther  perguntou abruptamente.
"O Bram queria um tradicional", Penny respondeu.
"Por causa do Bram voc gastou quinze mil dlares com uma roupa que detesta! O que mais voc vai fazer por causa dele?", Esther quis saber. "Que outros compromissos 
e sacrifcios voc vai fazer com o decorrer dos anos? E como esto seus pulsos hoje? E seu maxilar?"
Penny ergueu instintivamente as mos at o queixo, mas se policiou e rapidamente as redirecionou para ajeitar o vu.
Esther rosnava, zanzando pelo pequeno aposento. Pelo espelho, Penny observava a movimentao da me. As pernas dela eram iguais s suas. Longas. Firmes. Fisicamente, 
Penny era uma verso morena da Esther loura, tirando vinte anos de amargura. Penny sempre se perguntava como sua me seria se no tivesse uma nuvem negra sobre a 
cabea.
"Eu amo o Bram", disse Penny, serena. "Ele me ama. Nosso relacionamento se baseia na honestidade e no respeito. Nos devotamos um ao outro, hoje e sempre".
''T legal, mas pra mim isso soou como um chavo", Vita replicou.
"Desista!", Esther suplicou.
"Nunca", disse Penny enquanto deslizava o pincel sobre o [i]blush[/i] rosa. Ela se virou para encarar a me: ''Abandonar algum no altar  um ato to deplorvel, 
to covarde, to imperdovel, que merece a morte.  a mais baixa das baixarias.  o oposto de tudo o que sou."
" o que te torna superior a tudo?", Vita inquiriu. "Eu gostaria de saber."
"Sacrifcio", disse Esther. "Compromisso".
"Eu vou casar," Penny rebateu. "E fim de papo."
Voltou-se de novo para o espelho. A tenso estava acabando com ela. De repente, sua cabea rodou (latejava um pouco). Mirou-se no espelho e o vidro parecia se encrespar, 
como as guas de um lago no qual se atira uma pedra.
Uma batida  porta. Claro que era a srta. Wistlestop, a organizadora de casamentos do Short Hares Plaza, para avis-la de que j era hora de sair. O corao de Penny 
disparou. Ela se levantou e comeou a ajeitar a saia volumosa e as dez camadas de tule e crinolina.
" sua deixa", Vita falou enquanto abria a porta.
Curiosamente, no era a srta. Wistlestop que estava do outro lado da porta.
"Morris, o que  que voc est fazendo aqui?", perguntou Penny. "Voc devia estar me esperando no altar com Bram."
Morris Nova, vinte e cinco anos, o padrinho de casamento de Bram, vestia um fraque de aluguel. A maioria dos homens parece sofisticada quando traja um fraque  James 
Bond. Mas mesmo vestido como um rei, Morris ainda pareceria desleixado. Ele bem que podia ter penteado o cabelo no dia do meu casamento, Penny pensava. Pelo menos 
podia ter se barbeado.
"Estou com um bilhete", Morris falou com uma cara apavorada e tropeando nas palavras.
"Me d isso", disse Esther, arrancando o envelope das mos de Morris.
Enquanto sua me abria o envelope timbrado do hotel, Penny observava com nervosismo e um frio lhe subia pela espinha.
"Eu vou mat-lo!", Esther declarou depois de ter lido o bilhete.
Vita tirou o papel de Esther e entregou-o para Penny, sem l-lo.
Penny pousou os olhos castanhos sobre o papel de seda branco leu o bilhete sucinto, econmico, objetivo, que seu amado escrevera.

Querida Penny,

No posso levar isto adiante.

Desculpe,

Bram

"O que diz o bilhete?", Vita inquiria enquanto tentava ler por cima dos ombros de Penny. A ruiva arfou como se atingida na boca do estmago e disse: "Esse  o ato 
mais cruel, mais covarde, merece a..."
"Morte", Esther completou.
'Voc est bem?", Vita perguntou para Penny.
"Ela no deu uma s piscada", disse Morris.
"Pra de encarar minha filha", Esther falou enquanto enxotava o agora ex-padrinho.
Penny examinava mais uma vez a sucinta mensagem, Bram no desperdiara palavras para jogar pelo ralo dois anos de sua vida. Fitou sua me, que tambm fora abandonada 
por um homem. Esther franzia as sombrancelhas, furiosa, mas Penny sabia que ela devia estar aliviada.
" um belo material", disse Penny ao mesmo tempo em que acariciava o envelope. "Que acabamento, que folha bem gravada! Devamos encomendar uma caixa."
Depois, suas pernas - seu sustento, sua fora - tremeram e enfraqueceram. Escorregou at o solo, com metros e metros da crinouna e do tule do vestido descaindo sobre 
seu corpo, cobrindo-a de modo a formar uma tenda segura onde ela podia dispor de um pouco de privacidade.
"Ela desmaiou!", Vita gritou com uma entonao perfeita, bem treinada pelo seu ofcio de atriz de novelas de televiso. "Chame uma ambulncia!"
"Ela s est chorando", Esther falou com frieza.
"Ela est histrica!", Vita replicou.
Mas Penny no estava chorando. Estava rindo (histericamente) de toda aquela comdia. Do vestido de noiva de Barbie. Das duas centenas de brancos elegantes que aguardavam 
no salo. Dos setenta e cinco mil dlares que sua me gastara naquele casamento que no aconteceria. Tudo era engraado. Uma maneira trgica de aniquilar a alma.
Aos poucos, Penny recuperava o #uzo.
"Logo que minhas pernas voltarem a funcionar, vou sair do cho e sentar naquele sof", ela disse. "Estou precisando de uma bebida. Depois disso, estarei aberta a 
sugestes."




Captulo 02

"PENNY, NO SAIA DA", ESTHER ordenou. E disse para Morris: "Voc vem comigo ".
Esther arrastou Morris para fora do quarto. Depois de bater a porta atrs de si, empurrou o desmazelado rapaz por alguns metros do saguo para que Penny no ouvisse 
a conversa deles.
"Onde ele est?", ela perguntou.
"No sei", disse Morris.
Lvida, do alto de seus brincos de diamante, Esther bem que gostaria de cuspir (mas no pde).
"Voc fez o trabalho sujo dele", ela falou, enojada.
"S fui o mensageiro", Morris retrucou.
"Sua me  viva?"
"Minha me?", ele quis saber.
"Vou telefonar pra ela e contar a que ponto voc desceu hoje", ameaou Esther. Embora Morris tivesse vinte quilos (em msculos masculinos) a mais que Esther, ambos 
tinham a mesma estatura. Ela encarou os olhos azuis de Morris como s as mes conseguem fazer, telegrafando a trplice manipulao maternal: culpa... vergonha... 
desapontamento... culpa... vergonha...
"Pare", disse Morris, tapando os olhos com os braos. "T certo, t certo, ele est no quarto dele, l em cima. Eu o deixei cinco minutos atrs."
"Sai da minha frente", Esther falou enquanto contornava o rapaz abobalhado no estreito saguo.
''A senhora voc no vai telefonar pra minha me, vai?"
Esther deixou-o entregue s prprias divagaes. Saiu pelo coredor andando depressa, passou pelas portas abertas do salo e atravessou o saguo de piso de mrmore 
na direo dos elevadores do hotel mais chique de Nova Jersey. Um dos elevadores se abriu e ela apertou o boto do dcimo segundo andar. A organizao da festa de 
casamento disponibilizara diversas sutes no hotel para o fim de semana.
Esther estava sozinha no elevador. Em sua curta corrida, seu corpo fora tomado pelo vermelho rosado da raiva, como mercrio em termmetro quente. Ela s tinha sentido 
uma raiva to intensa assim uma nica vez, no dia em que seu marido , Russel Bracket , anunciou que a deixaria para ficar com uma estudante inglesa que trabalhava 
como bab de Penny. Esther se lembrou daquele dia, daquele momento na sala de pingue-pongue da manso deles em Overlook Lane. Russel brincava com uma bolinha sobre 
o tampo verde da mesa Quando exclamou: "Transei com a Jemima!", como se esperando que sua mulher se alegrasse com isso.
Ping. A porta do elevador se abriu. Esther dirigiu-se a passos largos para a sute nupcial do hotel. Sabia o nmero porque pouco tempo atrs enviara uma garrafa 
de Dom Prignon para l. Enquanto caminhava, seus olhos passavam pelos nmeros das portas e pelo papel de parede rosado que estampava cenas da vida buclica, de 
crianas com seus bichinhos de estimao e de macieiras. Estava to absorta que s percebeu o enorme e vazio carrinho da lavanderia quando se chocou com ele.
Depois de ter procurado por uma camareira e no t-la encontrado, ela foi at o quarto 1212 e bateu  porta. Para sua surpresa, a porta se abriu. O bastardo ainda 
estava l. De fato, Bram Shiraz, vinte e cinco anos, encontrava-se  porta, parado na frente de Esther, ingnuo, de jeans, camiseta preta e descalo. Ela detectou 
um rasgo de desapontamento nos olhos dele quando a viu. Ser que ele achava que a visitante podia ser Penny? Ser que realmente pensava que sua filha chegaria at 
ali para rastejar?
A expresso de Bram retomou com rapidez  sua habitual impenetrabilidade, a inexpressividade plcida que s os homens elegantes aparentam. Esther conhecia muito 
bem esse tipo de expresso - Russel, seu ex-marido, tambm a exibia. Ela fora enganada por esse olhar da mesma maneira que Penny fora hipnotizada pelos cabelos sedosos, 
pelos olhos castanhos e pelo corpo esbelto de Bram, acreditando tolamente que aquele homem era doce e generoso como aparentava. Bram no era merecedor dos seus dotes 
fsicos, Esther pensava. Ele se afinava mais com um horroroso corcunda.
Uma mala pela metade jazia sobre a cama atrs dele.
Esther abriu a boca, mas s conseguiu emitir um chiado.
Bram no podia esperar, e voltou a ateno para a mala em cima da cama como se ela no estivesse plantada na porta, amaldioando-o. Que nojento! Cada movimento feito 
por ele provocava nela uma forte repulsa. Pelo menos agora, com o casamento descartado, ela no precisaria v-lo outra vez. Devia at agradecer por tudo que ele 
fizera. 
Sem desviar a ateno do que fazia, ele disse com ar de contentamento:
"No precisa me agradecer."
Como se ele tivesse posto um fim no casamento s porque ela se opunha! Como se tivesse se sacrificado por altrusmo!
''A senhora conseguiu o que queria", Bram continuou. "Por que veio at aqui?"
Esther no conseguia explicar por que se sentira compelida a invadir o quarto dele. No fundo no esperava encontr-lo e confront-lo. Passara quase toda a vida evitando 
situaes tensas. Agora que se via no pice de uma, estava simplesmente perplexa.
Enquanto maquinava mentalmente uma resposta curta e sagaz, Esther voltou os olhos para a esquerda e pousou-os na mesa de jantar. O balde com gelo e champanhe que 
ela oferecera aos noivos ainda estava l.
Bram fechou a mala e sentou-se na beirada da cama para calar as meias e os tnis.
"Sei que a senhora me culpa pelos ferimentos em Penny", ele disse. "Foram acidentais."
"Como  que algum pode deslocar acidentalmente o seu prprio maxilar?", ela falou, finalmente encontrando as palavras depois de ter tido o bom senso de entrar no 
quarto e fechar a porta atrs de si. Precipitou-se at a mesa de jantar e agarrou a garrafa pelo gargalo. Estava escorregadia pelo gelo, mas ela segurou-a com fora.
''No tenho que explicar o que houve. No para a senhora", ele disse.
Depois ele deu de ombros como se estivessem discutindo o preo do leite. O movimento indiferente de seus ombros era o mximo de admisso que ela podia esperar. A 
raiva foi subindo, e Esther foi sendo tomada por ela.
Esther foi at a cama. Bram encarou-a e ela percebeu que ele se sentia culpado. Com o poder da fora da ira da meia-idade, ela golpeou a bela cabea dele com a garrafa.









Captulo 03

COM A AJUDA DE VITA, PENNY arrastou-se at o sof cor de damasco do abenoado e privado quarto de preparativos da noiva. Uma outra batida  porta.
" o Bram que veio me dizer que era um trote pr-nupcial", disse Penny. "Ele tem um senso de humor especial."
A dama de honra abriu a porta. A srta. Wistlestop logo a empurrou para dentro do quarto.
" s um pequeno atraso", a organizadora falou em meio  bruma de seu perfume. "Tudo est sob controle. Nada de pnico. Estamos aguardando o noivo. E o padrinho 
e... onde est a sra. Bracket? Devia estar aqui. J estamos cinco minutos atrasados."
Penny e Vita olharam fixo para a pequena (mas rechonchuda) mulher visivelmente nervosa, com suas prolas, vestido de festa de tafet pssego, sapatos combinando, 
meias de seda e um coque em espiral feito no cabeleireiro. Obviamente, para onde quer que tivesse ido, Esther ainda no tinha informado a srta. Wistlestop da mudana 
de planos.
"Meninas", a srta. Wistlestop exclamou, "vocs esto ou no esto comigo? Ns temos aqui uma situao de emergncia".
"Eu pensei que era para no entrar em pnico", disse Penny.
Nos ltimos seis tinha passado horas com a srta. Wistlestop, discutindo o detalhes da recepo. Porta guardanapos. Borlas das toalhas de mesa. E olhando agora para 
aquela mulher atarracada, de rosto transtornado, Penny se espantava com as horas gastas e a distoro de perspectiva. Como as pequenas coisas - a baixinha srta. 
Wistlestop e suas respectivas listas - pareciam enormes e formidveis. Mas as grandes coisas - sua vida - acabaram se reduzindo ao planejamento de um evento de cinco 
horas. Um evento que, assim como os seis minutos anteriores, no passava de um fracasso.
"No estamos em pnico", disse a srta. Wistlestop. "Este  o melhor dia de sua vida, aquele com o qual voc sonhou desde criana."
"Se eu tivesse tido fantasias de menina", Penny retrucou enquanto observava seu reflexo fantasmagrico no espelho do toucador, "seguramente no se pareceriam com 
isto." E voltando-se para Vita, acrescentou: "Mostre o bilhete pra ela".
Vita entregou para a srta. Wistlestop aquilo que poderia ser o ltimo item em sua pilha gigantesca de correspondncia matrimonial. A organizadora leu palavra por 
palavra a deciso de Bram. Depois, ps a folha dentro do envelope e o devolveu para Vita.
A srta. Wistlestop pegou sua bolsa cor-de-rosa e tirou um walkie-talkie de dentro dela. Com ele nas mos, falou em tom abafado:
"Ateno, equipe de organizao do casamento: ns temos aqui uma situao de cdigo vermelho. Repito: cdigo vermelho! Equipe da cozinha: no abram o caviar". Ela 
soltou o boto e pegou seu palmtop dentro da bolsa. "Me d um segundo, s pra achar a lista de desistncias", ela disse. "Preciso conversar com sua me sobre as 
despesas reembolsveis."
"Ela deve estar em algum lugar por a", Penny falou. "O que me pergunto  por que no endoidei."
"Algumas noivas abandonadas ficam sem ao", a mulher replicou. "Algumas chegam at a parar no pronto-socorro."
"E os noivos abandonados?", Penny perguntou.
"Nunca tivemos nenhum", a organizadora respondeu. ''Aqui, achei. Primeiro item da lista: informar aos convidados. A maioria das noivas pede a algum para fazer isso. 
Ficam muito envergonhadas quando so vistas com vestido de noiva sem terem se casado."
"Isso tambm pode ser constrangedor", Penny comentou.
"Quanto ao Plaza, nenhuma despesa reembolsvel", disse a organizadora. "Recomendo tentar vender o vestido no Ebay."
"Vou fazer isso", Penny concordou.
"S no pe foto", Vita sugeriu.
"Estou  disposio", disse a mulher. "J fiz isso dezenas de vezes. Sou boa nisso. Muito boa."
Vita alongou a coluna e disse com expresso compenetrada:
"Como dama de honra, a responsabilidade  minha. Sou eu que vou dar as explicaes devidas. Se for preciso, at me descabelo". E, vendo o sorriso forado de Penny, 
completou: "Depois no v dizer que no tentei".
A amiga de Penny era uma atriz oportunista que sempre cavava um papel de destaque, uma atuao que a tornasse famosa.
"E agora, surgindo na passarela, Vita Trivoli, estrelando A Noiva Abandonada", disse Penny.
"Voc vai se orgulhar de mim", Vita rebateu.
Bram  que devia fazer isso, Penny pensava.
''A comida  uma despesa reembolsvel?", ela perguntou para a srta. Wistlestop.
''Algumas'', a organizadora falou enquanto franzia a testa mostrando seriedade, e depois berrou no walkie-talkie: ''Ateno, pessoal da cozinha: no raspem as trufas".
''Bem, vamos acabar logo com isso", Penny disse ajeitando a roupa.
"E o que voc vai falar?", Vita indagou enquanto a seguia pelo corredor que ia dar no salo. "Seria bom reservar dois minutos para preparar um roteiro."
"Deixa pra l; eu improviso", Penny objetou. "Ainda estou sem ao. Eu devia estar sentindo... alguma coisa. Alguma coisa ruim."
"E voc acha que ir at l para encarar os convidados vai mudar a situao? Voc vai se torturar para sentir uma dor que no est sentindo. Hmmm!", Vita refutou. 
"Essa idia at que no  m.  uma sacudida na agonia. Uma cutucada na degradao. De repente, d certo."
Cutucada? Sacudida? Penny no gostou daquilo.
"Talvez seja melhor dar um tempo", disse, literalmente dando meia-volta.
"Agora  tarde", a srta. Wistlestop falou.
As trs mulheres tinham chegado  porta aberta do salo. Duas centenas de cabeas voltaram-se para elas. Os convidados sentavam-se em cadeiras estofadas dispostas 
em duas alas que ladeavam a passarela. Aps a cerimnia, as cadeiras seriam arrumadas em torno das mesas enquanto, do lado de fora, seria servido um coquetel. Na 
extremidade de cada fileira de cadeiras, um vaso helnico repleto de rosas brancas. Fitas de cetim branco, arrematadas por um lao, interligavam os vasos. Penny 
olhava o altar enfeitado de rosas no final da passarela.
Agora parecia estar a milhas de distncia.
"Vou com voc", Vita se ofereceu.
Penny recusou com a cabea:
"Pega o seu carro e me espera estacionada l na frente. Vou dizer o que tenho que dizer, depois a gente vai pra casa da mame."
"T legal", Vita respondeu, e depois tomou o rumo do saguo do hotel.
"Me d um empurro", disse Penny, voltando-se para a organizadora.
A srta. Wistlestop deu-lhe um empurrozinho de nada.
"Mais forte!"
A mulher empurrou-a ento com os ombros, como um jogador de futebol americano. Penny foi literalmente arremessada dentro da passarela. Logo o fotgrafo e o cinegrafista 
direcionaram as cmeras para ela.
Penny fez um gesto frentico de "corta" e eles retrocederam. Ela no permitiria de jeito nenhum que o lbum de casamento consistisse em cinco tomadas de sua garganta 
cortada pelo seu dedo indicador.
Caminhando aos trancos e barrancos pela passarela, ela ouvia o burburinho que aumentava de volume a cada passo. Com o corao disparado, pousou os olhos no altar 
e viu o rabino sentado numa cadeira estofada.
Quando alcanou a plataforma nupcial, Penny sorriu para o atarantado rabino e comeou a suar. Gotas de suor desciam pela sua testa. Um riacho escorria pelas suas 
costas. Respirou fundo (engasgando-se com o forte aroma de rosas) e sorriu para os convidados. J tinha enfrentado platias centenas de vezes. J tinha danado na 
Broadway em trajes sumrios para milhares de pessoas, mas esta (nesse verdadeiro show de ltima hora) era a primeira vez que se sentia exposta.
O burburinho, que j havia ultrapassado os limites da polidez, se deteve. Penny interrompeu o silncio com uma tossida, arrependida por no ter deixado Vita substitui-la.
Ela retirou o microfone do trip, aproximou-o dos lbios e falou:
"Al, Cleveland!"
Silncio. No se ouvia um pio.
Penny distinguiu sua voz amplificada.
"Quero agradecer a todos por terem vindo", comeou. "Cinco minutos atrs, o meu noivo, Bram Shiraz, teve uma revelao. Um autntico momento de iluminao. Ele se 
deu conta de que efetivamente o casamento no passa de uma questo de posse. Bram  esclarecido demais para compactuar com uma instituio to sexista, e no podia 
participar de um casamento. Neste caso, o dele mesmo. Para os que no me conhecem, sou Penny Bracket, a noiva. Mas isso  bvio ! Eu sou a nica que est com um 
vestido de noiva armado que pesa uns duzentos e cinqenta quilos."
Uma onda de burburinhos de preocupao espalhou-se pelas fileiras.
"No se preocupem, est tudo bem. De verdade", ela assegurou para todos. ''Agradeo a Bram por ter tido uma postura poltica sem se valer da velha ttica de dar 
o fora!. Isso sim  que seria barra pesada. Isso realmente deixaria transtornada uma mulher desprezada. Ela talvez at tivesse vontade de atirar ou quebrar qualquer 
coisa. Quem sabe at se rasgaria."
Rasgo. Algumas senhoras  frente estavam boquiabertas. Penny nem ligou. Com a mo que no segurava o microfone, ela apertava um babado branco do vestido. Involuntariamente, 
arrancou-o.
"Quem gosta de renda?", ela perguntou. "Tem algum a que gosta mesmo de ombreiras de Cinderela?" Penny agarrou o topo de sua manga direita e arrancou-a. Recolocou 
o microfone no trip e arrancou a manga esquerda. Atirou as duas para a multido.
"Que tal esses botes de prola? Algum a gosta desses incmodos botezinhos de merda?" Pondo as mos de cada lado do seu adorvel decote, ela arrancou duas dezenas 
de botes e depois os arremessou para a multido.
"Que tal os laos de cetim?" Rasgo.
"E uma anquinha de tule?" Puxo.
Penny puxava e rasgava e arrancava com a fora de dez noivas abandonadas.  medida que se livrava da fofice de sua carga, ela ria, ofegava; esquecera o pessoal do 
salo; esquecera o rabino. Mas no esquecera Bram. Em sua mente ele estava deitado numa cama sabe-se l onde, dormindo como um beb inocente, enquanto ela se engalfinhava 
com esse crocodilo albino - seu vestido de noiva. Por fim,ela o arrancou e o atirou como um chicote contra o altar, e o esmurrou at que ele virasse uma tira sem 
vida.
Penny tropeou. Triunfante, encarou o cadver do seu vestido de noiva. Radiante, ajeitou-se,  espera de aplausos pela sua vitria.
Em vez de aplausos, ela viu os rostos (francamente) aterrorizados das senhoras sentadas nas fileiras da frente. E os sorrisos maliciosos de seus maridos senis.
"Por favor, assinem o livro de visitas a seu bel-prazer. O coquetel ter incio em poucos minutos na piscina do hotel; portanto, desfrutem os canaps."
Ela deixou o altar. Vestindo apenas o que restara de seu conjunto de calcinha e suti azul, das novas sandlias prateadas, da velha gargantilha de prolas e uma 
pulseira de diamantes emprestada, Penny cruzou a passarela a passos largos e saiu do salo.



































Captulo 04

BRAM NO ESTAVA MORTO, ESTHER notou com alvio quando pressionou as costelas dele com o dedo indicador. S estava inconsciente. Nocauteado. Esther o preferia dessa 
maneira, esparramado e calado.
Ela estava 'pasma porque sua reao fora espontnea. Ou melhor, violenta. No conseguia se lembrar da ltima vez - ou de qualquer outra vez - em que seguira um impulso. 
 verdade que com muita freqncia tinha pensamentos sombrios, mas at dez segundos atrs nunca os colocara em prtica.
Esther se deu conta de que  bom fazer o que se quer, por mais que isso seja ruim.
Mas agora estava num impasse. Ao ver Bram imobilizado, ela e perguntava: "O que fao com voc?". Com um sbito lampejo de medo, inteirou-se de que os outros convidados 
- os familiares de Bram, por exemplo - tambm podiam vir  procura do noivo. Esther precipitou-se porta afora. O corredor estava vazio, com exceo do enorme carrinho 
da lavanderia (ela teve que sufocar um gritinho de satisfao) que havia tombado pelo caminho. Ento, empurrou o carro para dentro do quarto.
Claro que o carrinho  grande o bastante, pensou. Primeiro, ela ps a mala de  Bram dentro do carro (no podia deix-la para trs,  seno as pessoas se perguntariam 
por que ele no a tinha levado). Depois, empurrou o carro, posicionou-o contra a cama e rolou o corpo inerte de Bram para dentro dele, em cima da mala. Para ocultar 
o corpo, usou uma colcha que retirou da cama.
Enquanto ajeitava o penteado e a roupa, Esther checava outra vez o corredor. Todo vazio. Manobrou o carro para fora do quarto com facilidade. Deu uma olhada para 
trs e notou que o carro havia deixado rastro sobre o tapete felpudo. Rapidamente, desfez as pistas com o sapato. E com a ponta do lenol esfregou as maanetas da 
porta pelo lado de dentro e de fora, fechando-a em seguida.
Esther empurrou a carga at o fim do corredor, onde ficava o elevador de servio. Conhecia bem a arquitetura do hotel. Ela o inspecionara por ocasio da escolha 
das sutes para os convidados.
Alguma coisa dentro dela dizia que havia uma cmera de segurana embutida no painel de controle do elevador. A nica maneira de no ser filmada seria agachando-se 
atrs do carro e impelindo-o para dentro. O prprio carro a ocultaria. Na fita, a impresso que daria  que algum teria empurrado o carrinho para dentro do elevador 
e por algum motivo desistira de seguir junto.
Esther olhou em volta para se assegurar de que no havia testemunhas e se ps de joelhos atrs do carro. Movendo-se com lentido (pareceu-lhe uma eternidade), ela 
engatinhava enquanto empurrava o carro para dentro do elevador.
J dentro dele, ela se deu conta de que teria que apertar o boto para descer at o estacionamento subterrneo do hotel. Estava agachada atrs de uma lateral do 
carro, distante da porta e do painel de controle. Resolveu ento girar o carro, esgueirando-se por trs dele. Na fita, a impresso que daria  que o carro teria 
girado sozinho de forma demonaca. Quando se viu debaixo do painel, ela apertou o boto "S".
Se havia alguma crise de conscincia em Esther por ter apagado Bram (talvez sem sangramento), as deusas que regem o destino estavam claramente do seu lado e a absolveram: 
o elevador desceu catorze andares at a garagem sem nenhuma parada.
Quando a porta se abriu, Esther puxou o carrinho, ainda agachada, para fora do elevador. Na frente da porta, avistou uma nica crnera de segurana. Conseguiu desativ-la 
com facilidade e em passos rpidos empurrou o carrinho na direo de sua caminhonete Volvo Cross Country vermelha. Seus saltos altos ecoavam na garagem cavernosa 
 medida que ela empurrava o carro.
Apesar dos seus quarenta e cinco anos, Esther era alta (media pouco mais de um metro e oitenta) e muito forte. Tinha tempo de sobra, e gastava a maior parte dele 
na Academia Equilux, localizada no famoso Short Hares Mall. Anti-social por natureza, ela evitava as concorridas classes de Pilates e optava pela solido e monotonia 
das sesses de musculao. Quem olhasse para Esther, vestida no seu insinuante conjunto cinza e coberta de diamantes, dificilmente imaginaria que ela podia suportar 
75 quilos de presso.
Enquanto abria a porta traseira da caminhonete, Esther estimava que Bram devia pesar uns 85 quilos. O peso batia com sua capacidade' de levantamento. A tarefa ficaria 
muito mais fcil se ela conseguisse encaixar a borda do carrinho no pra-choque da caminhonete, para criar uma alavanca. Encaixou o carrinho e, suspendendo-o do 
cho, inclinou-o com seu contedo para dentro da caminhonete. De cabea para baixo, o carrinho escondia convenientemente Bram, a colcha e a mala.
Esther se ps ao volante e saiu em disparada da garagem. Cantando os pneus na rua, dobrou  direita. Preocupada com o excesso de velocidade, diminuiu a marcha. Afinal, 
estava a poucos minutos de sua manso em Overlook Lane. Com uma das mos no volante e a outra no celular, telefonou para casa.
"Residncia da sra. Bracket", atendeu Natasha Molotov, uma mulher de trinta e seis anos, nascida e criada na Moscou comunista que trabalhava na casa havia muito 
tempo como governanta e bab.
"Graas a Deus que voc est a", disse Esther. "Vou chegar em dois minutos."
"Por que voc no est no casamento?", Natasha perguntou.
"E por que voc  no est l?", Esther replicou.
"No dava pra assistir", disse Natasha.
"Presta ateno: Bram pulou fora. Ele mandou um bilhete infame para Penny. Encontrei o desgraado no quarto dele e... exagerei um pouquinho."
"Estou vendo voc chegar."
Cantando pneu, Esther subiu a toda pela via de entrada e freou bruscamente a caminhonete quando chegou ao topo. Natasha estava parada do lado de fora da porta da 
cozinha com o celular ainda encostado no rosto, espremida num vestido de festa que realava suas curvas.
Esther estacionou e saiu do carro. Depois, levantou a porta traseira e recuou. Oscilando sobre altssimos saltos plataforma, Natasha se juntou  patroa na traseira 
da caminhonete.
"J no temos bastante roupa pra lavar e voc ainda precisava trazer mais para casa?", Natasha falou ao ver o carrinho da lavanderia dentro da caminhonete.
Esther puxou o carrinho para fora. Ele desembarcou na vertical. Depois ela retirou a colcha e deixou Bram  mostra - uma coisa inerte. Natasha cutucou a perna dele 
com sua longa e bem-cuidada unha. Ele no reagiu. O que era bem significativo. A unha dela era afiadssima.
"Ser que a gente devia lev-lo ao hospital?", Esther perguntou.
"Por qu?", disse Natasha. "Ele est doente?"
"S nocauteado".
Lentamente, como se drogado, Bram rolou a cabea para o lado. Suas plpebras tremiam e ele gemeu.
Natasha deu um grito.
Esther fez o mesmo. As duas se agarraram em seus trajes de festa. Seus gritos devem ter sido demais para o crebro avariado de Bram. Os olhos dele se fecharam e 
ele roncou.
"Vamos lev-lo pra dentro", Esther decidiu.
As duas mulheres colocaram a colcha e a mala de volta no carrinho e rolaram Bram para dentro dele. Esse movimento o fez grunhir. A russa era mais musculosa que Esther, 
e por isso foi quem mais empurrou durante as manobras do carrinho pela cozinha.
"L pra cima", disse Esther.
Elas empurraram o carrinho atravs da copa e do grande saguo de entrada da manso, com um imponente p direito de mais de dez metros de altura. Entrada com p direito 
triplo, como os corretores chamavam, o majestoso saguo causava uma forte impresso nas visitas (no que Esther recebesse muitas), que no conseguiam conter um "uau!" 
quando entravam. A perspectiva de alar o carrinho pela escadaria fez com que o brao de Esther doesse.
"Voc j sabe onde estou pensando em coloc-lo?", ela perguntou para Natasha.
"Como  que vamos lev-lo por trs lances de escada?", a russa replicou.
"Um degrau de cada vez", disse Esther.
E assim fizeram - ambas de salto alto, puxando escada acima um carrinho cujas rodas saltavam e batiam a cada puxo.
"Graas a Deus pela adrenalina!", exclamou Esther quando elas atingiram o segundo lance de escadas.
"Que merdaaaaaa", Bram grunhiu, completamente grogue.
Surpresas pelo som inesperado, as mulheres largaram o carrinho. Ele despencou escada abaixo com Bram chacoalhando dentro dele como um brinquedo. E deslizou pelo 
saguo at se chocar com a porta de entrada.
"Que merda!", Natasha reclamou. "Estragou meu sapato."
De fato, um de seus sapatos tinha perdido o solado de cortia.
Depois de resgatar o carrinho, elas fizeram tudo outra vez, escada acima; Natasha (com um p descalo), puxando; Esther, empurrando. 
Na metade do segundo lance, Bram Shiraz parecia recuperar a conscincia.
"ltimo degrau", disse Natasha ofegante, enquanto elas puxavam o carrinho para o terceiro piso escuro e sujo.
Dentro de sua gaiola, Bram apalpava as laterais do carro, numa dbil tentativa de sair. Lentamente, ele abriu os olhos, fitou Esther e gaguejou:
"Eu sei que voc est tentando me matar! Voc odeia os homens, sua estraga-prazeres miservel."
"Pega aqui", disse Natasha, descalando o outro p.
"Muito obrigada", Esther agradeceu, pegando o sapato e acertando a cabea de Bram.
Bram foi mais uma vez nocauteado.
"Fica cada vez mais fcil", Esther falou.
"Qual porta," Natasha quis saber.
"A terceira  direita. Mas est trancada, e temos que achar a chave."
"Tem uma chave-mestra l na cozinha", disse Natasha enquanto descia para busc-la.
Sozinha com o seu ex-futuro genro, Esther inclinou-se sobre o carrinho e lembrou-se da ltima vez em que estivera no quarto de brinquedos, a nica parte da casa 
que planejara demolir depois que Russell foi embora. Mas com todos os eventos tristes que sucederam a partida dele, nunca mais ps os ps l dentro. E agora agradecia 
a si mesma por sua inrcia. O quarto de brinquedos era um lugar perfeito para abrigar Bram at que... at que ela decidisse o que fazer com ele.
Esther analisava o rosto do rapaz e no podia deixar de admirar aquelas pestanas compridas, escuras e curvadas. Alm de sua boa aparncia, Bram era de uma famlia 
abastada de Nova York. E tambm era bem-educado, tinha boas maneiras e um timo emprego. Mas nada disso importava. Esther o conhecia muito bem, conhecia a besta 
que se escondia sob sua pele. Ela suspeitava dele desde o dia em que O conhecera. Quando Penny sofreu o primeiro "acidente", a suspeita de Esther virou certeza.
Natasha, que desconfiava de qualquer um e tambm no confiava em Bram, retomou ofegante com a chave-mestra. Esther introduziu-a na fechadura e destrancou a porta. 
Empurrou-a para dentro e procurou o interruptor de luz.
"Traga-o pra dentro", ela disse.
Natasha empurrou o carrinho at o meio do quarto.
"D uma checada no banheiro e na pia", Esther falou, apontando para o banheiro sem janelas no final do salo. Enquanto empurrava Bram para o lado a fim de pegar 
a mala, Esther ouviu um gotejar e depois um correr de gua e a descarga.
"T funcionando", disse Natasha.
"Me ajuda aqui com a mala", disse Esther.
Tiraram a mala de dentro do carro e Esther carregou-a para fora do quarto de brinquedos. Apagou a luz e trancou a porta.
"Tenho que voltar para o hotel", ela disse. "Depois explico tudo, tim-tim por tim-tim. No o deixe sair. Penny no pode ficar sabendo de nada, t?"
Enquanto falava, Esther destrancou uma outra porta e empurrou a mala para dentro do aposento.
"Ele merece isso?", disse Natasha.
"E voc ainda pergunta?"
Esther desceu as escadas, atravessou correndo o salo, a cozinha e a porta e entrou no Volvo. Olhou o relgio. S tinham se passado vinte minutos desde que golpeara 
a cabea de Bram.
Ela diria que o estava procurando, que havia percorrido todo o hotel e que at tinha sado de carro para verificar nos arredores.
Esther saiu de casa e foi para o Short Hares Plaza. Durante o trajeto, rememorava os fatos da ltima meia hora.
No primeiro sinal luminoso, ela freou.
"Que droga", disse consigo mesma. ''A garrafa!"












Captulo 05

ENQUANTO PENNY SENTAVA NO banco do passageiro do fusquinha verde-limo de sua amiga, Vita assoviava para o seu conjunto de calcinha e suti azul.
"E ento", Vita quis saber, "como foi?"
"timo", Penny respondeu. "Isto  uma pequena amostra do que houve l."
"Nudez", disse a atriz de novelas, aprovando com a cabea. "Se fosse eu, teria tentado ganhar a audincia com empatia. Mas imagino que tambm daria a eles emoes 
baratas."
"No to baratas como esse casamento", Penny retrucou.
"Um dia voc vai olhar pra trs e tudo isso vai parecer engraado."
"Cala a boca e dirige."
As duas saram do Plaza. Penny, ocupada, tentando sentir-se triste. Mas tudo o que sentia naquele momento era o longo esforo despendido em sua batalha no altar 
e um pudor ambivalente, porque nos outros carros os motoristas notavam que ela s estava de calcinha e suti.
"Voc viu a cara que sua me fez quando leu o bilhete de Bram?", Vita inquiriu.
"No me lembro", Penny respondeu.
"Eu nunca tinha visto uma rachadura naquela armadura de 'Dama do Short Hares'.  espantoso ver como ela esconde tanta violncia sob uma plcida superfcie Chanel. 
Isso faz a gente pensar, sabe?"
"Ser que agora podemos nos limitar a um nico desastre da fa mlia Bracket?", Penny falou. Abriu a janela. A brisa do entardecer nos seus ombros expostos lhe deu 
um ligeiro arrepio. Embora no fosse a brisa de junho, o frio tomou seu corpo at atingir os ossos. E quanto mais se aproximavam da manso de Overlook, mais frio. 
Lar.
Ela fechou os olhos.
"Caraaca!", Vita gritou, virando violentamente o fusca para a direita.
"O que houve?", Penny perguntou, de olhos arregalados.
"Um idiota avanou o sinal e quase me acertou!"
"Querida, isso  Nova Jersey", Penny replicou com cinismo.
"No   toa que os seguros mais caros do pas so os daqui." 
Vita entrou na alameda da entrada da manso. O carro inclinava-se um pouco  medida que se aproximava. A alameda era inclinada.
A rampa, familiar.
Natasha Molotov abriu a porta principal da manso e espiou para fora com ansiedade e suspeita, sua expresso habitual. Ao notar que Penny eVita estavam no fusquinha, 
desceu descala a escadaria frontal da casa e se dirigiu para a entrada, pulando como um gato ao pisar na pavimentao quente, e por fim recuou para o sop da escada, 
onde aguardou por Penny com os braos totalmente abertos. Nos quinze anos de convivncia com Natasha, Penny nunca a tinha visto sem os seus escandalosos saltos altos.
"Voc  mais baixinha do que eu pensava", disse Penny, bem mais alta que ela.
"Vem pra Natasha", a velha camarada sovitica falou.
O calor daquele abrao pegou Penny de jeito. Finalmente, as lgrimas jorraram. Ela se perguntava se haveria algum no mundo que pudesse faz-la chorar como Natasha.
"Que timo", disse Penny. ''Voc me abraa e eu comeo a chorar."
"Na prxima, em vez de abrao te dou um tapa."
"Por que voc est descala?"
Os msculos da coluna da russa se retesaram.
"E voc, por que s est com a roupa de baixo?"
Penny desvencilhou-se do abrao e olhou o prprio corpo.
"J que o casamento tinha sido cancelado, decidi fazer um [i]striptease[/i] para os convidados. Afinal, teve gente que veio at do Canad. Eles mereciam um [i]show[/i]."
''Agora conte a histria desde o inicio", disse Natasha. ''Voc est com fome? Voc pode comer enquanto conta."
O estmago de Penny se revirou s de ouvir falar em comida.
"No quero, no, obrigada", respondeu, comprimindo o abdmen.
"Eu quero", disse Vita, que apesar de franzina podia traar um lutador de sum servido  mesa.
Natasha fingiu que no ouvira e concentrou-se em Penny.
"Se voc no quer comer, ento tome um banho de imerso. Na banheira de sua me."
Chamar de "banheira" a Jacuzzi de Esther, com seus doze jatos, controle de temperatura, acabamento em mrmore e dois assentos, era o mesmo que chamar a Barney de 
lojinha.
"Legal!", Penny concordou, j sentindo os jatos d'gua. "Com os sais de banho franceses da mame?"
"Pode deixar que no conto pra ela."
Penny se deixou guiar por Natasha atravs da manso, aliviada por ter entregado o controle de seus movimentos a outra pessoa.
"O que mame te disse?", ela perguntou.
"Ela no telefonou nem apareceu por aqui", Natasha respondeu com veemncia.
"E como voc soube que o casamento foi cancelado?", Penny inquiriu. "Por que voc no foi?"
"Eu j estava saindo quando sua me telefonou", Natasha explicou.
"Mas voc acabou de dizer que ela no telefonou."
"Esqueci", disse Natasha. "Foi um telefonema curto. Dois segundos. Ela falou que o casamento tinha sido cancelado, me mandou ficar em casa e depois se despediu. 
Por isso achei que no era um verdadeiro telefonema."
Logo que entrou na casa Vita virou  direita, na direo da cozinha deslumbrante da manso, com duas geladeiras, um moderno fogo de seis bocas, ladrilhos italianos, 
panelas de cobre e uma mquina de lavar loua que, alm de lavar, esterilizava, secava e polia pratos e copos, e ainda tocava msica. Natasha sempre dizia: 
"Pelo preo que essa mquina custou, ela devia fazer sexo com a gente".
Penny e Natasha subiram um lance de escada. O segundo andar da manso tinha sete cmodos: o quarto de Esther - uma sute (incluindo um closet to grande que dava 
para correr dentro dele); o quarto de Penny, uma sute pequena; o quarto de Natasha (que tambm era uma sute); o quarto de costura de Esther (onde ela nunca costurava, 
mas guardava uma coleo de dez mquinas de costura antigas, uma delas do sculo XIX); uma biblioteca transformada em espao de exibio para as cinco dzias de 
cadeiras Queen Anne de Esther; uma sala de msica (onde Penny recebera lies de piano durante seis anos, embora no conseguisse tocar uma s nota, e onde Esther 
tambm mantinha sua coleo de violinos antigos, embora no fosse capaz de segurar um arco); e por fim, o cmodo que desde criana Penny achava que era o quarto 
dos gnios, onde Esther apresentava - no cho, nas paredes e no teto - duas dzias de tapetes persas tecidos  mo.
"Isso no  seu?", Penny perguntou quando se deparou com enfeites de um sapato na escada.

"Como  que veio parar aqui?", Natasha rebateu com perplexidade enquanto recolhia os enfeites dos sapatos e os colocava debaixo do brao.
"Seja como for, seu vestido  lindo", disse Penny. "Lamento pelo rasgo."
"Que rasgo?", Natasha quis saber.
"Na costura. Ali daquele lado."
"Puta que pariu!", Natasha no se conteve quando examinou o rasgo. Logo iniciou uma ladainha em russo que terminou (em ingls) com... "ela vai me pagar por isso".
"Quem?"
"Ningum", disse Natasha. "A mquina de lavar."
"Mas esse vestido no  novo?"
"Eu sempre lavo antes de usar."
"Acho que estou ficando maluca", Penny falou enquanto contornavam a balaustrada e viravam  esquerda na direo da sute da me. "Juro que senti o cheiro da colnia 
do Bram."
"No senti nada", Natasha retrucou.
"Mas t demais", Penny insistiu, inspirando. "Ele se banha com ela."
"No tem cheiro nenhum aqui", Natasha sustentou enquanto puxava Penny pelo corredor e em seguida pelo quarto de Esther, que parecia um hangar de avio, cruzando 
a gigantesca cama de casal, o closet de portas duplas, a ampla rea de estar, as espreguiadeiras estofadas, os espelhos e armrios de mogno e por fim o banheiro, 
onde ela abriu as trs torneiras da Jacuzzi na capacidade mxima. Depois, adicionou algumas colheres de sais de banho com essncia de jasmim na gua e encheu a banheira 
com um vapor perfumado.
Penny tirou o suti e a calcinha e entrou na gua. Natasha girou o boto do console da Jacuzzi e diminuiu a intensidade da luz. Depois, girou outro boto e comeou 
a tocar Midnight in the Rain Forest, um CD de Esther. Som suave de gotas caindo sobre a copa das rvores, do grasnar de um tucano, do guincho dos lmures.
 medida que a banheira enchia, Penny se deixava escorregar do assento para submergir. Retirou os grampos dos cabelos e soltou-os completamente para que o [i]spray[/i] 
e o gel se desgrudassem com a gua. Esfregou o rosto para limp-lo daquela maquiagem medonha. E quando seus pulmes comearam a se comprimir, emergiu para respirar.
"Ei",Vita disse na borda da banheira.
Penny virou-se para olh-la, cobrindo instintivamente os seios.
"Como se no os tivesse visto antes", brincou Vita. "Como se tivesse esquecido como eles so. Quantas bailarinas magricelas tm os peites redondos de estrela porn 
que voc tem?"
Os seios de Vita tambm eram fartos e redondos, mas graas  cirurgia. Na novela The House of Blusher do canal GET (Girl Entertainment Television), Cherry Bomb, 
a personagem de Vita, resolveu fazer um implante de silicone para atrair o interesse do seu amado, um podlogo que tinha um fetiche por seios grandes e redondos. 
Vita foi informada pelo diretor de que podia optar pelo enchimento no suti (e assim restringir o seu vesturio provocante) ou por se submeter a um implante de silicone 
que o produtor do programa (que Vita estava namorando na ocasio) concordava em pagar. A popularidade de Cherry cresceu junto com os peites. Vita resolveu arranjar 
um novo namorado que combinasse com os novos seios. Ela substituiu o produtor pelo ator que fazia o papel do podlogo fetichista, que, por sua vez, foi substitudo 
quando ela se deu conta de que ele (o ator, no o podlogo) era um verdadeiro bundo. Um bundo.
Penny pegou na prateleira da banheira a cesta com xampu, condicionador e [i]leave-in[/i].
"Acho que estou maluca", ela repetiu.
"Voc acha?", Vita falou enquanto dava uma mordida no sanduche que havia trazido.
"Posso sentir a presena do Bram. De maneira palpvel. Como se ele estivesse por perto."
"Reao retardada."
"Algumas semanas atrs eu tive um sonho em que ele fugia", disse Penny. "Talvez todas as noivas tenham o mesmo sonho. Voc no acha?"
"Claro que sim", Vita respondeu. "No paro de sonhar com isso. S que nesse sonho sou eu que fujo."
"Ainda no consigo acreditar."
"Enquanto voc assimila", disse Vita, "vamos falar do Morris Nova. Eu at que transaria com ele."
"No tenho dvida", Penny respondeu. "Mas voc no se cansa de transar?"
"Mas transar  aquilo que eu... fao", Vita comentou enquanto mastigava um naco de sanduche.
"Ser que voc j no transou o bastante?"
"Eu tenho vinte e trs anos!", Vita retrucou. "S estou comeando. E outra vez gostaria de salientar a ironia: dava nojo ver o modo como meus pais eram felizes, 
e por isso no tenho o menor interesse em casar. J voc est  caa de um marido desde a poca do colgio, e seus pais no eram exatamente..."
"Meus pais foram felizes", Penny protestou. "Por cinco minutos."
"Voc devia contar a verdade pra sua me", disse Vita. "Sobre os ferimentos."
"Voc pode imaginar essa conversa?", Penny suspirou compenetrada.
"Agora no preciso mais fazer isso. O que no quer dizer que o Bram nunca mais pisar nesta casa."
"Se pisasse, sua me cortaria o cacete dele."
"Ela precisaria de uma faca enorme", Penny comentou.
"Por falar nisso, onde ela est?", Vita quis saber. "Qualquer um pensaria que a me da noiva abandonada devia se grudar na filha nessa hora de tanta necessidade."
"Minha me no  disso", Penny replicou. "Ainda deve estar no hotel, lidando com a srta.Wistlestop. Vou telefonar para o celular dela." Penny pegou o telefone ao 
lado da banheira. Apertou o boto talk e ps o fone no ouvido, mas a linha estava ocupada.
"... pode sentir o cheiro dele", ela ouviu Natasha falando.
"Ele fede", sua me dizia. "E pode deixar que pago pelo seu vestido. Relaxe, t? Relaxe! Caralho, fique calma!"
"Dou comida pra ele?", Natasha perguntou.
"D restos de comida da lata de lixo", Esther respondeu.
"Al?", Penny se intrometeu. "Me?  voc?"
"Penny?", a me falou depois de engolir em seco.
"Restos de comida pra quem?"
"Um vira-lata que apareceu na porta da cozinha. Esther quer aliment-lo para que ele no morra de fome dentro da propriedade e acabe atraindo os urubus", Natasha 
respondeu com rapidez.
"Imagine que horror!", disse Esther. "Uma verdadeira ameaa: com o aumento explosivo da populao de cervos, Essex County estava infestada de urubus."
"Voc est preocupada com um vira-lata no dia em que meu casamento se desfez?!", comentou Penny.
"Vou desligar", Natasha falou na extenso. Clique.
Agora s restavam as duas na linha.
"Me, onde voc est?", Penny perguntou.
"Ainda no hotel. Tenho algumas coisas pendentes", e Esther acrescentou num raro e suave tom de voz: "Olha, apesar de minhas desconfianas quanto ao Bram, estou terrivelmente 
consternada por voc ter que passar por tudo isso. E estou chateada por no estar a com voc neste momento. Mas assim que der volto pra casa".
Os olhos de Penny se encheram outra vez de lgrimas. Haveria algum substituto para o amor materno?, ela se perguntava. Em qualquer idade? Mesmo que artificial? Ela 
se lembrava de uma vez ter lido que uma mulher sem me ou sem filha estava sozinha no mundo.
''Venha logo", ela disse.





































Captulo 06

"UFA", ESTHER DISSE CONSIGO MESMA enquanto desligava o celular.
Escapara por um triz ao telefone. Seqestrara o noivo de Penny, e provavelmente a filha no aprovaria seu comportamento. Nos trs segundos que levou para decidir 
golpe-lo, Esther no tinha pensado nas conseqncias. Ela o havia capturado. E agora, o que faria com ele?
E como  que podia se assegurar de que algum - sobretudo Penny - no acabaria descobrindo tudo? Tinha que tirar Penny da manso. Tinha que convenc-la a voltar 
para o apartamento dela na cidade. Mas, antes de tudo: reaver a garrafa. As digitais de Esther na garrafa eram a nica prova de que estivera no quarto de Bram. Ela 
sabia que o vidro  uma excelente superfcie para reter a oleosidade das digitais (sentiu uma ligeira repulsa ao pensar que na ponta dos seus dedos havia um leo 
que pingava por tudo quanto  canto aonde ela fosse). Alm disso, partculas de pele, cabelo e sangue (eca) tambm podiam ser encontrados. O desaparecimento de Bram 
no seria mais visto como mera fuga de noivo.
Ela estava de volta ao Plaza depois de ter deixado o carro com o manobrista, de olhos baixos para evitar os convidados eventuais que ainda estivessem por l. A tela 
do celular mostrava que a srta. Wistlestop j tinha feito duas chamadas. Na hora certa, logo que encobrisse seu crime, Esther trataria dos negcios.
"Prioridade", ela repetia para si mesma enquanto o elevador se dirigia para o dcimo segundo andar.
A passos largos pelo corredor, ela segurava com fora o carto de Penny que abria a porta do quarto. Sua filha deixara o retngulo de plstico com ela para guard-lo 
at o final da recepo, j que o volumoso vestido de noiva no tinha bolso. Esther enfiou o carto no encaixe. Uma luz verde assinalou que a fechadura se destrancara. 
Ela girou a maaneta e comeou a empurrar... mas a porta se abriu pesada e rapidamente, projetando Esther para dentro do quarto, onde ela literalmente trombou de 
cara com um corpo humano. O corpo de um homem alto de smoking preto. Com o nariz pressionado contra o n da gravata do homem, ela no conseguia ver o rosto dele.
"Esther?", exclamou.
"Keith!", ela disse ao olh-lo, "Oi."
Era o pai vivo de Bram. O homenzarro nova-iorquino que pagara pelas sutes. Ela o tinha visto pela primeira vez na noite anterior, durante o jantar de ensaio, 
mas quase no se haviam falado. Ao se apresentar, ele comentou:
"Quando meu filho disse que estava comprometido com uma moa de Nova Jersey, s lhe fiz uma pergunta."
"Qual?", ela se interessou.
"Qual a sada?", e ele escancarou os dentes.
A pacincia de Esther com Keith Shiraz se esgotou depois dessas duas palavras, e ela s estava comeando a beber um martni. Na hora dos brindes, ela alegou estar 
muito emocionada para brindar aos noivos. Keith, por sua vez, no foi o nico a exagerar na cerimnia. Ficou em p, enxugou os olhos e disse que sempre havia sonhado 
com o dia em que seu filho se uniria a uma boa moa, como ele se unira a Alice, a amada e finada me de Bram que agora descansava ao lado de Deus.
Quando Keith invocou Deus, Esther se viu obrigada a rezar. Oh, Senhor, ela clamou em silncio. Por piedade, faa chegar outro martni pra mim.
Agora, um dia depois,  soleira do quarto nupcial, sem lgrimas nos olhos, Keith Shiraz perguntava:
"O que voc est fazendo aqui?"
"Procurando o seu filho", ela respondeu prontamente.
"Eu tambm", ele disse. "Como  que voc conseguiu o carto do quarto?", perguntou, apontando para o carto que ela segurava entre os dedos.
"Minha filha me deu", ela respondeu.
"Ele no est aqui", Keith falou.
"Posso entrar?", ela perguntou.
Ele desimpediu a passagem e Esther entrou, passando rapidamente os olhos pelo quarto,  procura da garrafa que imaginava estar coberta de sangue com tufos de cabelo 
grudados.
Seus olhos varreram o cho. A cama, a mesa, o armrio. Ela fazia fora para se lembrar do que fizera com a garrafa quando puxara o corpo morto (ainda vivo) de Eram 
para o carrinho da lavanderia. Sua memria estava embaada. O pnico lhe revirava o estmago.
De repente, ela avistou o vidro verde debaixo da mesinha-de-cabeceira  direita da cama. Seus dedos se curvaram. Ela queria pegar a garrafa e cair fora do hotel. 
Mas Esther sentiu os olhos de Keith s suas costas. E lhe deu um sorriso placidamente forado.
"Est claro que Bram deixou o hotel", ela disse. "Voc devia procurar por ele... l fora", sugeriu, virando-se com displicncia na direo da janela.
"Peo desculpas pelo comportamento de Bram", ele disse. ''Assim que o encontrar, farei com que se desculpe com voc e com Penny. Isso  uma vergonha. Meus pais voaram 
da Flrida at aqui. E olha que j esto na faixa dos oitenta, e doentes. Talvez seja a ltima viagem que faam na vida, e eles desejavam que ela fosse feliz. Esto 
desolados."
"Voc devia ficar com eles", Esther falou com os olhos cinzentos irradiando simpatia. Pelo menos um dos olhos. O outro estava cravado na garrafa verde.
Mas Keith no fez o que ela queria. Desabou sobre a cama, segurando a cabea com as mos. Quando se sentou, inadvertidamente cutucou a garrafa com o bico do sapato. 
A garrafa rolou alguns centmetros e chocou-se contra o p da mesinha-de-cabeceira, O gargalo estava inteiramente visvel. Se Keith olhasse para baixo, certamente 
o veria.
Esther apressou-se em sentar na cama perto de Keith, na tentativa de chutar a garrafa para debaixo da mesa.
"Tudo bem, tudo bem", ela falou enquanto dava tapinhas sem jeito no ombro dele, notando que estava tenso sob o palet do smoking..
''Achei que voc estava zangada", ele disse.
''Ah, bem, voc sabe, a raiva no ajuda nada", ela argumentou com os olhos grudados na rolha ainda visvel da garrafa. Se ao menos pudesse agarr-la e cair fora... 
Ela deu uma olhada em Keith. Agora ele estava esfregando os olhos. Com a adrenalina vibrando, Esther aproximou a mo.
Keith readquiriu prontamente a conscincia.
"Muito obrigado, Esther", ele disse, "por sua gentileza", e beijou a mo dela como se ela fosse uma rainha.
O contato inesperado deixou-a eletrizada da cabea aos ps.
Sem fala, ela congelou.
Keith largou a mo de Esther, que permaneceu no ar por conta da petrificao.
"Eu no entendo isso. Nada disso", ele disse, arqueando a sobrancelha.
"Sei que com o tempo ns entendere...", ela retrucava.
"Por exemplo, onde est a colcha?", ele perguntou.
''A col..."
"E o que  que esse champanhe est fazendo no cho?"
"No vi nenhuma garrafa", ela replicou.
"Voc chutou a garrafa", ele rebateu. "Passou o tempo todo olhando pra ela."
"Ohhhhh", ela se esganiou. ''Voc est falando [i]daquela[/i] garrafa de champanhe!"
Esther agachou-se e pegou a garrafa. De costas para Keith, rapidamente inspecionou o vidro e ficou aliviada ao constatar que ali no havia cabelo nem sangue. Agarrou 
a garrafa em triunfo e passou as mos em sua superfcie, apagando velhas impresses e imprimindo novas.
Com a misso cumprida, ela se ergueu e reps a garrafa no balde de gelo, dizendo:
"Isso vai ficar aqui. timo. E agora", ela bateu palminhas, "vou levar voc de volta aos seus pais doentes, velhos..."
"O que voc acha do sumio da colcha?", Keith perguntou.
"Por que isso o amofina? Voc tem alguma suspeita", ela deu uma risada debochada, "de assassinato?"
" muito estranho", ele disse. "Inexplicvel. Estou encucado."
"Talvez Bram tenha derramado bebida sobre ela e a camareira tenha levado."
" possvel", ele falou, levantando-se e encaminhando-se na direo dela, que sentiu uma corrente eltrica percorrer sua espinha.
"Voc devia chamar a camareira", ela sugeriu.
"E o que voc acha disso?", ele inquiriu enquanto tirava a garrafa de dentro do balde. "Dom Prignon no cho? No faz sentido."
"Talvez algum tenha tentado roub-lo e, ao ser interrompido, largou a garrafa e fugiu."
"Mas como  que um ladro entraria aqui? S h dois cartes. Um com voc, e o que Bram me deu."
"Voc no o deixou com ningum? Talvez para alguma mulher guardar na bolsa?"
"No tenho mulher", ele afirmou.
Quer dizer que o vivo musculoso e charmoso estava sem namorada. Esther tentava se lembrar de quando a mulher dele morrera. Penny devia ter-lhe contado. Alguns anos 
atrs? A morte tinha sido horrvel, prolongada - cncer ou qualquer outra doena hedionda. Russell, seu marido, morrera com muita rapidez, de um s golpe, algum 
poderia dizer. O que fora melhor para todos.
"Vou pensar seriamente a respeito do mistrio da colcha e da garrafa", ela disse. "E depois volto com alguma idia brilhante."
''Acho que aconteceu alguma coisa aqui", Keith insistia.
"De fato", Esther assentiu, perdendo a pacincia com as suspeitas dele (embora elas correspondessem  mais pura verdade): "Seu filho destruiu o casamento de minha 
filha. Agiu como um covarde. Talvez tenha roubado a colcha quando se escondeu aqui como um criminoso. Como um ladro no meio da noite."
"Por Deus, Esther", Keith gemeu, balanando a cabea e exibindo o belo pescoo musculoso. "Hoje Bram estragou tudo. Arruinou tudo mesmo. Mas voc tem que compreender 
a minha preocupao com ele. Afinal,  meu nico filho."
O amor do pai. Um luxo que certamente Bram tem como certo, Esther pensava. Penny nunca experimentara o amor incondicional do pai. Se tivesse experimentado, talvez 
tivesse escolhido um noivo melhor. Se a prpria Esther no tivesse tido um traste como pai, talvez no tivesse escolhido Russell. Pais ruins e escolhas ruins andam 
juntos. Por outro lado, Keith parecia genuinamente preocupado com o filho. Ele podia ter sido uma figura paterna maravilhosa para Penny, Esther pensava com uma sbita 
e selvagem tristeza.
"Tenho certeza de que Bram est bem", ela disse. "Onde quer que esteja".
"O sumio dele  muito estranho", Keith comentou olhando-a com seus enormes olhos cinzentos, parecidos com os dela, implorando por uma outra frase confortadora.
''Aposto que amanh voc ter notcias dele", disse Esther.









































Captulo 07

DE BANHO TOMADO E DESANUVIADA, Penny foi at seu quarto em busca de roupas. O closet estava cheio de coisas da poca do colgio. Ela pegou uma velha cala Levi's 
de cintura alta (ridcula para os padres atuais) e uma camiseta escandalosamente laranja. Para seu alvio, a cala serviu. A cor tangerina da camiseta ressaltou 
o tom acobreado de seus cabelos castanhos. A malha velha e usada lhe deu a sensao de aconchego e segurana. Ela se sentia feliz por estar em casa.
" impressionante como um banho quente tem o poder de desanuviar as pessoas", disse Vita.
"Falando outra vez de Bram?"
"E olha que ainda no so sete horas."
Vita decidiu trocar sua criao magenta por uma cala vermelha e uma camiseta azul velha onde se lia: "NO TO CARA COMO PAREO".
"No acredito que voc caiba nisso", disse Vita, lutando para enfiar a cabea pela gola estreita da camiseta. "Devia estar escrito 'No To Gorda como Pareo'."
"No a uso desde o ginsio", disse Penny. "E mesmo naquela poca j era apertada."
"E sua me guardou?"
"Voc precisa ver os arquivos l no poro. Desenhos do jardim de infncia. Boletins do primrio."
"Qual era a sua escola?", Vita perguntou.
"Short Hares Institute of Technology. Particular,  claro", ela respondeu enquanto garimpava o armrio. ''Aqui, uma velha camiseta da escola."
Penny pegou uma camiseta com a insgnia da escola.
Confortavelmente vestidas, as duas mulheres desceram para a cozinha. Apesar dos vinte cmodos confortveis da manso, todo mundo parecia preferir se reunir em torno 
da bancada da cozinha. No segundo andar, Penny inspirou o ar com cuidado e detectou traos remanescentes de Bram.
"Voc sentiu isso?", ela perguntou para Vita.
"Mostarda?", sua amiga franziu as narinas gulosas.
No primeiro andar, Natasha aguardava por elas na cozinha com uma faca na mo. Estava montando sanduches de po integral com mostarda, presunto italiano e queijo 
provolone.
"Seu favorito", disse Natasha.
"Isso  dos cus, obrigada", Penny comentou enquanto dava uma mordida. ''Voc alimentou o cachorro?"
"Que cachorro?"
"O vira-lata. Aquele que voc falou pra mame."
''Ah, aquele cachorro", disse Natasha. "Dei ovo cozido pra ele."
"Ele vai voltar", Vita avisou. ''Alimente um cachorro e ganhe um amigo pra toda a vida."
Blm... Campainha da porta. Penny balanou a cabea como se j soubesse quem era e falou para Vita:
"S podem ser a Amy e a Nicole. Aposto que vieram secas pelos detalhes sangrentos da minha humilhao."
"E as amigas servem pra qu?", Vita retrucou.
Atravessando a cozinha, Penny seguiu at a entrada com p direito triplo e l abriu a majestosa porta, certa de que logo estaria rodeada por dez amigas a lhe oferecer 
conforto e apoio na crucificao do bastardo.
Em vez disso, ela se viu frente a frente com a mulherzinha atarracada.
"Senhorita Wistlestop!", Penny exclamou. Atrs da organizadora da recepo avistavam-se duas caminhonetes brancas estacionadas.
"Oi, Penny", disse a srta. Wistlestop, "desculpe ter vindo sem avisar. Tentei ligar para o celular de sua me umas seis vezes."
"Ela est no Plaza."
"No a vi l", disse a srta. Wistlestop. "E no podia esperar. Salvei o mximo que pude e trouxe imediatamente para vocs. O resto tem que ser enviado para abrigos 
e casas de caridade."
"Salvou o qu?", Penny inquiriu. Sua vida romntica? Seus sonhos ou um futuro feliz?
"Os no-reembolsveis. A comida. Flores. A escultura de gelo", disse a srta. Wistlestop. ''Alm disso, tem uma caminhonete lotada de presentes."
"Ningum aqui encomendou uma escultura de gelo", retrucou Penny dando uma piscadela.
" um presente surpresa do pai do noivo."
Trs homens saltaram da traseira da caminhonete e bravamente tentaram descarregar a enorme e escorregadia escultura.
O gelo fora talhado com dois coraes interligados. Parecidos com os anis olmpicos. Mas a diferena  que eram apenas dois tinham a forma de corao. Se o casamento 
tivesse transcorrido de outra maneira, certamente Penny teria adorado o presente. Uma simples mensagem de amor, de vidas unidas e de paixo. Ela ria enquanto imaginava 
Keith apresentando a escultura com um floreio. Os oohs e aahs. Ela e Bram abraando Keith e se beijando.
Como aqueles coraes de gelo teriam aquecido o corao de cada um deles!
"Onde a senhora quer que a gente ponha?", um dos homens perguntou.
"Deixa pingar na minha cabea", Penny respondeu.
A srta. Wistlestop consultou sua agenda:
"No que diz respeito  comida, estamos entregando oitenta pores de costeleta, setenta pores de salmo grelhado, cinqenta bandejas de frango assado, quinze quilos 
de coquetel de camaro..."
"Deixa comigo", Natasha falou emergindo da cozinha, disposta a assumir o controle de tudo, para gratido eterna de Penny. A russa checava a lista de itens e calculava 
de cabea onde eles podiam ficar.
"No poro temos um freezer enorme. E as geladeiras da cozinha podem estocar mais coisas. Os homens tm que passar pela porta da cozinha."
Mas os homens se ocupavam em descarregar outro torpedo: o bolo de noiva de trs andares, em cima de um carrinho de rodas. A cobertura de glac consistia em trs 
cestos cheios de flores vermelhas, cor-de-rosa e azuis, guarnecidas por lindas folhas de acar verdes de videira.
"Eu podia lamber essa cobertura toda at a meia-noite", disse Penny.
"O andar de baixo  meu", Vita gritou, saindo da cozinha.
"Eu fico com o bolo", disse Natasha fazendo um sinal de desaprovao.
" melhor", Penny assentiu. "E conheo um lugar perfeito para a escultura. Sigam-me."
Os trs homens passaram para Natasha o carrinho de rodas com o bolo. Depois, transferiram a escultura para uma base, resmungando palavres. Eles a levantaram e acompanharam 
Penny atravs da entrada de mrmore, atravessando a sala de pingue-pongue com suas trs mesas de torneio, o solrio, com sua vista para o jardim, a sala de jantar 
com mesa para vinte pessoas, a sala de estar onde Penny nunca passara mais do que dez minutos, a sala de ginstica que sua me raramente usava depois que comeara 
a freqentar a Equilux, e ainda um outro aposento com uma grande galeria que abrigava a coleo de antigos tabuleiros de xadrez de Esther.
Em frente s portas francesas que se abriam para o ptio, Penny fez um sinal para que os homens a seguissem. Caminhou pelo piso de arenito cinzento entre os canteiros, 
que nessa poca do ano floresciam com azalias e penias, at chegar ao ptio, onde desceu alguns degraus pavimentados at a piscina em formato de rins.
"Por aqui, gente", Penny chamou e se posicionou na borda da piscina.
Os homens colocaram a escultura escorregadia perto dela e prontamente a deixaram sozinha. Penny deslizou as mos sobre as curvas da escultura enquanto sentia o formigamento 
provocado pelo gelo. Fechou os olhos e deixou os dedos escorrerem sobre a superfcie do gelo enquanto pensava no corpo escultural de Bram, nas centenas de vezes 
em que tinham transado durante os dois anos em que estiveram juntos. Ela fizera tudo o que podia para lhe dar prazer. E ele tivera um sem-nmero de orgasmos plenos, 
a ponto de perder o controle. Penny o fizera gritar e se agarrar nos lenis como se fosse morrer se ela parasse ou continuasse. Mas, embora as evidncias mostrassem 
o contrrio, ela sempre tivera a impresso de que ele no estava satisfeito.
Penny beijou os coraes, e em seguida empurrou a escultura para dentro da piscina. Ela achou que a escultura racharia e boiaria como um cubo de gelo no copo, mas 
os coraes afundaram na piscina.



























Captulo 08

SPLECH.
Bram Shiraz acordou abruptamente. Sonhara que havia cado de um penhasco dentro de um rio. Mas no, ele se deu conta com alvio, no estava se afogando.
Sua cabea  que batia como um liquidificador. Ele comeou a apalpar o crnio e logo localizou um galo do tamanho de um ovo. Com a viso embaralhada, avistou as 
paredes de lona brancas ao redor. Tentou se mover, mas tinha uma colcha enroscada nas pernas. Com o esforo que fez para se libertar, o carrinho tombou, e ele rolou 
para o cho acarpetado.
Bram olhou em torno e tentou imaginar onde estava. O quarto estava escuro. Um feixe de luz entrava por uma clarabia retangular no teto, atravessava o quarto e recaa 
direto sobre o carrinho, como um foco. Ele se levantou com rapidez, sem pensar que um movimento sbito podia deix-lo tonto. Acabou despencando como um saco perto 
do carrinho, estirado no centro do quarto.
A ltima coisa de que se lembrava era que estava fazendo a mala na sute nupcial do hotel.
Ser que ainda era o dia do seu casamento? O rosto de Penny surgia em meio  nvoa de sua conscincia, os lbios vermelhs e as covinhas que ele adorava percorrer 
com a lngua. Os cabelos castanhos que faziam ccegas no seu peito quando ela montava em cima dele na cama. Os olhos negros profundos, alertas, que sempre avaliavam 
suas reaes, analisando-o, medindo-o constantemente.
Gemendo, Bram virou de barriga para baixo e se ps de quatro. Na poca do ginsio, ele tomara uma pancada na testa. E agora sentia o mesmo desnorteio. Sabia que 
fora atingido, mas no fazia a mnima idia do que ou de quem o golpeara. Alm disso, no tinha a menor noo de onde estava.
Apesar desse significativo esquecimento, Bram estava consciente de quem era, e do que tinha feito naquele dia. (Na vspera? Na semana anterior?). Foi tomado pelo 
peso da culpa, e isso doa mais que sua cabea. Apoiando-se por causa da tonteira, ps-se em p. Andou at a parede mais prxima em busca do interruptor e acendeu 
a luz.
Ele conseguia enxergar, mas a luminosidade o incomodava. O quarto era quadrado e desprovido de janelas (exceto a clarabia no teto), e a altura do p-direito era 
de pelo menos uns cinco metros. O piso era acarpetado. Como as paredes, o carpete apresentava uma tonalidade suave de lavanda. Estantes altas alinhavam-se contra 
duas paredes. Nelas se viam muitos brinquedos, livros ilustrados e antigos vdeos, todos nas respectivas caixas. Ele comeou a ler os ttulos (com. o crebro batendo 
dentro do crnio): Cinderela, Branca de Neve, A Pequena Sereia. Numa das paredes, um quadro de cortia coberto por desenhos coloridos - princesas, unicrnios, gatos, 
cachorros, bruxas, castelos. Uma TV de trinta e duas polegadas disposta sobre um console de metal negro (sem cabo ou antena). Embaixo, um VCR. Um pequeno div cor-de-rosa 
posicionado diante da Tv. Outros mveis: uma mesinha branca com duas cadeirinhas brancas. Uma velha carteira de escola. Bram ergueu o tampo e encontrou centenas 
de lpis de cera partidos e comidos, um vidro decorado com um dos personagens de Vila Ssamo besuntado de cola branca seca, um bloco de folhas coloridas de desenho.
Ele fechou a carteira, de cenho franzido. Elevou o olhar e deu de cara com seu prprio reflexo num grande espelho que dominava a parede norte do quarto.
"Estou um trapo", disse consigo mesmo.
Considerando a roupa que vestia - o mesmo jeans e a mesma camiseta de quando estava fazendo a mala -, calculou que no se passara muito tempo. Seu cabelo estava 
despenteado, mas limpo. No geral, ele parecia intacto e sem marcas de possveis agresses, exceto pelo galo na cabea. Aproximando-se do espelho, repartiu o cabelo 
para examinar o galo. Estava to visvel que dava para v-lo pulsando, como se fosse um ovo quase a se quebrar.
Ele recuou, tonto (relembrando uma cena no Alien, o Passageiro), e virou-se de costas para o espelho. De onde estava, pde ver que o quarto tinha duas portas. Uma 
estava ligeiramente aberta. Investigou e descobriu que era um pequeno banheiro com um chuveiro, uma privada baixa e uma pequena pia. 
Bram checou a outra porta. Trancada. Valeu-se da fora que tinha para arromb-la. Pssima idia. Arremessar o ombro contra a porta s fez piorar a tontura.
Sentou-se no sof de criana com as pernas estiradas para a frente, resolvido a descansar. O surrealismo da situao fez com que ele duvidasse por um 'momento de 
que estava realmente acordado, ou plenamente consciente. Talvez estivesse sob forte estresse - e culpa -, induzido por um episdio alucinatrio. Fechou os
olhos e entregou-se. 
Clunk. O inconfundvel rudo metlico de uma fechadura que se abria. Bram tentou erguer-se, mas tropeou e caiu. Do cho, viu a porta se abrir. Uma refeio numa 
bandeja foi empurrada para dentro do quarto. Ele engatinhou at a porta, com os braos estendidos para segur-la antes que se fechasse.
Mas a porta se fechou. E a fechadura travou com um clique metlico.
Esforando-se para ficar de p, Bram bateu na porta.
"Me deixa sair daqui!", ele gritou. "Que merda  essa?"
Sem resposta, calou-se. O esforo e os gritos fizeram sua cabea doer.
Seu tnis topou com a bandeja no cho. Ao olhar para baixo, viu um prato de costeletas regadas ao molho, arroz selvagem e brcolis com molho holands. Um segundo 
prato com salmo grelhado, uma poro de molho de aneto, cuscuz com passas e pinhas, e ainda um ensopado de abobrinha e abbora. Alm de outro prato com frango assado 
temperado com alho e alecrim, batatas gratinadas e uma marinada de corao de alcachofra.
Ele reconheceu o menu e riu da grande loucura daquele sonho.
"Est rindo de qu?"
A pergunta saiu dos alto-falantes presos no alto da parede do espelho. Ele teve a impresso de que a voz era de uma mulher idosa, mas no dava para ter certeza, 
porque a voz se distorcia.
"Quem  voc?", ele perguntou.
Zumbido baixo dos alto-falantes, contnuo.
Ele andou at o espelho e o examinou. Ser que tinha duas faces? No conseguia enxergar nada alm dos prprios olhos injetados de sangue, mas sabia que estava sendo 
observado. Ser que o queriam como escravo sexual? Ou se tratava de algum teste cientfico? Pediriam algum resgate?
Fosse o que fosse, o fato  que ele ou ela no tinha inteno de mat-lo de fome.
"Isso  um bom sinal", Bram pensou consigo. Primeiro, ele recuperaria as foras fsica e mental. Depois, teria que traar e executar um plano de fuga. E, aps obter 
a liberdade, se vingaria do seu seqestrador. 
De uma maneira estranha, ele se aprazia com essa virada inesperada dos acontecimentos. O planejamento da fuga concentraria seus pensamentos, ocuparia sua mente. 
Caso contrrio, ele se veria sozinho com a culpa e o remorso, pensando em Penny e no que fizera a ela.
Bram ergueu a bandeja e colocou-a sobre a mesinha. Sentou-se numa das cadeirinhas e tratou de se fortalecer.
Captulo 09

NATASHAE ESTHER OBSERVAVAM Bram no quarto de brinquedos, sentadas no console do quarto vizinho, adequadamente denominado quarto de controle. Os dois quartos compartilhavam 
o mesmo espelho na parede. Um espelho com duas faces. Do quarto de controle as mulheres podiam observar Bram como se o espelho fosse uma grande janela de vidro, 
enquanto no quarto de brinquedos ele s via a prpria imagem refletida.
"Ele  uma graa quando come", Natasha comentou. "Guardanapo no colo. Boca fechada ao mastigar."
"O pai dele pode nos trazer problemas", disse Esther, ainda segurando a bolsa depois de ter subido em disparada at o quarto de brinquedos, assim que retornara do 
hotel.
Natasha j tinha conversado com Esther a respeito da visita da srta. Wistlestop e do trabalho que dera para encontrar um lugar onde estocar toda a comida.
"Os presentes esto no saguo de entrada", ela comentou.
"Reparei", disse Esther. "S um cego no veria."
"Depois eles vo mandar uma outra caminhonete com as flores."
"Onde est Penny?", Esther perguntou.
"Foi se deitar."
"Mas ainda so oito horas!"
"Dei um Valium pra ela."
"Foi ela que pediu?"
"Ela queria dois. S dei um. Vita tambm pegou um comprimido e depois foi para o hotel".
"Ento ternos a noite toda para tratar dele", disse Esther esfregando as mos.
"Tortura?", Natasha perguntou, com as sobrancelhas arqueadas.
"No sei por onde comear", Esther respondeu com pesar.
"Na Rssia, a KGB torturou muita gente da minha famlia e alguns amigos. Choque eltrico, fome, extrao de fio por fio de cabelos at a pessoa ficar careca..."
"Na Amrica a gente paga por essas coisas", Esther objetou.
"Obrigavam os prisioneiros a entrar num enorme tanque de lama quente, onde eram esfregados com sal para tirar a pele e depois lambuzados com algas e sedimentos do 
Volga..."
"Isso era uma priso comunista ou um spa?", Esther retrucou.
"Um dos meus tios, que escrevia para um jornal anti-sovitico, foi capturado e levado para uma priso. L o colocaram num quarto escuro e o obrigaram a beber um 
galo de gua. No podia usar o banheiro, e batiam nele quando o coitado urinava."
"Adorvel", Esther comentou, sem prestar ateno, enquanto observava Bram comendo, a forma elegante como cortava a carne, a maneira correta de usar o guardanapo. 
"O buf custou vinte mil dlares", lamentou.
"Voc quer que ele assine um cheque?", disse Natasha.
"No me preocupo com o dinheiro. Mas vou fazer ele pagar. Ah vou! Ora se vou!" Esther deu de ombros.
Ligando o controle do alto-falante que estava sobre o console, Esther falou ao microfone:
"Boa noite, Bram. Aqui  Esther Bracket."
Enquanto as duas mulheres observavam, Bram levantou-se abruptamente, arremessando a cadeirinha para trs.
"Esther?", ele parecia confuso, mas logo sua mente iluminou.
"Era voc! Voc estava no meu quarto l no hotel e me acertou com uma garrafa de champanhe!"
Esther continuou:
"Bem-vindo  minha casa. Agora voc est trancado nesse quarto construdo com segurana mxima: porta  prova de fuga, sem janelas, sem respiradouros nas paredes 
e com um equipamento de vigilncia ligado durante vinte e quatro horas. Voc no pode sair, portanto nem adianta tentar."
"Voc  maluca", ele gritou.
"J que voc destruiu o casamento da minha filha, nada mais justo que se responsabilizar por uma parte do estrago."
"Sua puta louca", ele gritou, avanando na direo do espelho com o rosto rubro e soltando fogo pelas ventas. Mas a figura de Bram vociferando para o ar sem poder 
alcan-los fez com que elas rissem.
"Se voc me desrespeitar", disse Esther ao microfone, piscando para Natasha, "acabo com a transmisso."
"Espera, e Penny, como est?"
"Como se voc desse a mnima", Esther falou. "Trate de no fazer perguntas sobre ela, de sequer pensar nela, e nem ouse mencionar o seu nome."
Bram balanou a cabea para si mesmo e retomou  cadeira.
Colocou-a de p e sentou-se com as pernas esticadas e os braos em torno do peito. Ele estava ouvindo.
"Como eu ia dizendo, j que voc me forou a engolir os custos do casamento, vou te forar a engolir o prprio", disse Esther.
"Engolir o..."
"Duas centenas de pores de costeleta, salmo e frango esto congelando nas geladeiras da minha cozinha e no freezer do poro. E  acompanhamentos sem falar nos 
quinze quilos de camaro que esto no  gelo, na banheira da sute do quarto de hspedes."
"Prepara uns catorze quilos", Natasha cochichou batendo na barriga, "Adoro camaro."
"No vou deixar voc sair antes de ter engolido tudo. Cada gro de arroz selvagem. Cada bife. Cada batata", Esther falou ao microfone.
"O que voc quer  me fazer comer at a morte", Bram afirmou.
"No falei 'at a morte', mas at que no seria ruim".
Natasha soltou uma gargalhada. Esther fez sinal para que ela ficasse quieta e acrescentou:
"E quero que voc preencha etiquetas de devoluo para cada presente do casamento. Estou com uma montanha de presentes no meu saguo. Precisam ser devolvidos."
"Mais alguma coisa?", ele perguntou.
Esther desligou o microfone para pensar.
"Ele podia fazer tudo isso... nu", Natasha sugeriu.
" o noivo da minha filha. No pegaria bem."
"Se voc acha...", Natasha resmungou.
Esther ligou o microfone.
"Eu quero que voc escreva uma carta pessoal para os convidados, pedindo desculpas por sua pattica covardia, assumindo a responsabilidade por ter destrudo o fim 
de semana de todos e implorando perdo por ter aniquilado os sonhos de uma moa inocente. Alm disso, voc tem que declarar que se odeia, que est morrendo de vergonha 
etc, etc."
"Boa!", Natasha cochichou.
"Depois posso ir embora?", ele quis saber.
"Se o teu estmago no tiver explodido, e olha que essa  a nica porcaria que ficarei feliz em limpar, posso pensar em te soltar", disse Esther.
"Eu sabia que voc era capaz de uma doideira dessas", Bram falou balanando a cabea.
"Eu at que no era", Esther replicou. "No  fascinante o modo como a gente vai se conhecendo bem quando fica mais velho?"
"Fascinante", Bram resmungou.
"Quando voc acabar de jantar... limpe os pratos! Escreva uma carta para o seu pai. Diga que voc precisa de um tempo sozinho e que vai entrar em contato com ele 
quando estiver preparado", disse Esther. "O material est na escrivaninha a atrs. Voc  um grosso to egosta que na certa Keith deve estar pensando que voc 
se escondeu em algum buraco, que nem um rato."
Esther desligou o microfone.
"Se ele no vai ficar nu", disse Natasha, "o que fazer com as roupas? Ele no pode usar a mesma muda de roupa dia aps dia."
"Voc est certa", matutou Esther segurando o queixo. "Mas depois de algum tempo vo ficar apertadas. Hmmm. Vamos dar uma olhada na mala dele pra ver o que tem."
Elas giraram as cadeiras do console. A mala de Bram estava no cho. De tamanho normal e tampo prateado, destrancada. Esther apertou o trinco da fechadura e o tampo 
se abriu automaticamente.
"Ele sabe arrumar bem a mala", Natasha comentou.
As roupas de Bram estavam impecavelmente arrumadas; o estojo de toalete; com poucas peas, organizado no compartimento interno do tampo da mala. Esther comeou a 
fuar os pertences dele. Na mala s havia roupas para um ou dois dias. Fosse qual fosse o lugar onde ele pretendia ir, tudo indicava que no planejava permanecer 
por muito tempo. Ou talvez tivesse a inteno de comprar novas roupas quando l chegasse. Enquanto remexia a mala, as mos de Esther tocaram em alguma coisa dura, 
de pontas afiadas. Ela afastou alguns shorts e meias para ver o que era.
"Essa agora me surpreendeu", ela disse enquanto ambas olhavam para a foto de Penny num porta-retrato. Na foto, a filha estava numa alameda arborizada, com os cabelos 
castanhos presos num rabo-de-cavalo, malha de flanela amarrada  cintura, bermuda, camiseta, botas e meias de l. Segurava um basto de madeira e sorria para a cmera.
"Linda", disse Natasha.
Esther concordou. A Penny da foto parecia mais radiante do que nunca.
"Ele a abandona, mas carrega a foto dela junto a si?", Esther ficou confusa e um pouco abalada com a descoberta. Analisando o olhar de Penny para o fotgrafo (que 
Esther presumiu ser Bram), tudo indicava que sua filha estava verdadeiramente apaixonada por ele. Fosse qual fosse a mudana ocorrida no relacionamento, um dia ele 
fora bom. Pelo menos na poca em que a foto. fora tirada. Esther ajeitou o porta-retratos em cima do console, improvisando rapidamente um toque decorativo no aposento.








Captulo 10

QUANDO PENNY ACORDOU DE manh, suas pestanas estavam coladas devido s treze horas de sono. No querendo abri-las abruptamente, ela aninhou-se no travesseiro. O 
aroma reconfortante da fronha embalou-a de volta ao sono.
E ento se recordou.
Penny choramingava. Naquela manh queria ter acordado na sute nupcial do Plaza, com a cabea afundada no peito de Bram, e no no seu travesseiro de infncia. Imediatamente, 
ela o arremessou para o ar e ele esbarrou por acidente no pster de Bon Jovi, fazendo-o balanar na parede.
"Desculpe, Bon", ela murmurou.
A imagem de Bram eclodiu do nada em sua cabea, de bermuda, meias de l, botas prprias para caminhadas, malha de flanela amarrada  cintura. Lembrou-se daquele 
dia maravilhoso, cerca de um ano atrs, quando eles decidiram fazer uma caminhada no Central Park. Bram estava munido de sua nova cmera digital. Divertindo-se por 
estarem vestindo roupas iguais, eles entraram parque adentro e fizeram um piquenique em Sheep Meadow. Em vez de jogarem fora as sobras, lanaram pedacinhos de po 
e de biscoito para alguns esquilos enquanto perambulavam pelo parque arborizado. Em pouco tempo ambos se viram cercados pelos roedores que os seguiam de perto. Um 
esquilo mais atrevido chegou at a subir pela bota de Penny. Havia fotos para provar. Ele comentou que o cerco o fazia lembrar de uma cena de Hitchcock. Ela sugeriu 
que o episdio podia
fazer parte de um documentrio horrvel da Fox chamado Quando os Aliengenas Atacam.
Bram pediu-a em casamento naquela noite.
"Quero te fazer feliz", ele disse, e isso era mais uma coisa em comum entre os dois.
Agora ela estava fechada para esquilos. Da prxima vez que visse um, atiraria uma pedra.
Da prxima vez que visse Bram, atiraria uma pedra nele. De preferncia, bem pesada e com trs pontas. Melhor ainda, enviaria uma pedra pelo correio. Ele ficaria 
furioso com a grosseria. Enquanto girava o anel de compromisso ela resolveu que, por enquanto, continuaria a us-lo. At chegar o momento de devolv-lo. Levantou-se 
da cama. Ainda com a roupa de dormir, desceu a escada at o saguo de entrada. Uma grande quantidade de buqus de rosas brancas tinha sido arranjada em diversos 
vasos encostados nas paredes. Um aroma divino.
A aparncia?
De velrio, Penny disse para si mesma.
Foi direto para a cozinha.
"Bom dia, Natasha", ela disse enquanto arrastava um banquinho da bancada de mrmore, onde havia pia, geladeira, triturador de lixo e lixeira.
Natasha empilhava pratos numa bandeja. Penny observou os itens do menu de seu casamento ao mesmo tempo em que contava os pratos. Cinco, incluindo um prato com uma 
fatia de bolo to grande que podia empanturrar um cavalo.
"Quem  est com tanta fome?", Penny perguntou.
'' para o cachorro. O vira-lata", mentiu a russa, dando de ombros.
A pilha de comida era do tamanho de um cachorro. Um dinamarqus gigante.
"O bicho  muito grande?"
"Normal", Natasha respondeu.
"Desde quando voc se preocupa com vira-latas?"
"Simpatizo com animais famintos e abandonados. Quem  que resiste ao olhar triste e pido deles?"
"Estou surpresa por ouvir isso", disse Penny, "j que voc sempre se ps do lado da mame quando eu pedia um cachorro". Ela pegou o prato de bolo da bandeja. "Um 
garfo, por favor."
"Eu era neutra", explicou Natasha, esticando um garfo para Penny.
"Se no me engano, voc chamava todos os cachorros de 'vira-latas'."
"Sou louca pelos vira-latas. No h cachorro mais esperto que o vira-lata". Natasha cortou uma outra fatia de bolo e acrescentou:
''Alis, a imitao que voc fez do meu sotaque russo foi pssima".
"Deixa, eu fao isso".
"Isso o qu?"
''Alimentar o cachorro. Quero dar uma olhada nele. Ou nela."
"No!", Natasha falou com veemncia. "Ele  tmido. No est acostumado com voc. S comigo. Eu levo a comida para o nosso lugar secreto."
''Voc e o cachorro tm um lugar de encontro?", Penny perguntou.
"E qual  o problema?"
"Nenhum. Exceto ter sido abandonada no dia do meu casamento, mas isso no tem nada a ver."
Levantando a bandeja da bancada, Natasha deixou que Penny abrisse a porta da cozinha para ela. Depois, embrenhou-se pelo quintal e sumiu no mato.
Penny voltou  sua fatia de bolo. Acabou de com-la e foi buscar mais guloseimas na geladeira, onde encontrou um pote de caviar de esturjo. Com gua na boca, pegou 
uma colher e se serviu de uma farta colherada. As ovas negras estouravam sob seus dentes, derramando um suco salgado na lngua. Uma exploso de sabor. Ela j estava 
na quarta colherada (sentindo-se muito melhor) quando soou a campainha na porta da frente. Depositou a colher sobre a bancada e saiu em direo ao saguo.
 o Bram, ela pensou. No  o Bram, ele no ousaria. Bem que ele podia. Ele mudou de idia. Ele est em Fiji. Ele me ama. Ele me odeia.
Esfregou o rosto para varrer a expresso e abriu a porta.
Morris Nova resfolegou com fora quando a viu.
"Jesus Cristo, Penny, voc est bem?"
"Estou tima", ela falou. "E voc?"
"Seus olhos", ele disse, "esto inchados. Voc andou chorando."
''Acabei de acordar", ela replicou. ''Voc est bancando outra vez o menino de recados do Bram?"
Morris negou com um gesto de cabea. Penny teve que lutar contra a decepo. Convidou-o ento para entrar.
"Voc cresceu nesta casa?", ele perguntou. "Rica, n?" Os olhos de Morris se esbugalharam com a opulncia e o tamanho.
"Todas essas flores so do casamento?" Cheirou uma rosa de um dos cinqenta vasos, pegou um boto e sorriu sonhadoramente para ela.
Oh, no, ela pensou.
"Morris, presta ateno", Penny falou. "Quero os detalhes. A cena toda. Cada palavra dita. No espero uma interpretao dramtica, mas agradeceria se voc pudesse 
repetir as inflexes."
Morris hesitou, olhando a rosa como se fosse com-la.
"Estvamos no quarto dele, no hotel", ele disse vagarosamente.
"Cinco minutos antes de eu ir at o seu quarto."
"Ele escreveu o bilhete na sua frente?", ela perguntou. Morris assentiu com a cabea. "Ele chorou quando escreveu? Ele derramou lgrimas sobre a mesa? Parou para 
soluar na cama? Que roupa ele estava usando?"
"Roupas normais", ele respondeu.
Intil, Penny pensou. "No era o smoking?"
"Era algo assim, eu diria: careta, de terno e gravata, no de cala jeans."
"E onde ele escreveu o bilhete?", ela quis saber.
"Na escrivaninha do quarto."
"Chorando?"
"Triste."
"E depois?", ela perguntou.
"Ele ps o bilhete dentro de um envelope e me pediu para entregar a voc."
"Diz o que ele falou."
"Leve isso agora para Penny."
"Ele disse o meu nome?"
"Isso  importante?", Morris objetou.
"Continua", ela falou.
"Eu recusei e ele disse: 'Se voc no entregar esse bilhete, ela vai ficar arrasada'."
"E depois, ele caiu na cama e soluou, no ?"
"Ele comeou a arrumar a mala e eu sa. Foi isso."
"Pra onde ele foi?", ela disse.
Os olhos azuis de Morris se acinzentaram como se ele fosse chorar. Ele limpou a garganta e inclinou a cabea. Abriu e fechou a boca como se para se assegurar de 
que ainda podia falar.
L vem, Penny pensou.
"Olha", ele disse, "por pior que parea, no fim pode dar certo. O Bram fechou uma porta e eu posso abrir uma janela."
"A janela est fechada. E trancada", Penny falou com toda a convico .
"Podemos quebr-la", ele sugeriu, dando alguns passos na direo dela.
"Pare exatamente a", uma voz ecoou atrs deles.
Morris e Penny se viraram: Natasha descia as escadas com seus sapatos de plataforma. Uma figura imponente, Penny pensava, entendendo perfeitamente por que Morris 
se voltara depressa para a porta.
"Eu j estava de sada", Morris disse para a russa. "Me telefona!", disse para Penny.
Natasha se ps ao lado de Penny.
"Sua me saiu cedo, mas volta logo."
"Pensei que voc estava l fora. Saiu pela porta da cozinha e como  que aparece agora na escada?"
"Entrei pela escada dos fundos", Natasha respondeu, ofendida.
"Tive que pegar uma coisa no meu quarto."
"Que coisa?", Penny inquiriu.
"Tenho meus problemas pessoais", disse Natasha.
"Quais?"
"Em Moscou, a KGB corta a lngua de quem pergunta demais. E depois servem a lngua pra voc numa bandeja, com mostarda. Tenho um primo que comeu a prpria lngua... 
e o dedo mindinho."
"Eu gostaria de saber que tipo de crime faria com que algum perdesse o dedinho", Penny replicou.
"Meter o nariz onde no  chamado", disse Natasha.
"Mas ento ele devia perder o nariz."
Natasha mostrou a lngua (intacta) para Penny e foi para a cozinha.







































Captulo 11


ESTHER BRACKET ESGUEIRAVA-SE pelo balco de recepo do Plaza, como se uma loura vestindo um conjunto negro de cala e blazer Jill Sander com enormes culos escuros 
pudesse passar despercebida. A cada minuto um conhecido, um empregado do hotel, um estranho lhe oferecia condolncias. Um casamento cancelado  como a morte. Toda 
de preto, Esther parecia estar de luto.
Fazia dez minutos que o recepcionista estava ocupado com uma senhora trmula e senil. Esther olhava o relgio, j sabendo que quela hora Penny devia estar acordada. 
S precisaria de dez segundos para deixar a carta de Bram para Keith sobre o balco, mas no podia fazer isso enquanto o recepcionista estivesse nas imediaes.
Se d uma folga, seu infeliz, pensava consigo mesma.
Era uma espera interminvel. J estava pronta para ler o folheto do hotel - no qual se estampava a palavra "elegante" repetida cinco vezes no primeiro pargrafo 
- quando finalmente o recepcionista se ausentou da recepo. Esther tirou a carta - escrita numa folha amarela - de dentro da bolsa. Furtivamente, virou-se de costas 
para o balco e encostou-se nele. Depois, deixou que a carta escorregasse por trs da mo.
Afastando-se a passos largos (em frente!), ela olhou de soslaio para trs, apenas para se certificar de que a carta estava em segurana (annima) no balco, de modo 
que o recepcionista pudesse encontr-la quando voltasse.
"Merda!", disse Esther quando viu que o papel amarelo no estava  em cima do balco, e sim no cho. Alm disso, o recepcionista acabava de voltar. Ela no teve outro 
remdio seno esperar. Outra vez. Sentou-se no sof de veludo e, nervosamente atenta, cravou os olhos na carta. Talvez algum a visse e a entregasse ao recepcionista 
ao perceber que pertencia a algum hspede. Umas seis pessoas se aproximaram do balco. Mas ningum viu a carta nem se abaixou para peg-la.
" um amarelo to escandaloso!", ela exclamou para si mesma.
Quantos mopes havia entre os hspedes do hotel? Ela sentiu pena de como eles se consumiam em si mesmos, da viso com antolhos e da assombrosa falta de capacidade 
de observao que todos tinham.
"Esther Bracket", uma voz masculina ecoou atrs dela. " voc?",
Esther se virou com um esgar. Keith Shiraz sorria s suas costas.
"Oi", ela disse.
"Hoje voc est parecendo mais misteriosa", ele falou. "Toda de preto. Como se estivesse a ponto de fazer uma extravagncia."
"No seja ridculo!", disse Esther num tom trs oitavas acima do normal.
"O que veio fazer aqui?", perguntou Keith, parecendo no perceber.
''Algumas pendncias na recepo", ela mentiu.
"Meus pais j voltaram para a Flrida", ele disse. "Meus outros convidados tambm j foram embora. Sou o ltimo Shiraz no hotel. E odeio comer sozinho." Ele apontou 
para a entrada do Coq et Boule, o restaurante duas estrelas do hotel.
"Recomendo crpes suzette", ela disse.
"Por favor, me acompanhe", ele convidou com franqueza, sem nenhuma insinuao.
"Preciso realmente ir pra casa ver minha filha", disse Esther enquanto se levantava.
"D-lhe lembranas minhas", Keith falou, claramente desapontado.
E despediu-se com uma singular reverncia. Esther exalava pressa. Agora no podia perder tempo. Sem se preocupar em olhar a folha amarela, caminhou apressada para 
a sada.
"Espere!", Keith gritou do saguo.
Esther gelou. De braos cruzados, virou-se para trs.
Keith corria na direo dela, sacudindo a folha amarela.
"Olha s isto!", ele falou, quase esfregando a carta no nariz dela.
A abordagem de Keith, o cheiro de lpis de cera, a tenso pela insnia, tudo isso combinado fez com que a cabea de Esther girasse subitamente. Para no cair, ela 
se amparou no brao dele.
Keith segurou as mos de Esther, que no deixou de notar a maciez das mos dele.
"Est tudo bem com voc?", ele perguntou.
" s cansao."
"Voc precisa se alimentar", disse Keith enquanto entrava com ela no salo de paredes em tons de lils e limo do Coq et Boule.
Keith segurou Esther pelos braos, com os dedos roando perigosamente os seios dela, e instalou-a na cadeira estofada de uma mesa para dois diante de uma janela 
de onde se via o sol batendo no asfalto negro da rua.
Um jovem garom se aproximou.
"Dois crepes de morango e chocolate, um bule de caf, dois sucos de laranja, bacon, presunto, salsicha", Keith pediu, sem olhar o menu. E, disse virando-se para 
Esther: "Voc gosta de carne?"
"Acho que sim."
"Bacon para dois", Keith disse ao garom.
Depois de feito o pedido, ele falou:
''Vamos dar uma olhada nisto", e pegou a folha de papel.
Esther deu uma guinada para frente, no para enxergar melhor: a cadeira atrs dela a tinha empurrado.
Ela se virou: um homenzarro sentava-se  outra mesa, bem atrs dela. E ajeitava-se na cadeira sem nenhuma considerao por quem estava ao redor. Por fim, ele pareceu 
se acomodar.
Esther sorriu para Keith. J ia falar quando sua cadeira foi novamente atingida por trs, fazendo-a esbarrar na prataria.
"Ei, o senhor a. O senhor est incomodando a minha amiga."
O homem simplesmente o ignorou. Keith repetiu o que havia dito, e o homem rebateu:
''J ouvi".
Ela viu os olhos cinzentos de Keith se inflamarem.
"Com licena, Esther", ele disse; e foi na direo do homenzarro.
Inclinou-se e falou algumas palavras no ouvido dele. Esther tentou escutar, mas no ouviu nada. O homem, por sua vez, entendeu perfeitamente. Ficou sem graa e branco 
como um lenol. Seus lbios tremeram e seu queixo comeou a bater. Enquanto Keith se sentava de novo na cadeira, o homem saa em disparada do restaurante, como se 
seu traseiro estivesse em chamas.
"O que voc disse pra ele?", Esther quis saber.
"Disse que o pau dele estava pra fora", riu Keith, dando de ombros.
"E isso o fez sair apavorado?"
"Um pau pra fora pode ser bastante constrangedor."
"Qual  mesmo o seu negcio? Acabei esquecendo." Esther sabia que a famlia de Bram tinha dinheiro, mas no estava certa de onde vinha. Felizmente, bem administrado.
"Tenho uma frota de carros e limusines sediada em Manhattan, Staten Island e Newark", ele disse.
"Que timo!" Esther ficou perturbada, pensando: Ele tem conexes.
Keith exibiu outra vez a folha de papel.
"Isto estava no cho, perto do balco da recepo! Reconheci a letra do Bram de cara! Afinal, trocamos cartas mensalmente, um hbito que comeou quando ele foi para 
a faculdade. Chegamos a cogitar em substitu-las por e-mails, mas preferimos manter a tradio."
Keith fez uma pausa. "Ele deve ter deixado essa carta ontem e ela, passou a noite toda no cho."
" bem possvel", ela disse.
Ele abriu a folha sobre a mesa. Leu rapidamente o contedo e passou-a para ela.

Querido pai;

Depois darei as explicaes, mas agora preciso passar um tempo sozinho.
Entrarei em contato com voc assim que me sentir preparado. No tente
me encontrar.

Desculpe.

Bram

Esther j tinha lido a carta para vetar as ambigidades. E, na ocasio, aprovou a conciso. Mas agora que soubera da correspondncia habitual entre pai e filho, 
achava que a carta devia ter sido mais pessoal, mais carinhosa. Sentiu uma inesperada ponta de cime. Ela e Penny raramente trocavam palavras significativas - em 
cartas ou por qualquer outro meio.
''Voc v? Ele est bem. Est se preocupando por nada", disse Esther.
Keith releu a carta, dobrou-a e colocou-a no bolso.
"Por que diabos ele escreveria em folha de desenho, e ainda por cima com lpis de cera? Ser que se escondeu num jardim de infncia? E por que escrever em marrom? 
Ele odeia o marrom. E o amarelo. E mais ainda a combinao dessas duas cores. Ele no gosta de tons que evoquem funes biolgicas."
"Ele  advogado, no decorador de interiores", Esther replicou.
Keith riu.
"Voc no  to sria", ele falou, ao ver que ela no o acompanhava no riso.
"Ser que os homens j se preocupam com essas coisas e eu nem notei?", disse Esther, verdadeiramente confusa, Na verdade, fazia vinte anos que ela no observava 
os homens.
"Bram no  advogado!", Keith exclamou. " cengrafo e carpinteiro. Na Broadway e em outros teatros do pas."
"Ele  advogado, sim", ela insistiu. "Lembro que ele disse que trabalhava para a famlia Newhouse."
"Ele  contratado do Newhouse Theater, do Lincoln Center", Keith replicou. "Foi assim que ele e Penny se conheceram. O Bram  que fez os cenrios de Anything Coe. 
Penny danava no coro."
"Sei que ela danava. Vi a pea trs vezes", ela frisou.
"O primeiro encontro deles foi na festa de estria."
"Eu j sabia", disse Esther. Mas no sabia. Ela no costumava prestar ateno nas coisas que Penny falava sobre Bram... ou sobre qualquer outro namorado. Esther 
tratava todos eles com indiferena, uma atitude que podia ser interpretada (pelos mais sensveis) como rejeio. J no ginsio, Penny deixara de levar os namorados 
em casa. Na universidade, parou de falar sobre eles. E quando por acaso fazia comentrios de sua vida afetivo-sexual, Esther mudava abruptamente de assunto. Ela 
se negava a ouvir o que a filha dizia de seus relacionamentos, fingindo que no existiam. Acontece que Bram no pudera ser ignorado. Penny praticamente o havia imposto.
"Bram se vestia como um advogado", disse Esther ao se lembrar de que ele se apresentava de terno em muitos jantares em sua casa.
"S estava tentando causar boa impresso em voc", Keith explicou.
Pois Bram tinha conseguido o oposto. J no primeiro jantar que dera ao casal, Esther o vira como um advogado desprezvel de Manhattan, que tolerava com condescendncia 
o provincianismo dela. Ele falou muito pouco, como se estivesse bem distante da conversa dela. E quase no tocou no jantar, como se estivesse acima da comida que 
ela servia. Esther, ento, lembrou-se da bandeja que tinha sido deixada no quarto de brinquedos na noite anterior. Ele raspou os pratos, ela pensou, sorrindo.
"Bram nunca trabalhou em escritrio", disse Keith, " um construtor nato. Com doze anos de idade, ele aproveitou as frias para desmontar algumas cadeiras velhas 
que iam para o lixo, e com a madeira construiu uma casa na rvore. Ainda me lembro que depois de sair da cidade nas sextas-feiras e dirigir at nossa casa em East 
Hampton, sempre o encontrava martelando numa plataforma em cima da rvore. Ele tinha inventado um sistema movido por uma corda que alava as tralhas todas at a 
rvore. Fez tudo isso sem que ningum o ensinasse. Fiquei pasmo. E ele continua a me surpreender. Com algumas ferramentas e uma pilha de sucata,  capaz de construir 
a Torre Eiffel."
Keith estava radiante. Como se orgulhava do filho! Esther se perguntava se Keith soubera das agresses que Penny sofrera desde que conhecera Bram, o construtor talentoso 
to bom com as ferramentas.
"Sua esposa  falecida?", Esther perguntou.
Keith ficou surpreso com a rpida mudana no rumo da conversa.
", sim. Ouvi dizer que o seu marido morreu num terrvel acidente, no ?"
''Alguns dizem que foi 'terrvel''', ela replicou. "Outros dizem que foi 'providencial'."
"Ento ns dois somos vivos", ele concluiu.
"Meu marido morreu durante o processo de assinatura do divrcio. Na verdade, me sinto divorciada."
"E quando foi isso?", ele quis saber.
"H quinze anos", ela disse. "E quando sua esposa faleceu?"
"H dois anos", ele disse.
"Doena longa e terminal?"
''Ataque cardaco", ele esclareceu. "Ela estava fazendo compras na Pottery Barn, no Soho."
"Que coincidncia!", exclamou Esther. "Meu marido tambm estava em frente  Pottery Barn do Short Hares Mall quando... morreu."
Finalmente, chegaram os crepes, o caf e os derivados de porco solicitados. Keith acrescentou leite ao seu caf e se serviu de salsichas.
"Olha esses crepes!", ele exclamou, sorrindo radiante para Esther, com uma expresso de gula que antecipava o prazer da refeio. Esther tambm se flagrou sorrindo. 
Ele era um homem bom. Cheio de amor paterno, de apreo pelos prazeres simples e de autoconfiana. A despeito de seus sentimentos por alguns membros da famlia de 
Keith, ela gostava dele. Mas gostava at certo ponto. Afinal, aprisionara o filho dele.
"Voc volta hoje pra cidade?", ela indagou enquanto cortava o crepe.
Ele bateu no bolso onde estava o papel.
''Agora que j tive notcias de Bram, no tem mais sentido continuar aqui."
"Tenho certeza de que logo voc receber notcias dele."
"Voc fala como se soubesse de alguma coisa", ele disse de supeto.
"S estou sendo positiva", ela gaguejou. "Pensando pra cima. Sou assim mesmo! Uma eterna otimista!"
"No estou gostando nada do papel amarelo e do lpis de cera marrom", Keith falou enquanto mastigava o bacon.. "A colcha desaparecida. O champanhe no cho. Tudo 
isso me preocupa."
Ele apertou os lbios, abaixando a cabea, e se fixou no prato. Esther notou que ele no havia perdido um s fio de cabelo, que exibia a mesma tonalidade castanho-dourada 
dos cabelos de Bram, exceto pelo grisalho nas tmporas. E calculou a idade dele em torno dos cinqenta anos, embora ele aparentasse quarenta e cinco.
"Bram sabe se virar", Keith falou enquanto cortava a metade de um crepe, engolindo-a de uma s mordida.
"Isso no passa de preocupao natural de pai", Esther afirmou.
"Se Bram estiver em perigo, ele se safa. Ele  engenhoso."
''Aposto que no est correndo perigo", disse Esther.
"Bram tinha oito anos de idade no dia em que ficou trancado no banheiro", Keith comentou. "Com uma tesourinha de unha, ele cortou uma toalha, uniu as tiras e desceu 
pela fachada de nossa casa da rua West 86. Alice, minha esposa, ouviu o barulho e deu de cara com ele na parede como se fosse um gato. No preciso me preocupar. 
Se ele tiver os instrumentos certos nas mos, qualquer coisa, um garfo, uma faca, escapa at de Alcatraz."
Esther suou frio. O pedao de crepe bateu no seu estmago como uma pedra.
Toda vez que Natasha levava comida para Bram, deixava facas, garfos e colheres de ao inoxidvel com ele.
"Acabei de lembrar que preciso fazer algumas coisas. Tenho que ir embora. Muito obrigada pela refeio", ela falou, levantando-se bruscamente. Com passos largos, 
saiu do Coq et Boule, atravessou o saguo, voou at a Volvo estacionada e disparou cantando os pneus, e quase bateu no fusca verde que descia pela via de acesso 
do hotel.











Captulo 12

ONDE SE METEU O TAL CACHORRO?, Penny se perguntava. Tinha procurado por tudo quanto  canto, pelo jardim, pelo bosque e pelas cercanias. Enquanto subia pelo caminho 
que dava para a entrada principal da manso, ela pensou que talvez o cachorro tivesse passado mal com toda aquela comida que Natasha lhe dera, ou se cortara ao morder 
o prato de porcelana (por que Natasha servira um animal com um prato de porcelana ainda era um mistrio). O bicho podia ter sido atacado numa briga com algum guaxinim 
furioso na disputa por uma costeleta. Alm do mais, no havia nem sinal da bandeja. O tal lugar secreto de Natasha continuava secreto. Penny no conseguira encontrar 
nada nos trs acres de propriedade.
Sentou-se na escada frontal da casa e mais uma vez assoviou para atrair o vira-lata que ela j chamava de Lester, mesmo sem saber se era macho ou fmea. O gnero 
no tinha a menor importncia. Ela o chamaria de Lester, e ele seria seu novo melhor amigo. Cuidaria dele e em troca receberia a lealdade e a afeio de um animal 
tolo.
 claro, ela teria que providenciar uma casinha. E uma guia. E uma coleira. E toda a parafernlia que as pessoas usam para assegurar a devoo incessante dos ces. 
Ele seria afetuoso, mas s amaria a ela.
Enquanto Penny assoviava, o Volvo de Esther subia pelo caminho e freava bruscamente ao chegar. Bem atrs da caminhonete, o fusca verde de Vita tambm freava e quase 
batia na Volvo.
Esther saiu apressada, deu um tapinha na cabea de Penny e disse:
"J volto. Tenho que checar uma coisa."
"Me, eu quero adotar o cachorro", disse Penny. "E estou pensando em ficar aqui por um tempo."
"Daqui a pouco a gente se fala, t?", Esther falou enquanto entrava em casa.
Vita foi mais lenta para sair do carro.
"Estou completamente zonza", disse para Penny. Trpega, ela caminhou e sentou-se na escada ao lado da ex-noiva.
"Voc acha que eu posso ser amada?"
"Voc lembra que ontem, quando voltamos para c, quase fomos atingidas por um motorista luntico?", perguntou Vita ignorando a questo.
"Vagamente", disse Penny. Quase tudo o que se referia ao dia anterior estava enevoado.
"Trs minutos atrs o mesmo carro quase me pegou outra vez ao sair do Plaza em disparada. A resolvi seguir o manaco. No h nada que me irrite mais que motoristas 
agressivos. Fico fula da vida com essa gente."
"E por que... isso me interessaria?", Penny indagou, sorrindo.
"Porque  daqui, sua peste!", Vira rebateu. "O carro que quase me matou duas vezes  de sua me!", ela exclamou, apontando para o Volvo.
"Impossvel!", Penny contestou. "Ontem mame estava no hotel quando voltamos pra c."
" o mesmo carro, o mesmo motorista", Vita afirmou.
"Voc est sugerindo que mame mentiu sobre o seu paradeiro ontem?"
"Sim", disse Vita. "E voc tem que dizer isso pra ela."
"De jeito nenhum", Penny retrucou.
"Ento, eu  que vou falar com ela", disse Vita, agora vestida com um tubinho vermelho e branco arrematado por um top preto. "E voc  adorvel. Mesmo quando age 
como uma chata. Minhas pernas to bambas. Voc acha que a Natasha ainda ser condescendente em relao ao Valium?"
''Vamos l perguntar", disse Penny.
Entraram na casa e Vita se surpreendeu com a enorme pilha de presentes.na entrada.
"Deve ter uma centena de caixas."
"Cento e trinta e cinco", afirmou Natasha, que j os tinha catalogado para devoluo.
"Onde est a sra. Bracket?", Vita quis saber.
"Est com dor de estmago", disse Natasha.
''Algum sinal do cachorro?", Penny inquiriu.
"Esquece o cachorro", replicou Natasha.
"Pois vou peg-lo, am-lo e cham-lo de Lester."
"Ele j foi embora. Desapareceu no bosque. A essa altura j deve estar em Newark", Natasha insistiu.
Penny negou com a cabea.
"Em Newark nenhum vira-lata ganha costeletas. A menos que tenha sido atropelado, o que  perfeitamente possvel, ele vai voltar pra c. E estarei esperando por ele 
com uma casinha, uma guia e uma coleira."
Mas antes Penny teria que comprar tudo isso. ''Vita!'', ela gritou.
"Fala, Penny!", sua amiga respondeu.
''Vamos ao shopping".
''No at que eu fale com sua me sobre o modo como ela dirige."
"Me d a chave do seu carro", Penny pediu estendendo a mo.
"Calma, j dou", Vita rebateu. "Primeiro voc tem que se vestir, n?"
O shopping estava sempre cheio nas manhs de sbado, justamente como ela gostava.
''J vou", disse Penny, subindo a escada de trs em trs degraus. Virou  esquerda, entrou apressada no quarto e vestiu o jeans da poca de colgio. A perspectiva 
de ir ao Short Bares Mall, com seus elevadores de vidro, seu piso de lajotas douradas e suas centenas de lojas sofisticadas, deixou-a excitada, a despeito da histria 
infeliz de sua famlia naquele lugar. Ela se entregaria a uma espcie de terapia restauradora. Comprar para espantar o sofrimento. Proveria o seu futuro companheiro 
canino e depois proveria a si prpria para uma vida nova.
Uma vida nova como noiva abandonada. Bem melhor que divorciada, ela pensou, com a experincia de quem tinha visto muito de perto como esse processo suga o fluido 
vital da medula das mulheres. Sua me tentara educ-la para tomar cuidado com homens e compromissos. Penny se rebelou, e a partir da oitava srie comeou a dizer 
sim para os rapazes toda vez que era solicitada. Manteve o corpo em tima forma para as paqueras na piscina. E acabou ganhando com isso, porque sua vida de academias 
de ginstica e aulas de dana transformou-se em uma carreira.
Ter dito sim para a proposta de Bram talvez tenha sido o meu ltimo ato de rebeldia, Penny pensava enquanto escovava o cabelo. Ela se perguntava se todas as noivas 
abandonadas se sentiam igualmente humilhadas, desapontadas, rejeitadas e... aliviadas.
Plaft. Um barulho surdo veio de cima. Ela olhou para o teto.
Estranho, pensou. O quarto de cima era um depsito trancado. Ser que a me estava l?
Curiosa, Penny caminhou na direo do segundo lance de escadas.
Olhou para baixo e viu o saguo vazio. Vita e Natasha deviam estar na cozinha. Olhou para o alto da escada, na direo do tico.
"Me?", ela chamou. ''Voc est a em cima?"
Nenhuma resposta.
J fazia dez anos que Penny no pisava no terceiro andar. Sua me o  mantinha escuro, frio e abafado. Esther utilizava os cmodos para guardar a reserva de tapetes, 
cadeiras, mquinas de costura e tabuleiros de xadrez. Talvez um guaxinim tenha entrado pela clarabia no velho quarto de brinquedos e esbarrado nos mveis, Penny 
pensou.
''Al! Tem algum a?", chamou de novo, agora mais alto. Silncio. Esse barulho no foi nada, ela concluiu. Anotou mentalmente a necessidade de conversar com Natasha 
sobre a possvel presena de animais no terceiro andar, e desceu alguns degraus da escada. 
Plaft. Dessa vez Penny sentiu a vibrao nas tripas. Isso no  um guaxinim, ela pensou. Era maior. Muito maior. Virou-se e foi investigar o terceiro andar.





































Captulo 13

DE JOELHOS NA MESINHA DE CRIANA, Bram debruava-se sobre a lista do seu inventrio:

(3) cordas de pular
(4) estantes 2 x 3 x 1 - pregos reutilizveis???
(1) raquete de tnis - cordas reutilizveis???
(1) mesa - pernas destacveis (checar)
(2) cadeiras - pernas destacveis (checar)

Se eu tivesse um martelo, Bram pensou consigo mesmo. Ele tinha um martelo de manh, ele tinha um martelo de noite: Esther Bracket. Estava acordado desde que o primeiro 
raio de sol brilhara pela clarabia. As horas de solido j pesavam. Bram estava preso havia aproximadamente vinte e quatro horas (segundo o que pde contar), e 
no pretendia passar mais um dia trancafiado. Ele havia zanzado pelo quarto por mais ou menos uma hora at que resolveu ir ao banheiro. Quando saiu, uma outra bandeja 
estava no cho, perto da porta. Seus olhos voltaram-se diretamente para o espelho. Ser que sua monitorao seguia um horrio? Obviamente, Esther Bracket tinha uma 
cmplice. Talvez a russa.
Bram ps a travessa na mesa, perto da lista do inventrio. Enquanto comia, tentava calcular a altura do teto. Mas nisso sua habilidade de carpinteiro era falha: 
ele era pssimo em calcular distncia. Por isso, sempre usava uma rgua presa no cinto. Mas ela estava em seu estojo prateado, quadrado, pesado e compacto, sobre 
a cmoda do quarto em sua casa.
"Que falta voc me faz", ele disse em voz alta, pensando na sua fiel rgua porttil.
"J?", algum falou, fazendo-o derrubar o garfo. "S se passaram algumas horas."
"Esther?", ele chamou. O sistema de som era velho (ele tinha examinado os alto-falantes, defasados em pelo menos vinte anos).
Como na vspera, a voz dela estava distorcida e quase irreconhecvel.
"Esperava por outra pessoa?"
"Se voc quiser, posso comear a subscrever os envelopes", ele disse com um tom amistosamente fingido. "O meu tempo neste momento est mais ou menos disponvel."
"Por que voc me disse que era advogado?"
"Eu no disse. Voc  que tirou essa idia sabe-se l de onde", ele respondeu, surpreso.
''Voc podia ter me corrigido", Esther rebateu. "Se voc tivesse colhes, teria me corrigido."
Bram (cujos colhes eram bem maiores que a mdia) explicou-se:
"Voc tem razo. Desculpe. Bem que eu quis. Cheguei at a preparar as palavras, mas no tive chance."
''Voc teve chance de sobra", ela replicou. "Todos aqueles jantares em casa."
"Destoaria das conversas", disse Bram. "Pelo que me lembro, meu trabalho nunca veio  baila nesses jantares. Voc e Penny falavam sobre casa e notcias de pessoas 
que nunca conheci e nunca conhecerei. Toda vez que Penny tentava me incluir na conversa, voc fazia de tudo para me cortar. No era nada agradvel ser o namorado 
invisvel. O que voc desejava mesmo era que eu sumisse de vez. Agora me mantm trancado em sua casa. Tenho certeza que voc v a ironia disso."
No se sabe se Esther via ou no, porque no falou nada.
De braos cruzados, Bram esperou que ela dissesse alguma coisa.
Depois de alguns minutos, voltou-se para a comida. O menu do casamento estava delicioso. Especialmente o salmo. Ele podia com-lo o dia todo. E provavelmente comeria.
"Claro que esse quarto era o quarto de brinquedos da Penny", ele disse ao notar que Esther ainda o observava. ''Acho que os alto-falantes foram instalados quando 
ela ainda era criana. E voc ficava a sentada no quarto de controle espionando a filha. No compreendo por que uma criana precisava ser espionada. A no ser que 
tivesse algum problema."
"Os nicos problemas que Penny teve na vida foram um pai negligente e um noivo fracassado. Ambos razes de sobra", Esther falou, e arrematou: "Por que voc esvaziou 
quela estante?"
Merda! Ele tinha que ter reposto tudo no lugar, para no parecer que havia mexido. Levantou-se bruscamente e derrubou a cadeirinha.
Plaft.
"Desculpe." Ele se aproximou da pilha de livros infantis que estavam no cho. Pegou um dos livros, Os Ovos Verdes e o Presunto, e disse: "No ano passado jurei que 
ia reler esses clssicos".
"Seria melhor que voc no usasse a palavra 'juramento"', ela o advertiu. "Voc e Penny devem ter achado muito engraado quando o confundi com um advogado. Devem 
ter rido muito s minhas custas."
"No rimos, no", ele afirmou. ''A situao no era engraada."
"O que voc est desenhando? Traz at o espelho."
''Apenas rabiscos. Besteira", ele falou, tentando voltar at a mesa para rasgar a lista. Na pressa, acabou tropeando na pilha de livros e caiu no cho.
Plaft. Na queda, o maxilar de Bram colidiu com a cadeirinha, fazendo-o ver estrelas.
"Ai, meu Deus", ele gemeu. ''Acho que desloquei o maxilar", disse entre dentes, segurando o queixo. "Chama um mdico, isso  srio . Se voc tiver um pouco de piedade 
no corao, me leva para o hospital, por favor!", implorou, rolando de dor no cho.
Silncio. Bram continuava a se contorcer de dor, protegendo a parte inferior do rosto. E se manteve assim enquanto pde. Talvez por dez minutos. Depois, comeou 
a se sentir ridculo.
"Ok, estou de volta", disse a voz. "O que foi que perdi?"
Ser que ela no tinha assistido  encenao dele?
''Acho que desloquei o... deixa pra l."
"Eu quero os utenslios."
"Que utenslios?" O corao dele deu um pulo.
''Voc sabe: faca, colher, garfo. Pe tudo perto da porta e depois se tranque no banheiro. Voc vai ter que comer com as mos at eu trazer talheres de plstico. 
No tente ficar na porta, seno atiro."
"Pelo que sei, voc no tem armas", ele zombou.
"Em Nova Jersey todo mundo tem arma", ela afirmou com convico.
Ele acreditou e ps a faca, a colher e o garfo perto da porta. Em seguida, trancou-se no banheiro.
Enquanto Esther pegava de volta as ferramentas de Bram, ele investigava (outra vez) o banheiro em busca de cmeras escondidas. No encontrando nenhuma, colocou-se 
de ccoras e comeou a procurar alguma coisa atrs da privada. Alcanou com a mo o que queria e puxou um embrulho de papel higinico. Desembrulhou-o e sorriu: l 
estavam uma faca, um garfo e uma colher.
Ele os havia roubado na noite anterior. A essa altura os pratos sujos j deviam estar na mquina de lavar louas, e ningum se preocuparia em conferir os talheres 
que faltavam.













































Captulo 14

AQUELE CHAMADO DE "ME?" ecoando da escada paralisou o corao de Esther. A voz de Penny estava prxima. Muito prxima. Esther saiu correndo do quarto de controle 
(fechando a porta atrs de si) e deparou-se com Penny j no terceiro andar.
"O que est fazendo aqui?", Penny perguntou, olhando por cima dos ombros de Esther.
"Nada, s estava vendo algumas coisas no depsito."
"Ouvi um baque. Foram dois baques", Penny afirmou.
''Ah, era eu", disse Esther com energia. "Esbarrei com esses meus quadris enormes. Sou to desastrada! Uma anta! No  todo mundo que consegue ser to elegante como 
voc."
Penny apertou os olhos, e Esther notou que a filha no tinha se convencido.
"Voc est se sentindo bem?", disse Penny.
"tima!", Esther exclamou.
"Eu sabia que voc ficaria feliz com o que houve", Penny falou. "Mas no pensei que ficasse to exultante."
"No estou feliz, no", Esther contestou. "O que Bram fez com voc foi horrvel. Lamento muito, Penny."
"Isso foi quase sincero", disse Penny. "Quero falar sobre o cachorro."
"Cachorro? Voc quer dizer Bram?". Que progresso!, Esther pensou.
"O vira-lata. Aquele que est sendo alimentando por Natasha desde ontem. Vou peg-lo, e ele vai ficar comigo. E tambm vou me mudar pra c por um tempo", disse Penny. 
"Eu e o cachorro vamos morar aqui. Juntos." Ela lanou um olhar penetrante com descarada petulncia, um desafio bvio. O corpo de Penny tinha crescido, Esther pensava, 
mas o rosto no mudara desde os cinco anos, especialmente quando se crispava com essa petulncia. Esther sabia que se vivesse cem anos e a filha, setenta e oito, 
sempre a veria como um beb cujas mozinhas mais pareciam estrelas-do-mar.
Ela tambm sabia que o retorno de Penny naquele dia podia parecer uma boa idia, mas certamente a filha mudaria de idia no dia seguinte (ou na semana seguinte). 
A garota estava vulnervel. O apelo da casa - de companhia, de comida na mesa, de roupa lavada, de conta do telefone paga - parecia reconfortante. Esther sentia 
falta de Penny desde que ela havia se mudado para Nova York cinco anos antes, mas a sua obrigao de me era fortalecer a autoconfiana e a sade psicolgica da 
filha. Agora, porm, um problema preocupante: o hspede aprisionado. No, Penny tinha que voltar para a cidade. E quanto antes.
"Vamos descer a escada e sair daqui",Esther falou, tomando a iniciativa.
"J me decidi e pronto", disse Penny.
"E seu apartamento?"
"De qualquer forma, eu ia mesmo sair de l para morar com Bram". A voz de Penny tremeu ao mencionar o nome do noivo.
O que vou fazer com ele?, Esther se perguntava pela centsima vez. Lev-lo para Pine Barrens? Golpe-lo outra vez na cabea, torcendo por uma amnsia?
"Estou excitadssima por voc querer voltar pra casa! Mas voc devia tirar alguns dias para pensar. Por que voc e Vita no vo at a cidade? Fazer compras! Pode 
deixar que eu pago."
"Pensei que talvez voc pudesse me ensinar a cultivar a capacidade de auto-recuperao." ,
"Voc devia ter dito que o Bram no  advogado", disse Esther, j no segundo andar, distante da zona de perigo.
"O que isso importa?", Penny replicou. "Advogado, cengrafo, encanador. Voc o odiaria de qualquer jeito."
"Tenho razes de sobra!", Esther afirmou.
"J sei, os meus ferimentos", disse Penny. "E se eu dissesse que foram consensuais?"
"Voc se deixava ser agredida?"
Blm!
" o  Bram!" Penny exclamou com brilho nos olhos ao ouvir o som da campainha da porta.
"No ", disse Esther, achando que era uma outra caminhonete que chegava do Plaza.
"Pode ser," Penny retrucou.
"Impossvel", Esther afirmou.
"Voc sempre tem que ser negativa!" Penny correu at a porta irritada. 
Esther teve que se conter para no dizer: No,  no sou!
Enquanto Penny se dirigia at a porta de entrada, Esther subia rapidamente at o terceiro andar para pegar os talheres que Bram tinha devolvido. Isso s levou um 
minuto. Depois ela desceu apressada para receber a pessoa que batera  porta.
Um homem. Abraando sua filha.
"Keith" espantou-se Esther, descendo a escada e escondendo os talheres no bolso do casaco. "O que o traz aqui?"
Abraado a Penny, ele olhou para Esther. Ela achou que ele havia perdido o flego ao v-la. Penny afastou se do peito de Keith com os olhos vermelhos e inchados. 
Tinha chorado, e recebia o conforto do ex-futuro sogro. Esther sentiu uma ponta de cime. Penny sempre chamava a ateno dos homens.
"Bem-vindo", disse Esther, flanando pela escada para parecer o mais natural possvel, e rezando para que Keith no pedisse para conhecer a casa toda.
"Quanto tempo!", ele disse com um sorriso para Esther. Para Penny, fez uma promessa: "Vou encontr-lo. Nem que tenha que contratar vinte detetives e gastar um milho 
de dlares, garanto que vamos at o fundo dessa histria."
Keith apertou o ombro de Penny, de lbios comprimidos, transmitindo coragem. Seus olhos transmitiam segurana. As sobrancelhas arqueavam-se em considerao. No 
era de estranhar que Penny tivesse desabado em sua presena. Era um homem bom. E como era... Mas Esther era melhor.
"O que o traz aqui, Keith?", ela perguntou.
"Eu precisava ter certeza que voc estava bem", ele disse. "Voc largou to abruptamente o seu caf-da-manh!"
"Estou bem", ela disse,
"Caf-da-manh?", Penny inquiriu.
"Fui at o hotel para resolver um assunto e acabei encontrando Keith. Tive que voltar por causa de uma dor de cabea repentina. Mas j passou."
"Que bom!", disse Keith, fazendo uma pausa ao entrar no saguo para olhar a parede de presentes. As flores do funeral. "Vocs tm uma bela casa."
"Mame  colecionadora de antiguidades. Quartos e mais quartos entulhados de coisas. Ela tem uma das maiores colees de cadeiras Queen Anne do pas", Penny falou.
"Verdade?", Keith admirou-se.
"Mostra a casa pra ele", disse Penny. "Alm de todas as coisas expostas, ainda tem uma tonelada de objetos estocados no terceiro andar. O bastante para encher uma 
outra casa, no , me?"
Esther engoliu em seco.
"Eu adoraria conhecer a casa", disse Keith, Esther abria a boca pensando numa boa desculpa quando Vita entrou pela porta da cozinha. Pela primeira vez Esther ficou 
feliz ao v-la.
"Senhora Bracket", disse ela, expandindo as palavras, "tenho umas perguntinhas pra lhe fazer. Sobre o seu jeito de dirigir."
O que essa tagarela insignificante est falando?, pensou ela.
"Como disse?", Esther perguntou o mais educadamente possvel.
"Hoje, aproximadamente s dez da manh, a senhora foi vista saindo do Plaza Hotel, dirigindo to loucamente que quase bateu num fusca verde... o meu. Sem que notasse, 
segui atrs da senhora at aqui. Ontem, aproximadamente s quatro da tarde, fui fechada na rua por um luntico que dirigia uma caminhonete Volvo vermelha."
"No podia ter sido eu", Esther afirmou. "Nessa hora eu estava no Plaza."
"Fazendo o tipo da policial durona?", Penny questionou a amiga.
"Gostou?", Vita quis saber.
"Muito autoritria."
"Voc prefere um tipo mais gentil e popular, no ?"
"E quem no prefere?"
Vita passou a lngua nos lbios e voltou-se outra vez para Esther.
"Fica entre ns, querida, pode contar tudo. Sou toda ouvidos. Sou mesmo. A senhora sabe de algum vizinho que dirige uma Volvo vermelha igual  sua?"
"No s um como vrios", Esther respondeu.
"A senhora no estaria mentindo?", Vita perguntou, caprichando na voz arrastada do seu vil personagem - e excluindo-se oficialmente da lista de convidados de Natal 
de Esther. "Imagine ento se eu batesse em algumas portas. S para fazer novos amigos."
"Voc pode tentar", Esther replicou com sarcasmo. Seus vizinhos certamente trancariam a porta quando a vissem chegar.
''Algum sinal do cachorro?", Penny perguntou.
Vita parou de lamber os lbios (graas a Deus) e respondeu com seu tom normal (embora enfadonhamente nasalado) de voz.
"Eu e Natasha assoviamos por ele durante uns vinte minutos."
"Onde est Natasha?", Esther quis saber.
"Saiu", disse Vita.
At ento hipnotizado pela atuao canastrona de Vita, Keith perguntou:
"Desculpe, Esther. Mas isso em seu bolso  um garfo?"
"Ou  s felicidade por v-lo?", Penny comentou em tom picante.
O comentrio fez com que Vita e Penny comeassem a rir como idiotas. Keith corou. Aquela simples pincelada de rubor suavizou a expresso daquele homem to severo.
"Ns vamos fazer compras", Penny avisou.
"Na cidade?", Esther quis saber.
"No shopping. Voc disse que pagava." Penny voltou-se para a visita e perguntou. ''Voc vem jantar com a gente, no vem? Por favor."
"Eu adoraria", ele disse olhando para Esther, "mas no quero incomodar".
"Infelizmente, ele est deixando a cidade", Esther falou.
"Mudei de idia", ele disse. "Nova Jersey me parece mais cativante neste momento."
"No, no, esta cidade  muito maante", Esther corrigiu. " um tdio. Se eu fosse voc, caa fora logo que pudesse."
"Short Hares no  to ruim assim. Alguns lugares so bem interessantes", Keith disse sorrindo, desta vez olhando nos olhos dela. Todos notaram. De repente, a calcinha 
de Esther ficou molhada. Ela pensou que podia ser incontinncia urinria (tinha lido que essas coisas podem acontecer). Mas depois ela se deu conta: estava excitada.
"O que voc quer dizer com cativante?", ela perguntou.
Penny deu uma tossida.
"Sei quando estou sobrando", ela disse, e logo saiu com Vita.
Esther e Keith ouviram o motor do fusca at que todo o rudo cessou completamente - exceto por um crepitar tenso s suas costas.
"Voc ouviu?", Keith perguntou.
''A crepitao?", disse Esther.
"O som de um martelo batendo. Est vindo l de cima", ele falou.
Esther engoliu em seco. Tinha que tir-lo de l.
"Por que no comeamos pela parte externa da casa?", ela sugeriu, segurando Keith pelo brao enquanto andavam.
Keith se deixou conduzir bem ao lado de Esther. Era mais alto que ela. Apesar de sua altura, ela nunca se sentira to baixa. Ela o levou pela sala de pingue-pongue, 
a sala de jantar, o solrio, a galeria. Atravessaram as portas duplas que se abriam para fora, desceram pelo caminho pavimentado que rodeava a casa, passaram pela 
piscina e foram at o jardim. Esther gastava milhares de dlares por ano s para mant-lo. Ela cuidava dele e o regava, mas contratara um profissional para fazer 
o trabalho pesado. Esther no pegava no pesado.
O jardim tinha dois canteiros principais encostados num muro de pedras. Esther se orgulhava especialmente da cerca viva de azalias floridas que se estendia em torno 
de toda a propriedade. Ela instrura o sr. Alonzo, o jardineiro, para pod-las ao estilo grego, de modo que a cerca parecesse o muro de um labirinto vista de fora.
''Tenho vizinhos abelhudos", disse Esther enquanto colhia uma flor rosada.
"Isso  quase uma cerca viva", Keith comentou.
Inexplicavelmente, ela se ruborizou vivamente. Malditos capilares!
"Seus vizinhos", ele disse. "O que  que voc no quer que eles vejam?"
''Apenas preservo a minha privacidade."
"Deve ser horrvel se sentir observado", ele concordou. "Como naquelas salas de interrogatrio com espelhos de duas faces."
"Sim", Esther falou com pesar. "Isso seria horrvel."
Russell  que tinha insistido em construir o quarto de brinquedos.
Ele costumava dizer que Penny era uma filha preciosa. No deixaria que nada de mau acontecesse a ela.
"Sob sua vigilncia." Na poca Esther no entendeu o que ele realmente quis dizer. Mas isso ocorrera no comeo da dcada de 1980, quando a histeria em relao s 
crianas molestadas atingia o pice. Um grande nmero de reportagens - o professor de um jardim-de-infncia em Summit, o conselheiro de um acampamento em Perth Amboy 
- dominava os jornais de Nova Jersey. A cada dia o jornal Star Ledger publicava novas acusaes contra babs, padrastos, padres. Surgiu no mercado a primeira onda 
de equipamentos de espionagem e cmeras espis. Russell comprou a histeria e a tecnologia. Contratou um profissional para deixar o quarto  prova de som e instalar 
alto-falantes e um espelho de duas faces. Esther no se opusera. A segurana estava em primeiro lugar. Russell pediu que ela observasse Penny e a bab inglesa - 
que ele mesmo havia escolhido (isso acontece) - pelo menos de quinze em quinze minutos.
Russell revelou-se melhor espio que Esther. Passava horas (quando no estava em viagem) observando as brincadeiras de Penny com a bab, tempo que ele podia aproveitar 
para brincar com a filha. Ateno que ele podia dedicar a sua solitria esposa.
''Voc est outra vez plida", disse Keith. "Sua dor de cabea voltou? Talvez fosse bom dar uma descansada. Vou lev-la ao seu quarto."
" bom que voc fique fora do meu quarto", Esther resmungou.
"O que  isso?", espantou-se ele, arqueando as sobrancelhas.
"Esther! Querida! Cheguei!", ouviu-se uma voz afetada atravessando o enorme gramado. Esther e Keith voltaram-se para a fonte, e l estava a figura de Ashley Longmead, 
a doce vizinha de Esther, vestindo uma blusa de seda marrom e uma saia envelope creme, com os cabelos castanho-acobreados soltos e volumosos ao estilo de Ann-Margret. 
Ashley tinha nos pulsos braceletes de diamantes to escandalosos que refletiam a luz do sol.
Esther acenou aliviada ao ver a amiga. Conhecia Ashley desde que chegara a Short Hares, trazida por Russell depois de duas semanas de namoro e um casamento relmpago. 
No primeiro dia de mudana - vinte e cinco anos atrs -, Ashley recebeu-a com beijos nas bochechas e um alvo e deslumbrante sorriso. Agora Esther recebia a mesma 
afetuosidade; beijos e um abrao apertado. O rosto de Ashley no mudara quase nada desde o dia em que a conhecera, graas ao seu amado e finado marido, um cirurgio 
plstico. Lawrence tinha oitenta anos quando falecera, no ano anterior. A idade de Ashley ningum sabia. Esther achava que ela beirava uns cinqenta e poucos anos. 
Ashley carregava um buqu de rosas em um dos braos. No outro, uma sacolinha com o logo tipo da Gourmet Bakery.
Flores e comida. Exatamente o que Esther no precisava.
"Queridinha!", disse Ashley. "Lamento tanto por ontem! Procurei voc como uma louca pelo hotel, para ver se estava precisando de ajuda, mas ningum sabia onde voc 
tinha se metido! Tenho certeza que voc vai gostar de saber que Short Hares inteira est do seu lado. De verdade. Isso  tudo o que podemos dizer."
"Muita gentileza de sua parte me dizer isso", disse Esther.
Ashley estendeu a mo impecavelmente cuidada para Keith e apresentou-se.
" o pai do noivo?", ela perguntou. "Eu me lembro de voc, eu vi ontem."
Keith fez uma reverncia.
"Eu tambm prestei ateno em voc. Seu vestido era estonteante."
Esther no tinha visto, mas podia imaginar. Ashley tinha o corpo de uma mulher de trinta anos e gostava de exibi-lo, geralmente em roupas de tons suaves (caramelo, 
chocolate, creme, etc.). Embora o sexo fosse o nico tema que as duas vizinhas nunca discutiam (Ashley insinuava o assunto e Esther no tinha nada a relatar), Esther 
sabia que a amiga tinha alguns casos.
''Vamos pr as flores na gua?", Ashley quis saber.
Os trs voltaram  casa e entraram pela porta da cozinha. Esther pediu a Ashley que levasse Keith at o solrio enquanto procurava um vaso.
Ao vasculhar os armrios, encontrou um vaso de cristal (que ganhara de presente de casamento). Colocou as rosas no vaso (o cheiro estava comeando a lhe fazer mal) 
e depois espiou o contedo da sacola da confeitaria. Como de costume, Ashley trouxera os famosos biscoitos de l: palmiers. Algumas pessoas costumavam cham-los 
de "orelhas de elefante". Eram biscoitos amanteigados, cortados em crculos e assados com uma leve camada de acar por cima. A massa era leve, crocante e deliciosa. 
Ashley sabia que Esther adorava palmiers e que podia com-los compulsivamente. Ela se sentiu incrivelmente bem, tocada pela gentileza da amiga - talvez a nica amizade 
verdadeira que fizera em Short Hares.
Disps os biscoitos num prato e preparou um bule de caf. Depois, colocou os biscoitos, o caf, as xcaras, o creme e o acar numa bandeja e levou-a para o solrio 
- seu cmodo favorito da manso, com janelas que se abriam do teto ao cho e proporcionavam uma vista completa do jardim.
 medida que se aproximava, ouvia a conversa entre Ashley e Keith.
" aquela com telhados de lajotas cinzentas", Ashley apontava.
"Ento voc mora bem aqui do lado", ele disse.
"Esther e eu somos muito prximas, de diversas maneiras", ela afirmou.
Esther sentiu um n na garganta. Estava feliz pela visita da amiga. Entrou no solrio e ps a bandeja sobre uma mesa de vidro.
"Seus favoritos", disse Ashley.
"Obrigada", Esther agradeceu com os olhos marejados.
"Querida, seu jardim est mordiscado", Ashley falou. "Ah, j sei por qu."
Enquanto os trs se deleitavam com a vista, uma famlia de esquilos aparecia num dos canteiros e comeava a cavar e a roer as plantas.
"No, de novo no", Esther comentou. A populao de esquilos vinha se transformando vertiginosamente num dos maiores problemas de Short Hares. "O estado sancionou 
a caa aos ursos-negros e aos cervos. Quando  que vo sancionar a caa aos esquilos?", ela indagou.
"Deixa comigo", disse Ashley enquanto sacava de sua elegante bolsa uma pistola 22 de cabo de madreprola que seu marido lhe dera de presente.
"No antes do almoo", Esther contestou, descartando a oferta de Ashley.
Se Keith achou estranho que uma mulher de meia-idade carregasse uma arma na bolsa (embora no passasse de mais um acessrio para Ashley), ele no comentou. Esther 
presumiu que na administrao dos negcios dele (ou seja l do que fosse que ele disse que fazia), todos portassem armas. Keith sentou-se no sof de chintz e serviu-se 
de um biscoito. Enquanto o saboreava, Esther observava a expresso dele. E sorriu quando ele fechou os olhos para lamber os resduos de biscoito que restavam nos 
lbios, soltando um hummm de aprovao.
Observando-o, Ashley tambm emitiu o mesmo hummm.
"Isto  timo", ele disse.
"Mas farinhento", Ashley replicou, apontando os resduos nos lbios de Keith. Sentou-se ao lado dele no sof e espanou os pedacinhos de biscoito para o piso de lajotas 
terracota.
Se Keith se incomodou com as mos daquela estranha mulher limpando seus lbios, no deixou que ningum notasse.
Esther sentou-se na poltrona  frente do sof, avaliando a situao. Do seu jeito habitual, Ashley flertava com Keith descaradamente. E qual era o problema? Ele 
era um homem interessante, e ela, uma mulher livre.
"Ento, Keith" ,disse Ashley, "Voc  casado?"
"Sou vivo."
"Somos trs, ento", ela afirmou.
"Eu sou divorciada", Esther frisou.
Ashley negou com a cabea.
"Se voc fosse realmente divorciada, no teria nada. Como viva, voc  uma mulher rica. Assuma de uma vez o que voc , querida."
Esther j ouvira Ashley expor essa lgica. At que fazia sentido. Se Russell no tivesse resolvido passar no shopping - e morrido - antes de ir ao escritrio do 
advogado, ele teria assinado o acordo injusto que Esther combatera por anos e no final se vira obrigada a aceitar. Ela teria perdido o direito sobre os bens de Russell 
e tambm a custdia de Penny.
Keith olhava fixo para Esther, com um misto de curiosidade e satisfao.
"O meu Lawrence era um anjo cado na terra. Sinto muita falta dele", Ashley comentou. Depois, tomando o maior cuidado para no estragar a maquiagem, passou um leno 
sob os olhos.
" duro perder a pessoa amada", disse Keith.
Grata, Ashley sorriu para ele e aproximou-se um pouco mais. Esther observava, pasma e repugnada. A repugnncia era um fato novo. J estava acostumada com o jogo 
de seduo da amiga. Mas agora, ao v-la jogar charme para Keith, ela estranhava. Ele  meu, ela pensou. Alm do mais,  o pai do homem que mantenho trancado no 
tico.
"Que nusea horrvel me deu de repente! Ashley, depois voc mostra a sada para Keith? Mas no se apressem. Vocs parecem estar to bem... Odiaria incomod-los", 
Esther falou, e levantou-se de supeto.
Keith levantou-se rapidamente. Ashley o seguiu.
"Penny falou algo a respeito de um jantar hoje  noite", ele disse.
"Eu adoraria jantar com voc", disse Ashley. "Esther est to adoentada que no poder organiz-lo."
Ashley piscou para Esther. A mesma piscadela de quando saa furtivamente com algum homem das recepes beneficentes e dos jantares, alegando que precisava espairecer 
na varanda ou falar com o chefe ou encontrar o bar. Geralmente os homens logo mostravam interesse por Esther, mas eram interceptados por Ashley, vestida de maneira 
sedutora. Durante anos Ashley livrara Esther de situaes desconfortveis um sem-nmero de vezes. E toda vez que se via jogada entre um homem e Esther, ela dava 
aquela piscadela de cumplicidade para a amiga.
Dessa vez Esther no piscou de volta.
"Tenho certeza que depois de uma soneca estarei novinha em folha", ela disse para Keith. ''Jantar, s seis."

















Captulo 15

"APRESENTO O LENDRIO SHORT Hares Mall, conhecido em trs estados como a mais bem-sucedida experincia comercial", Penny falou  entrada majestosa do shopping. "Tem 
gente de Connecticut, Nova York e at de Delaware que vem at aqui s pelo privilgio de percorrer esses pavilhes suntuosos, comprar nessas lojas, degustar a comida 
mais famosa do estado. Os preos podem ser salgados, mas em Nova Jersey o vesturio  isento de taxas, e isso acaba trazendo uma compensao."
"Sai da frente", Vita falou com impacincia, empurrando Penny para que as portas hidrulicas de vidro do shopping se abrissem.
Quando se abriram, soou uma melodia divina, um coro de anjos.
"O que  isso?", Vita perguntou.
Penny apontou para os alto-falantes no teto.
"Sensores de movimento. Toda vez que as portas se abrem, cantam os querubins."
Trs passos dentro do shopping e elas j estavam sendo abordadas por moas elegantemente vestidas com um conjunto amarelo de saia e blazer.
"Foie gras?", uma delas oferecia, estendendo uma travessa de prata cheia de torradas cobertas pelo pat.
"Relaxamento facial?", outra moa perguntava com atornizadores prateados a postos.
"No, obrigada", disse Penny.
"No, obrigada?!", Vita objetou.
Puxando Vita pelo brao, Penny explicou:
"No estande da Chanel tem amostra grtis para os membros do shopping. Ou seja, para ns. Mame  membro do Crculo de Ouro. Com uma nica doao de cinco mil dlares, 
ela, e ns, por extenso, temos direito a amostras grtis, descontos em lojas, degustao grtis, estacionamento grtis e transporte grtis dentro do shopping  para 
sempre."
"Isto no  um shopping", Vita comentou. " um country club."
O projeto arquitetnico do shopping o fazia parecer uma roda, com eixo e raios. Penny conduziu Vita pelo saguo at que elas chegaram ao ponto central da construo, 
uma fonte composta por um alto globo de vidro.
"Est vendo as cinco setas?", Penny perguntou enquanto rodeavam a fonte. "Indicam a entrada para cada pavilho."
Penny, ento, apresentou um pequeno sumrio do esquema dos pavilhes:
" frente, voc tem o pavilho de roupas e acessrios", ela disse.
"Roupas masculinas, femininas, infantis e tambm para ces e gatos. Relgios, culos, jias, bolsas, cintos."
E continuou explicando:
"Depois, o pavilho de entretenimento. Aparelhos eletrnicos, livros, msica, filmes, e ainda um cinema. Seguindo  direita, o pavilho da beleza. Spas e sales 
de cabeleireiro, uma academia, perfumarias, um centro de tratamento a laser especializado em olhos, pele e depilao. Adiante, o pavilho do lar. Lojas de mveis, 
antiqurios e uma filial da Sotheby" para leiles. Por ltimo, o pavilho da alimentao. Lojas especializadas em artigos para cozinha e mesa, confeitarias, delicatessen, 
bufs, dois restaurantes trs estrelas e a escola de culinria Cookings.  uma escola patrocinada pela Kings, uma cadeia local de supermercados carssimos. Certa 
vez mame fez um curso nessa cola para aprender a obter carne tenra."
"Como?", Vita quis saber.
"Fale para a vaca que sua filha adolescente est grvida."
Vita riu. Conseguia rir de qualquer coisa, e era isso que Penny sempre apreciava nela. Sorrindo, Penny compartilhou a admirao de Vita pelos grandes elevadores 
de vidro, as escadas cromadas, o piso de mrmore e as lojas. Naquela hora a horda de clientes dos sbados estava presente. Mulheres de meia-idade vestidas dos ps 
 cabea pela grife Moschino, com os filhos impecavelmente limpos mastigando cookies enormes e as babs caribenhas carregadas de caixas e sacolas que exibiam logotipos 
da D&G, Beth Johnson, Godiva, Domain. Adolescentes com rabos-de-cavalo vestidas com jeans idnticos (da Seven), camisetas (da DKNY) e tamancos (da Birk). Homens 
dependurados em celulares, famlias que subiam e desciam pelas escadas rolantes e grandes filas no cinema, nos restaurantes e nos sales.
"Estou de queixo cado. E aqueles carros, o que significam?"
Ela se referia a uma fila de carros luxuosos estacionados ao redor do saguo, ladeados por cordas de veludo.
"Esto  venda, claro", Penny respondeu.
Ficaram a observar um homem de terno cinza que rodeava um Lamborghini amarelo. Ele deu umas quatro voltas em torno do carro antes de pedir ao recepcionista um prospecto 
das condies de venda.
"D uma olhada na fonte", disse Penny apontando para uma esfera de vidro dentro da qual borbulhava gua, que saa por. Uma abertura no topo e escorria pelas laterais, 
precipitando-se numa piscina negra de aproximadamente quatro metros de dimetro cheia de moedas cintilantes. As moedas caam dentro d'gua a intervalos curtos de 
tempo.
"Moedas caindo do cu?"
Elas estavam no trreo. Penny apontou ento para cima, para que Vita soubesse de onde as moedas caam. No balco do segundo piso, em frente ao Pottery Barn, no pavilho 
do lar, um grupo de pessoas atirava moedas.
" dali que o shopping permite que se lancem moedas", disse Penny. ''As pessoas miram a abertura no topo da esfera e jogam as moedas dentro da fonte."
"Por qu?", Vita perguntou.
"Porque sim."
"Isso me parece um desperdcio de dinheiro."
Penny sorriu. Pelo que j tinha visto, o shopping inteiro e tudo o que havia dentro dele era um tremendo desperdcio de dinheiro.
"Olha aquela criana dependurada no parapeito", Vita mostrou, assustada. "Foi de l que o seu pai..."
"Caiu e morreu?", Penny completou a frase da amiga. "Exatamente dali. Do mesmo ponto. Ele se inclinou demais e despencou de cabea."
"E ele se afogou?", perguntou Vita com uma expresso de horror.
"Morreu pelo impacto. Quebrou o pescoo. O estranho  que o vidro relativamente frgil no se estilhaou. Parece que os bombeiros levaram trs horas para resgatar 
o corpo."
"Voc presenciou?", Vita quis saber. "Quantos anos voc tinha? Doze?"
Penny refutou com a cabea.
"S oito anos", ela disse. "No vi o acidente; vi a foto no Star Ledger. A manchete dizia: 'Queda Fatal no Centro Comercial'. Foi o primeiro artigo de jornal que 
li na vida."
Uma das razes para que Penny quase nunca falasse das circunstncias da morte do pai era simplesmente a dificuldade que tinha em explic-la. Num de seus primeiros 
encontros com Bram, ela at que tentou ilustrar, mas era uma pssima desenhista e no conseguiu passar uma idia clara do ocorrido (embora tivesse desenhado figuras 
e uma linha pontilhada que evidenciava a trajetria a partir do balco). Bram s foi entender quando viu a fonte com seus prprios olhos seis meses antes, no dia 
em que os dois tinham ido fazer compras no shopping para o casamento.
Uma moeda maior foi arremetida pela abertura, seguida pelos aplausos das pessoas no balco. A moeda caiu na piscina e parecia maior com a distoro causada pela 
gua. Penny se perguntava se a cabea de seu pai parecia maior quando o corpo ficara no fundo da fonte.
"Eu tinha trs anos quando ele saiu de casa, e depois disso raramente o encontrava. Foi morar na cidade com Jemima, sua namorada inglesa. Minha antiga bab estava 
com ele no balco quando houve a queda, Iam se casar naquele mesmo dia, depois que ele assinasse os papis do divrcio. Desde ento ela entrou para uma dessas seitas 
crists fanticas. Ainda me manda cartas, tentando me converter."
"Parece que este lugar no lhe traz boas lembranas", Vita falou.
''Voc no faz idia", disse Penny.
"Mas acho que nenhuma delas supera a 'Queda Fatal no Centro Comercial' ."
"Como voc me subestima!"
Penny puxou Vita pela mo e cruzou o pavilho de roupas e acessrios. No primeiro piso havia poucas lojas, e ela parou em frente  Laura Ashley Boutique, s de vestidos 
de noiva.
"Eu sabia!", Vita exclamou. "No me arrisquei a falar, mas suspeitei o tempo todo."
Penny assentiu com a cabea.
"T legal; assumo que comprei um vestido de noiva assinado pela Laura Ashley. Eu e Bram viemos ao shopping s pra espiar. Achei que teramos algumas idias, eu principalmente. 
Estvamos passando por essa loja quando ele insistiu que eu experimentasse alguns vestidos. Rindo, de mos dadas, tudo era to simples... ento entramos na loja. 
Ele disse pra vendedora que queria que eu ficasse parecida com uma noiva de bolo de casamento. Um vestido de noiva bem tradicional. A cada vestido apresentado, Bram 
dizia: 'Mais franzido! Mais laos!' Foi hilrio, pode crer."
"Posso imaginar como  divertido experimentar vestidos", Vita admitiu. "Mas por que voc acabou comprando aquele?!"
Penny deu de ombros com indiferena.
"De repente, l estava eu na cabine, enfiada naquele vestido que me tirava toda a dignidade. Bram se aproximou e nos entreolhamos pelos espelhos da cabine. Ele me 
beijou e , O beijo iniciou toda a ironia.
Ele disse: 'Eis a minha noiva maravilhosa'. Com o corao na boca, parei de opinar. E o mais irnico  que comecei a acreditar que aquele momento era um dos mais 
romnticos da minha vida."
Vita segurou as mos de Penny e apertou-as com carinho.
"Momentos melhores viro."
Os olhos de Penny marejaram um pouco e ela desviou o olhar para se livrar das lgrimas. Felizmente, seus olhos se cravaram em outra vitrine.
"E prepare-se para mais uma porrada", ela disse enquanto se encaminhava at a Precious, uma loja sofisticada de roupas. "Bem aqui, na frente dessa loja, fui seqestrada."
"O qu?"
"Eu tinha sete anos. Entrei na loja com mame, e ela comeou a falar com a vendedora. Falava, falava, falava. Fiquei entediada e sa da loja. Uma mulher estranha 
me pegou pelas mos e me levou pelo corredor at o banheiro. L, ela me cobriu com um casaco de capuz negro e me levou para fora do pavilho de roupas, e por pouco 
para fora do shopping."
"No acredito!"
Penny assentiu enfaticamente.
"Pois , estvamos a poucos passos da sada quando apareceram cinco seguranas do shopping armados e comearam a gritar para que eu me deitasse no cho. Agarraram 
a seqestradora e a empurraram contra a parede com tanta violncia que quebraram dois dentes dela. Aterrorizada , fiquei estirada no cho, em choque. Depois mame 
chegou.  Chorava histericamente, me agarrava e gritava. Completamente descontrolada. Foi ela que chamou a segurana quando notou o meu desaparecimento, Os guardas 
foram orientados para prestar ateno numa menina de sete anos de cabelo castanho escuro, usando um casaco verde e botas vermelhas. Mesmo com os cabelos encobertos 
pelo capuz negro e o casaquinho debaixo do casaco da mulher, um guarda esperto identificou as botas vermelhas."
"Estou sem fala", disse Vita com os olhos arregalados.
"O seqestro frustrado tambm foi parar nos jornais. Um ano antes da Queda Fatal. O jornal Star Ledger fez uma matria elogiando a presteza dos guardas da segurana. 
Da noite para o dia o fluxo de gente no shopping dobrou. Todo mundo passou a se sentir mais seguro aqui."
"E quem era a seqestradora?", Vita perguntou.
"Uma domstica da Repblica Dominicana que trabalhava para uma famlia rica de Short Bares. Quase no falava ingls. Aparentemente, a saudade da filha que tinha 
ficado em Santo Domingo a fez enlouquecer. Solido traz loucura. Ela me viu, e de alguma forma despertei a lembrana da filha. Da lembrana ao rapto foi um pulo. 
Nunca mais a vi. Foi deportada. Ela tambm escreve pra mim, mas tudo em espanhol, e nunca me preocupei em traduzir. S sei que tem um monte de Jesus Cristos e Dios 
mio.  outra que entrou para uma seita crist. Se sentiu to culpada que virou fantica."
"Quer dizer que voc e sua me se ligaram a um time internacional do cristianismo."
"Nada mau para uma dupla de Nova Jersey, no ?", disse Penny.
Vita balanou a cabea, impressionada com a srie de acontecimentos vividos por Penny no shopping.
"O maior drama da minha infncia foi quando fiquei com a cabea presa numa cerca", contou Vita.
"Voc  sortuda", Penny comentou enquanto pensava na centena de episdios que nem chegara a mencionar. "Foi poupada do drama, e hoje seu trabalho  o melodrama."
"No necessariamente por muito tempo", Vita replicou. 'j transei com todos os caras do elenco... na vida real e na tela. No falta acontecer mais nada com Cherry 
Bomb em House of Blusher. A no ser ficar doente e ter uma morte maravilhosa... com os cabelos intactos e a maquiagem impecvel,  claro. Ou ento comear a transar 
com mulheres."
"S na tela", Penny comentou.
" claro!", disse Vita. "O que eu preciso  do meu prprio seriado. Quero representar uma personagem que no seja cortada nem sacaneada no show."
''Adorei sua interpretao da detetive", disse Penny.
"Cherry Bomb, a Detetive Particular", Vita exclamou, pensativa.
''Vou pensar nisso. Mas vamos logo, Penny. Temos algo urgente para resolver."
"Os apetrechos caninos?"
"Temos que comprar um novo par de sapatos vermelhos."
Vita arrastou-a para dentro da Well Heeled, uma sapataria badalada. Como sempre, Penny se viu impelida para o setor de sapatilhas. Com sua altura, os sapatos baixos 
eram uma ddiva. Desde os tempos de colgio era superconsciente da altura que tinha. Era a criana mais alta da sala, e aprendera a andar curvada quando entrara 
na universidade, hbito que s deixava de lado nas aulas de dana e nas apresentaes.
Vita surgiu com um par de sapatos vermelho-rom.
"Salto oito?", Penny balanou a cabea.
"E da?"
"Vou ficar enorme!", Penny alegou. "Vai ser difcil me curvar".
"D uma experimentada", Vita falou tentando engambelar a amiga. "E fique ereta. Por favor."
Penny gemeu, mas acabou cedendo. O vendedor lhe calou os sapatos. Calada, em p, Penny oscilou.
"Tudo parece pequeno daqui de cima", ela disse.
Enquanto isso, Vita experimentava um par de sandlia de correias tranadas do tornozelo at a metade da barriga da perna.
"Voc sempre teve panturrilhas to bonitas?", Penny perguntou, observando as pernas da amiga.
"So as sandlias", Vita retrucou. "Cem paus o par. Quarenta paus mais cara que todas as que j tive."
Do alto, Penny olhou para o vendedor, dizendo:
"Ficaremos com os sapatos. E j vamos sair daqui com eles".
Apresentou o carto ouro de sua me, assinou o recibo e pegou as sacolas.
''Agora vamos andar", ela falou. "Ou tentar."
Incapaz de curvar a coluna e forada a mant-la ereta, Penny era a cabea mais alta do pavilho. Avistava sinais de calvcie, caspas e razes por tingir. quela 
altura, o ar era rarefeito e provocava tontura.
"Olha l a Pampered Pooch", Vita apontou.
Ao entrarem no paraso dos animais de estimao, ambas se dirigiram ao setor de roupas para ces. Capas de chuva, botinhas, suteres, jaquetas, capas de Batman. 
Penny puxou um cabide com um tutu de bal com (quatro) sapatilhas cujo preo era cento e cinquenta dlares.
"Seria adorvel se no fosse obsceno", ela disse. Vita se sentia igualmente chocada com tanta frescura. Os olhos das duas amigas foram ento atrados para um balco 
de vidro trancado, com gargantilhas, braceletes e at brincos.
"Quem  que gastaria quatro mil dlares com uma gargantilha de diamantes... para um co?", Vita perguntou.
"Voc no faz mesmo idia de quem so os consumidores daqui", Penny rebateu.
''A bem da verdade, at que esse pequeno item est baratinho", disse Vita, desviando o olhar para uma coleo de coleiras de couro negro adornadas com espetos pontudos. 
"Voc gastaria quatro vezes mais em qualquer loja do Village especializada em sadomasoquismo."
"Olha s pra isso", Penny falou de outro balco. "Maquiagem pra ces."
O balco exibia vidros de esmalte de unhas, escurecedor de focinho, delineador marrom para os olhos, gloss para gengivas, p-de-arroz para plo, glitter para iluminar 
pelagem. Vita abriu um vidro de esmalte negro e comeou a passar nas unhas.
''Voc j reparou que h um fio condutor que vai da histria do seqestro at o vestido de noiva? J sacou a influncia disso na sua capacidade de persistncia e 
de auto-afirmao?", ela falou.
Penny brincava com os lpis para olhos e focinho.
"Isso aqui parece timo", ela comentou com a amiga de unhas pintadas de negro. O esmalte era de "secagem instantnea". Fazia sentido. A maioria dos ces no teria 
pacincia para esperar secar debaixo de ventiladores.
"Voc precisa se conectar com sua cadela interior", disse Vita.
"Este seria o melhor lugar para isso", Penny afirmou. Escureceu as plpebras com sombra negra para focinho e passou o gloss de gengivas nos lbios. Depois tentou 
colocar uma coleira no pescoo. "Mas isso traz  baila um dilema interessante."
"Qual?", disse Vita enquanto passava delineador nos olhos. 
"Se a fmea do cachorro  uma cadela, por que os cachorros machos no so bastardos?"
"Talvez sejam", Vita rebateu. "Muitos filhotes nascem de cruzamentos clandestinos".
"O que significa que as cadelas tambm so bastardas", Penny afirmou.
"Como voc chamaria o cachorro que usa uma gargantilha de diamante?"
"Cadela real."
"Voc est tima", disse Vita. "Est parecendo uma punk amaznica".
"E voc", Penny completou, "uma ninfa diablica".
J transformadas, as duas cadelas gticas encheram o carrinho de compras com brinquedos mastigveis, biscoitos, cama acolchoada, guia e coleira (igual  que Penny 
tinha no pescoo) e um suter vermelho tamanho mdio (Natasha tinha dito que o vira-lata era grandinho).
Maquiadas e carregadas de caixas, bolsas e sapatos novos, as duas andaram (Penny tentando equilibrar-se nos saltos) at a praa de alimentao, passando ao longo 
do caminho por um Porsche Spider e pelo Lamborghini amarelo. As pessoas que estavam no shopping olhavam mais para elas que para os carros.
Na praa de alimentao, instalaram-se numa mesa da Risotto Hut.
"Voc gosta de ser notada?", Vita perguntou.
"Fico nervosa", admitiu Penny, dando de ombros.
"Pois eu vivo pra isso."
"Eu nem imaginava!"
"T vendo aquele cara ali?"
"Aquele?", perguntou Penny, apontando para um homem musculoso de aparncia intocvel, sentado no Panino Cart.
"Vou usar uma tcnica que aprendi na escola de teatro pra fazer com que ele me note", disse Vita. "Chama-se espelhamento. Vou imit-lo, Tudo que ele fizer. Seus 
tiques nervosos, seus movimentos de ombros, seus movimentos de mos. Mesmo distante de ns, o subconsciente dele captar meus sinais. Ele vai me achar familiar, 
vai pensar que j me conhece, mas no se lembrar de como, onde e quando me conheceu. Na verdade, o que ele reconhece  sua prpria linguagem corporal."
"Isso  besteira", Penny debochou.
"Olha s."
 medida que Vita agitava as mos e sem nenhuma razo virava a cabea aleatoriamente, Penny observava. Vita balanava as pernas, esticava o pescoo e (meu Deus) 
tocava as partes ntimas. Por incrvel que parea, o homem acabou notando e se voltou para elas. Estranhamente, Penny achou que ele era familiar.
"L vem ele", Vita cochichou. "Eu no disse?"
De fato, o bonito levantava-se e encaminhava-se para...
"Pega o telefone, disfara", Penny falou. " Morris Nova!"
"Ora, ora,  ele mesmo. Barbeado e de cabelo cortado."
Morris se aproximava com hesitao, forando os olhos. E Penny ento se deu conta: ele no as reconhecera. A maquiagem vulgar o deixara confuso.
"Oi, Morris", disse Penny.
Ela analisou a expresso dele ao reconhec-las. Confuso, cambaleou para trs. Ou ser que estava embaraado por v-la outra vez, depois de ter se precipitado tanto 
no dia anterior? Nada mais adequado, se fosse o caso.
Embora estivesse atordoado, ele j no podia recuar.
"Penny, voc est diferente", ele disse.
''Ainda quer que eu quebre a janela?", ela perguntou.
"Sobre isso...", ele comeou a falar.
"Deixa pra l", Penny o interrompeu. "Morris, ns sempre seremos bons amigos."
Vita escutava, mas graas a Deus no fez comentrios a respeito.
"E a, Morris, veio ao shopping pra variar um pouco?", ela perguntou.
"Eu tinha que matar o tempo at a hora da partida do meu trem", ele explicou, passando a mo no cabelo cortado.
"Seu corte de cabelo me deu vontade de beber", Vita falou, sorrindo para o ex-futuro padrinho de casamento.
"Ser um prazer te oferecer uma bebida", ele rebateu prontamente.
Uma hora mais tarde, aps ter degustado alguns itens da Risotto Hut e do Buffet Bellini, as trs ratazanas do shopping se empoleiraram nos banquinhos do Raw Sky 
Bar e encheram a cara.
"No e no, Morris. T tudo errado", disse Penny, que no tinha hbito de (1) beber, (2) criticar, (3) comer com as mos. " pra fazer assim."
Segurando uma ostra crua, Penny despejou duas gotas de Tabasco numa dose de vodca. Depois, deslizou a ostra para dentro do copo e bebeu o contedo de um gole s.
"Foi a Natasha que te ensinou?", Vita quis saber.
"Ela bebia vodca na mamadeira", Penny falou com voz arrastada.
"Ela pode matar um homem com um palito e um pote de pasta de amendoim."
''A pasta de amendoim devia ser um verdadeiro luxo na Rssia comunista", Morris comentou.
"Cala a boca e bebe", disse Penny do alto de sua coleira de cachorro e de suas unhas negras.
"No sei se gosto de voc desse jeito", Morris comentou enquanto deixava escorrer uma ostra para dentro do seu copo com maestria.
''Voc me prefere encurvada e passiva?", Penny perguntou, embriagada. "Ou s existia atrao porque eu estava comprometida com outro homem?"
"Antes voc no era to espalhafatosa", ele afirmou..
"Me diz uma coisa, Morris", Vita falou, "O que voc faz? E voc j fez o bastante?"
Penny soltou uma gargalhada do nada.
"Sou dramaturgo freelance."
"Dramaturgo freelance? Eu no sabia que isso existia." Vita sorriu. "Voc deve ter muito trabalho."
As bochechas de Morris se ruborizaram.
"Tenho trabalho suficiente. Fao parte da Craiglist e colaboro com quem precisa escrever discursos ou monlogos. J escrevi propostas de casamento para trs homens 
diferentes. E escrevo discursos para quem quer pedir aumento de salrio ou confessar seus casos para a esposa. Acabei de escrever uma pea de dois atos e estou  
cata de produtores."
"Eu pensava que voc vivia s custas de crdito", disse Penny.
"Crdito de crebro", ele resmungou.
"Em que consiste a pea?", Vita indagou com rapidez, interessada.
Para Penny, o sbito interesse da amiga por Morris no passou despercebido. Por mais sedutora que fosse, Vita era antes de tudo uma atriz. Os homens vm e vo (literalmente). 
Mas uma pea pode durar para sempre.
"O ttulo  Edina Spanky: Investigadora Particular."
"Particular?", Vita perguntou.
" uma investigadora sexual. Um detetive da libido. Ela descobre o que est errado na vida sexual dos clientes e os ajuda a corrigir os erros. Ao fazer isso, ela 
ajusta todos os problemas que eles tenham.  uma herona, uma sbia. Naturalmente, a vida sexual dela  uma merda."
''Aqueles que no conseguem transar... no transam", disse Vita, citando Raymond Chandler.
Morris olhou embasbacado para ela.
"Cito essa frase na minha pea."
"Voc  acha realmente que os problemas das pessoas podem ser explicados pela disfuno sexual?", Penny perguntou.
Ele assentiu com um gesto de cabea.
"Dependendo do que a pea pretende, por que no?"
"Edina Spanky vai fundo em cada mistrio sexual", Vita concluiu, chegando mais perto de Morris.
"Posso roubar essa frase?", ele disse.
Vita lhe deu um sorriso fatalmente doce, tal como Cherry Bomb.
"Talvez eu possa dar uma olhada no seu script", ela sugeriu. "Eu adoraria oferecer minha opinio profissional."
" uma pea", Morris afirmou.
"Melhor ainda", Vita replicou com brilho nos olhos.
Morris no fazia a menor idia do que podia tirar dali. Se Edina Spanky: Investigadora Partcular, estava chamando a ateno de Vita, a amiga dela poderia acabar 
com a pea e com ele. Penny sentia na garganta o gosto azedo da inveja. No de Morris, nem de Vita. Mas do roteiro, da matria-prima, do incio de algo que podia 
crescer e mudar e acrescentar. Ela ouvia os dois, excluda da conversa, relegada ao pano de fundo como uma boa moa do coro: linda, na periferia. Vista de relance.
Os olhos de Penny voltaram-se para os sapatos vermelhos. Talvez Bram no a tivesse abandonado no dia anterior se ela estivesse usando esses sapatos. Talvez a tivessem 
salvado, da mesma forma que as botinhas vermelhas de caubi a tinham salvado dezesseis anos atrs. Naquele dia ela e a me tinham ido ao shopping com uma misso. 
A entrada na Precious era para ser breve, uma parada rpida antes de chegarem ao verdadeiro alvo. Mas o grande plano foi deixado de lado quando ela foi raptada. 
Nunca mais pediu  me para tentarem outra vez. Trazer o assunto  baila poderia ser muito cruel para Esther.
Mas agora Esther no estava presente.
"Tenho que fazer uma coisa", Penny falou. Nervosa, apresentou o carto de crdito para o garom.
Vita e Morris se viraram para ela, ambos espantados com sua expresso determinada.
''Acho que os banheiros ficam  esquerda", disse Vita.
"Temos que sair daqui", Penny comunicou, gesticulando e se levantando. "Agora!"
Os trs pegaram as sacolas. A passos largos, Penny saiu do pavilho de alimentao, cruzou o eixo central do shopping e de l se dirigiu para o pavilho de acessrios. 
 medida que passavam apressados pelas lojas, Vita olhava para cada fachada e repetia:
"Sei que  por aqui... ah-ha! Achei!", ela disse em frente  Glimmer, a loja de todas as coisas cor-de-rosa, vermelhas, brilhantes, cintilantes. O paraso das pulseirinhas 
e pregadores de cabelo. Os trs olharam para o apelo resplandecente que vinha de dentro da Glimmer.
''Voc precisa tanto assim de uma agenda felpuda?", Vita perguntou.
''Vem comigo", Penny ordenou, arrastando a amiga para o interior da meca dos adolescentes. Morris as seguia com relutncia, como se sua entrada no covil das meninas 
pudesse fazer aflorar suas idiotices pberes.
"Depois de todos esses anos voc j deve ter notado que minhas  orelhas no so furadas", Penny disse para Vita.
No balco do fundo elas encontraram uma adolescente espinhenta com um diamante cravado no nariz e a cara enterrada na revista InStyle. Uma plaqueta presa  camiseta 
estampava o nome dela: DAWN D.
Fechando preguiosamente a revista e pegando a pistola de trabalho, Dawn perguntou:
"Quem vai primeiro?"
De repente, Penny sentiu o peso das ostras e da bebida. Dando um passo para trs, ela disse:
"Vou pensar um pouco mais."
"Posso fazer um outro furo na minha orelha s para te mostrar como  tranqilo", Vita falou.
"Faz na minha", disse Morris, dando um passo  frente.
"Voc vai fazer?"
"Caras de brincos ficam uns gatos", a adolescente comentou.
"Se isso vai te deixar feliz", Morris disse para Penny. " o mnimo que posso fazer por voc. Sabe, depois do que houve."
"O que houve?", Dawn quis saber.
"Ontem ela foi abandonada no altar. No Plaza, do outro lado da rua."
"Era voc?", a punturista perguntou.
Notcias ruins correm depressa em Nova Jersey.
"Era o meu antigo eu", Penny replicou.
Dawn embebeu os chumaos de algodo no lcool e se aproximou Morris.
"S uma orelha ou as duas?"
Morris olhou para Vita e Penny e perguntou:
"O que vocs acham?"
Em unssono, ambas responderam:
''As duas."
A adolescente acomodou Morris numa cadeira reclinvel de metal. Depois, com uma caneta, marcou pontos nos lbulos das orelhas dele.
"Definitivamente, dois furos. Um  para homossexual", ela dizia enquanto avaliava os pontos. ''Agora, paradinho. Um tiquinho de antissptico. Um belisco de nada, 
presso ... j foi uma."
"Deus do Cu!", Morris gritou, segurando o lbulo da orelha agora dotado de uma bola de ouro.
"Mais um convertido", Vita brincou.
Penny riu. Naquele momento amava Morris, que s furava a orelha para lhe dar apoio moral. E amava Vita, que lhe dava as mos.
"Uma beliscada, uma presso e... pronto", disse a garota. "Vai querer tambm no nariz?"
"No!", Morris e Vita gritaram.
Ele voltou-se para Vita, curioso pela veemncia dela.
"No costumo sair com homens com metal no rosto", ela disse.
"Voc sairia comigo?", ele quis saber, vendo seus projetos em relao a Penny desaparecerem nos olhos verdes de Vita.
Como resposta, Vita beijou os dois lbulos das orelhas dele. Morris saiu da cadeira, deslizando com charme. Penny assumiu seu lugar. Puxou os cabelos para trs para 
que a adolescente passasse lcool e marcasse os lbulos de suas orelhas com a caneta.
"Ok", Dawn falou enquanto carregava a pistola com um par de brincos de prata no formato de bolinhas. "E agora vamos ns."
 primeira espetada, Penny sentiu-se desfalecer. Respirou fundo, decidida a relaxar e no sentir medo. Quantas vezes ela contivera o medo? Lembrou-se daquele dia 
no shopping. Dos homens que lhe apontavam armas. Da histeria de Esther e de como se mantivera imvel como uma boneca nos braos da me.
''Agora, paradinha", disse a adolescente. "Nossa, ela est muito estranha."
"Vamos logo com isso", Vita falou, fechando os olhos junto com Penny.
"Uma beliscada, uma presso e..."
Penny soltou um grito. No um grito qualquer. Era como uma janela que batia com violncia, comprimindo o ar e causando uma exploso no ouvido, uma exploso que expelia 
o ar para fora de sua boca a uma velocidade supersnica. As pessoas que estavam no estacionamento olharam para cima. Os pssaros fugiram das rvores. Taas de cristais 
se quebraram a meio quilmetro de distncia. Penny gritava pela beliscada. Pela presso. Pela cabea do pai no fundo da fonte. Pelos dez minutos de terror que vivera 
ao ser levada por uma estranha. As pessoas se agruparam do lado de fora da loja para ver quem estava sendo torturado.
"Fura a outra", Vita gritou para a garota. "Rpido!"
Mais cinco segundos e tudo estava acabado. Dawn inclinou-se para trs, dizendo:
''Acabamos.''
Penny fechou a boca, e agora o silncio era um aspirador que sugava todos os rudos do shopping. O coro dos anjos, o som do elevador, o arrastar dos passos, o farfalhar 
das sacolas de compras, o tilintar das moedas na fonte.
Gemendo, Penny tocou os lbulos das orelhas. A adolescente segurou um espelho para que ela visse como tinha ficado. Os brincos estavam perfeitamente simtricos.
''Voc fez um timo trabalho", disse Penny, abrindo a carteira e dando uma nota de cem dlares para a garota.
"So dez dlares."
"Fique com o troco."
"E voc", disse Dawn, que era mais corajosa e sbia do que Penny pensara, "no se esquea de desatarraxar os brincos e limp-los com gua de hamamlis trs vezes 
ao dia durante um ms."
"Voc ouviu isso, Morris?", Penny perguntou.
"No ouo mais nada", ele disse. "Voc tem uma garganta de ouro, Penny."
Os trs saram da loja. Penny nunca se sentira to leve, to alta. Flutuava pelo pavilho.
"Eu no teria feito isso sem vocs dois", ela disse para os amigos. Caminharam em direo ao saguo e passaram pelo Lamborghini amarelo. "Quanta gente!", ela comentou.
"Voc est coberta de razo", Vita falou. ''Acho uma vergonha desperdiar isso. Diz a, Morris. O que Edina Spanky pensaria de uma mulher que adora trepar dentro 
de carros?"
Pensativo, ele segurou o queixo e disse:
''Acho que Edina pensa... o que voc est fazendo?"
Vita o agarrava pelo cinto e o puxava na direo do Lamborghini, que por sorte no era vigiado naquele momento. Ela abriu a porta do carro e empurrou Morris para 
o banco do passageiro. Depois, sentou-se no peito dele e fechou a porta.
Os vidros escuros das janelas garantiam a privacidade. Penny ficou de guarda. Quando o carro comeou a sacolejar, uma recepcionista do shopping vestida de amarelo 
(combinando com o carro) chegou apressada para investigar.
"Que diabo est havendo aqui?"
Do alto de sua formidvel estatura, Penny cruzou os braos e disse:
"Quando o Lamborghini balana, ningum avana."
"Vamos ver", disse a recepcionista enquanto sacava o walkie-talkie. "Segurana!"
A porta do passageiro se abriu. Vita saiu primeiro e depois, Morris.
"Essa foi rapidinha", disse Penny.
"Lamborghini, minha filha", Vita falou enquanto ajeitava a saia.
"Para ser honesta, at agora no sei se toquei uma punheta no cmbio ou no cara."
"No cmbio", disse Morris. "Mas ele adorou."
E eles correram (em ziguezague, serpenteando) at a sada do shopping. Penny sentia os ps estufados como berinjelas. As alas das sacolas cortavam seus dedos. A 
maquiagem canina lhe dava coceira nos olhos. Os buracos nas orelhas latejavam ritmadamente. Ela no se divertia assim h vrios meses. Quando finalmente se viram 
a salvo no estacionamento, Morris perguntou:
"Que tal uma dose de usque? Vamos at a cidade e depois pra minha casa. Mas no me julguem pela baguna. Eu no esperava visitas?".
''At que seria interessante", disse Vita, "mas por que no vamos para o meu quarto no hotel? Ainda no fechei a conta."
"Ser que vocs podem me deixar na minha casa?", disse Penny.
Ela queria mostrar os brincos para a me.















Captulo 16

"O QUE VOC FEZ"?, PERGUNTOU Esther, apontando atnita para a trouxa que Natasha segurava. Ambas estavam na cozinha da manso de Overlook Lane.
" um terrier moscovita miniatura.  macho, tem um ano de idade. S no abrigo de animais de Short Hares voc encontra uma raa to rara."
"Leva de volta!", Esther gritou, deixando bem claro a averso que tinha por cachorros, mesmo sendo pequenos, de pernas finas e orelhas de marciano mutante, como 
aquela coisa canina enrodilhada feito uma trouxa.
Natasha aninhou o filhote nos braos e pressionou o focinho dele contra o peito.
"Em Moscou, tnhamos um cachorrinho assim. Nikita. Seu lugar favorito era um enorme sof perto da fornalha da sala, que tambm servia de cama para os meus cinco 
irmos. Na minha casa viviam dezenove pessoas,"
"Enquanto em Short Hares uma mulher de meia-idade vive sozinha numa manso", Esther rebateu. "Correo: duas mulheres de meia-idade."
"Trinta e seis anos no  meia-idade", Natasha afirmou, corrigindo a  prpria idade. "Pois , o tio Vnya perdeu uma perna na Segunda Guerra; ele sofria do corao 
e ainda por cima tinha psorase. Costumava descascar a pele e jogar as cascas na fornalha. Um dia se sentou no sof sem olhar e esmagou o Nikita. Ele o matou. Ficamos 
com o sof e nos livramos do cachorro."
"No estou nem um pouco interessada em saber se o seu tio perdeu as pernas. E um brao. Voc no pode ficar com esse cachorro", Esther afirmou.
"Meu tio no perdeu brao nenhum!", protestou Natasha. "Ele foi atropelado por um nibus na praa Vermelha. O coitado teve que esperar quatro horas por uma ambulncia, 
e o brao dele gangrenou."
"Eu gosto muito dessas histrias coloridas da sua terra natal", Esther ironizou.
"Eu quero esse cachorro", Natasha declarou. "E a Penny tambrn quer."
"Como  que ela ia querer um cachorro que nunca viu?"
"Mas essa  a natureza do querer! As pessoas querem coisas que elas no conhecem", disse Natasha. "Pega ele. Olha s que carinha linda!" A russa estendeu o filhote 
para Esther, mas o fedor fez com que ela desse um passo para trs.
"Esse cachorro fede que nem carnia."
"Vou dar um banho nele", a russa falou enquanto se movia furtivamente na direo do seu quarto para dar banho e amor ao cachorro.
"Mas no vamos cham-lo de Nikita", Esther foi logo avisando. "Ele  castrado?"
"Se no for, pode deixar que eu mesma o castro", a voz de Natasha ecoou enquanto ela se afastava.
O fusquinha verde de Vita apareceu do lado de fora da janela. Instintivamente, Esther se escondeu atrs do balco. Ela odiava Vita desde o dia em que Penny a levara 
para casa na poca em que as duas estudavam na NYU. Vita era uma influncia negativa para Penny, com sua mania de caar homens e atuar em novelas idiotas. Os melhores 
atores atuam na Broadway, Esther pensava. E os outros tm que se contentar em atuar num canal a cabo. Alm disso, com que direito ela podia acus-la de barbeiragem 
no volante? No tinha esse direito mesmo se isso fosse verdade.
Uma sombra insinuou-se na cozinha. Era algum que entrava. Do seu esconderijo, Esther s conseguia enxergar um par de sapatos altos vermelhos que caminhava sobre 
os ladrilhos de terracota. Depois, teve a viso completa de uma mulher. Esther a observava de baixo para cima. Sapatos vulgares, jeans esfarrapados, sacolas de compras 
em mos com unhas pintadas de preto, camiseta apertada, coleira de cachorro no pescoo, batom preto, delineador e sombra pretos nos olhos, cabelo cheio de musse.
Olhou mais uma vez. Por mais incrvel que fosse, era sua prpria filha.
"Oi, me", Penny falou. "Perdeu alguma coisa?"
"J achei", ela disse enquanto se levantava.
"Furei as orelhas. Voc tem gua de hamamlis? Imagine s, Vita fez sexo num carro. Ah, eu me fartei com seu carto."
"Foi a moa do balco da Chanel que fez isso?", Esther quis saber, referindo-se  maquiagem vulgar de Penny.
"Eu mesma me pintei", ela respondeu toda orgulhosa.
"Voc est horrorosa", Esther rebateu. "V se sobe e lava o rosto."
"Como  que voc pde deixar uma criana de sete anos vagando pelo Short Hares Mall? Por que voc no ficou me vigiando?", Penny inquiriu.
Como Esther no respondesse (ela perdeu a respirao s de ouvir a mera meno daquele dia medonho), Penny completou:
"Nunca tocamas nesse assunto. Parece que voc acha que nada aconteceu ou que no me lembro. Mas lembro. Claramente. Voc  estava pechinchando na Precious. Fiquei 
entediada e sa da loja. E depois a mulher me agarrou pelo brao e me levou para o banheiro."
Se fosse possvel, certamente o queixo de Esther se soltaria da boca e rolaria pelo cho. Ela estava chocada e ferida pela acusao de Penny. E tambm pela culpa. 
Quando finalmente recuperou o flego, ela conseguiu dizer:
"Eu no estava pechinchando".
"Ento, o que  que voc estava fazendo?"
"Estava tentando vender um casaco do Valentino", Esther respondeu.
"O vendedor me ofereceu um quarto do que valia, e eu no podia vend-lo por menos da metade."
"Voc estava vendendo suas roupas? Por que faria isso?", perguntou Penny, incrdula. Pelo que sabia, Esther s acumulava. Juntava qualquer coisa - um hbito que 
adquirira quando comeara a luta pelo divrcio.
Russell deixou Esther  mngua desde que sara de casa com Jemima, a bab. Fechou as contas conjuntas, cancelou os cartes de crdito. Mas continuou pagando a hipoteca 
e as contas do Kings, o supermercado. Esther ficou ento por sua prpria conta, com uma criana de trs anos de idade. Como Penny ainda no freqentava a pr-escola 
e Esther no tinha dinheiro para pagar uma bab, obviamente no podia procurar emprego.
A estratgia de Russell era arruin-la completamente, para que ela logo concordasse com os termos dele para o acordo judicial. Mas Esther agentou firme, vendendo 
algumas jias para comprar roupas e livros para Penny e para pagar as contas do telefone. Passados quatro anos, Russell se cansou de esperar pelo fracasso total 
de Esther. Anunciou (por meio do seu advogado) que no pagaria mais as contas do Kings. Russell pretendia matar Esther (e tambm sua prpria filha) de fome para 
que ela assinasse os papis. Ela recebeu essa notcia quando saa de casa a caminho do shopping, onde mandaria furar as orelhas de Penny e lhe daria os brincos que 
ela tanto ansiava. Como no havia mais jias para vender, ela tirou do armrio alguns casacos de estilistas famosos.
"Eu precisava de dinheiro", ela se justificou.
"Voc estava to preocupada em faturar umas poucas centenas de dlares que me deixou escapulir", Penny argumentou.
Esther j tinha vivido esse dilema. Devia conversar com Penny sobre a crueldade do pai ou seria melhor deix-la acreditar que ele era um homem decente, apesar de 
fraco? Ela morria de vontade de contar para Penny que muitas vezes fora ameaada por ele com uma faca. Mas tambm queria proteger a filha da verdade sobre as guas 
turvas que havia em sua piscina gentica. O que ela mais queria era apagar todo aquele perodo, mas mantivera-o intacto na memria, aguardando com terror e ansiedade 
o dia em que teria que compartilh-lo com Penny.
Ela se perguntava: ser que enfim havia chegado o momento? Suas costelas pareciam estar comprimidas, partidas, como se os seus segredos se espremessem para fora 
do corpo.
"No sei por que tudo isso est de volta agora", Esther explodiu.
"Para mim, Bram  o grande culpado. A tenso entre ns comeou no dia em que voc o conheceu. E a tenso continua at mesmo agora que ele..."
"Ele o qu?", Penny perguntou.
"Se foi", Esther respondeu. "Bram se foi, sumiu, escafedeu-se. Que bons ventos o levem; ele  o nico de quem voc devia ter raiva. Nunca fiz nada para mago-la. 
Eu a protegi de milhares de sofrimentos. E aquela tarde, pode acreditar, me partiu o corao. Eu me senti cortada ao meio. Na manh seguinte acordei diferente. Eu 
estava lutando pela nossa vida, Penny. Da missa, voc no sabe a metade."
Penny olhava embasbacada para Esther, e sua boca formava um crculo perfeito. Com a luz da cozinha, seus novos brincos cintilavam. Mesmo no auge da raiva pela filha 
ingrata, Esther esperava do fundo do corao que Penny no tivesse sofrido muito ao furar as orelhas.
''A verdade  que eu estava pensando em vender meu anel", disse Penny, girando-o no dedo. "Ou devolv-lo ao Bram."
"Oh", disse Esther.
"Mas no posso. No agora. Com o anel eu me sinto perto dele. E nesta casa tambm me sinto perto dele. No consigo explicar a razo, j que nunca passvamos muito 
tempo aqui." 
A conversa foi interrompida por um tamborilar de ps peludos seguido pelo rudo caracterstico de sapatos plataforma.
"Voc o encontrou!", disse Penny. Com o rosto iluminado, ela saiu apressada da cozinha rumo ao objeto de sua comoo. Esther aproveitou a ocasio para se acalmar. 
Depois seguiu a filha pelo saguo de entrada, a tempo de ver o cachorrinho correr desajeitado pelo cho e escorregar com as patas molhadas at colidir contra a parede 
de caixas de presentes e derrubar uma delas, que na queda emitiu um barulho de coisa quebrada.
"Travessa de cermica", Esther conjeturou.
Natasha pegou a caixa e balanou-a.
''Aposto dez dlares que so castiais de cristal."
"Fechado", disse Esther.
''Ah, ha!", Natasha exultou quando os castiais apareceram.
"De qualquer forma, voc no me pagaria se fosse eu que ganhasse", Esther comentou.
''Al, amiguinho", Penny agarrou o cachorrinho ainda trmulo e com resqucios de espuma. "Ele ainda est molhado, mas acho que deve pesar uns dois quilos."
"Ele estava l fora, numa armadilha", Natasha mentiu.
"Uma ratoeira?", Esther falou baixinho.
"Voc tinha dito que ele era de tamanho mdio", Penny comentou enquanto o animal lambia seu rosto (o que fez Esther agradecer por ele estar limpando um pouco daquela 
maquiagem horrorosa).
"Pequeno, mdio, isso no faz diferena", Natasha replicou.
"Este cachorro comeu trs frangos assados?", Penny quis saber.
"Ele  quase do tamanho de uma baqueta de bateria!"
"E faz um cocozo", disse Natasha, mostrando um saquinho plstico como se fosse necessrio confirmar a informao.
"Voc pretende premiar isso?", Esther resmungou.
"O coc  para o veterinrio", Natasha objetou. "Para checar os vermes."
Cerrando os olhos (mas visualizando anis de vermes por tudo quanto  canto), Esther anunciou:
"Odeio esse cachorro".
"Eu gosto dele", disse Penny enquanto o segurava no ar e rodava com ele. "Quero que fique comigo para sempre.  tudo que eu sempre quis e esperei... ai, meu Deus, 
eu preciso sentar."
Natasha esticou as narinas.
"Voc est bbada", ela falou para Penny. "Bebeu vodca com ostras!". Suas narinas se dilataram outra vez. "Sete doses."
Esther se questionava sobre a possibilidade de estar perdendo o olfato; no detectara um s tomo de lcool no ar. A bebedeira explicava a exploso de Penny na cozinha, 
o andar cambaleante e o sentimentalismo quando ela pegara o frgil terrier.
Agora o co tinha que ficar.
"Que nome vamos dar a ele?", ela perguntou.
"Nikita", Natasha sugeriu.
"De jeito nenhum."
"Que tal Snuggles?", Natasha replicou.
"Bram!", Penny gritou.
"Onde?" disse Esther, virando-se para olhar o alto da escada.
"Eu quero dizer  que devemos chamar o cachorro de Bram."
Esther ps a mo no corao, que palpitava fortemente contra a blusa. Conjeturava se conseguiria agentar um outro susto como aquele.
"Que tal Boris?", ela sugeriu.
"Eu gosto de Boris", disse Natasha.
''Al, Boris", Penny falou, esfregando o nariz no focinho do co.












Captulo 17

"QUE QUANTIDADE DE CAMARO um homem consegue comer?" A bandeja estava to cheia que arqueava sob o peso de cinqenta camares, uma tina de molho de coquetel, quarenta 
metades de batatas,
um salmo inteiro, um litro de San Pellegrino e a parte superior do bolo de noiva.
Bram franziu o cenho quando viu os talhares de plstico. Queria trocar os talheres de ao inoxidvel. A faca e o garfo com que havia trabalhado estavam amassados 
e tortos. Fizera um bom uso deles, desmontando as estantes. Fora obrigado a trabalhar freneticamente no escuro, com medo de ser flagrado. Mas as horas da manh se 
passaram sem que nenhuma visita aparecesse, de modo que ele pde diminuir o ritmo e se concentrar, aproveitando cada minuto.
As estantes tinham sido repostas no lugar mais ou menos uma hora antes. Ele acabou cochilando no sof, e acordou com a viso da comida perto da porta.
"Tem algum a?", ele chamou, achando que podia haver algum do outro lado do espelho.
No obteve resposta. A senhora Bracket e sua capanga eslava no tinham se preocupado em falar com ele durante o dia todo. O confinamento solitrio comeava a pesar. 
Fazia dois dias que no se comunicava com outro ser humano. Bram encontrava-se completamente sozinho.
Tome cuidado com seus desejos, disse para si mesmo, ainda na expectativa de alguma resposta.
Nenhum retorno; s silncio.
Bram ps a travessa sobre a mesa. Puxou a cadeirinha e ajeitou as pernas para comer. A refeio estava maravilhosa, e ele exagerava nas garfadas. Mesmo que se engasgasse 
com um camaro, ningum chegaria apressado para socorr-lo. Podia ter um ataque cardaco. Podia sofrer um derrame. Afinal, quem  que sabia que tipo de cogulo poderia 
se formar sob o ovo de ganso que tinha na cabea? Podia ter uma hemorragia.
Ele enfiou uma fatia de salmo na boca. As pessoas comem demais por tdio. Comem demais porque esto solitrias. Porque no so amadas e no h ningum para det-las. 
Os que se amam sempre tm o outro para controlar o tamanho de seus quadris.
Penny tinha pernas longas e fortes, e gostava de dobr-las e comprimi-las contra o peito. Sua bunda empinada e redonda era to firme que nela se podia ricochetear 
uma moeda. Ele se lembrou de Penny reclinada em sua cama, no apartamento da Sullivan Street, com as pernas ligeiramente abertas deixando entrever a sombra que havia 
entre elas.
Bram levou a travessa de volta  porta e se deitou no sof com as pernas pendendo para fora. Depois, desabotoou as calas, ps o antebrao sobre os olhos e percebeu 
surpreso que estava a ponto de chorar.
Levantou-se de um salto, dizendo:
"Que loucura! Me deixem sair daqui!
Movendo-se furtivamente do jeito que sua barriga estufada permitia, ele retornou para as estantes  procura de algum brinquedo ou utenslio que pudesse utilizar 
para forar a fechadura, sem ter a menor noo de como se fazia isso. Olhou de relance a sua imagem refletida no espelho de duas faces. Apalpou o estmago. J tinha 
engordado. Ele teria que sair rolando do quarto, isso se conseguisse passar pela porta.
Bram precisava urgentemente de uma distrao. Ao pesquisar a seleo de vdeos, s encontrou os clssicos que estimulavam a imaginao das garotinhas. A Bela Adormecida. 
Cinderela. Branca de Neve. Histrias de princesas aprisionadas e libertadas pela fora do amor. Penny crescera com aquela baboseira toda. O crebro dela absorvera 
os contos de fadas. Mas ele no era o prncipe de Penny, e sim o homem que transava com ela. E se perguntava se haveria algum que pudesse satisfaz-la ou que soubesse 
como faz-la feliz.
Bram cerrou os olhos e apertou o nariz, concluindo que devia parar com esses pensamentos depressivos. Pegou o vdeo Cinderela e o colocou no VCR. Depois, segurou 
o prato de bolo e acomodou-se no sof para comer a sobremesa e assistir ao filme. Dez minutos depois, ele estava impressionado com a pobre rf.
"Cinderela  corajosa", disse para si mesmo.
"Estou feliz por ver que voc est to confortvel", ecoou a voz dos alto-falantes.
Ele levou um susto e derrubou o bolo no colo.
"Vai pro inferno", disse enquanto limpava o jeans.
"Est bem", ela falou, e desligou os alto-falantes.
"Espera!" Ele estava louco por uma conversa.
Nada.
"Eu queria saber se a Penny est bem", ele insistiu.
"Est tima", respondeu a voz. "Est feliz. Aliviada. Voc fez um favor quando fugiu, e agora ela est comeando uma nova vida sem voc."
"O que voc quer dizer?", ele perguntou. Penny j estava saindo com outro homem? Ele comeou a passar mal; o camaro e o salmo travavam uma luta em seu estmago. 
O rosto de Morris Nova surgiu em sua mente. Seu amigo sempre tivera uma queda por Penny. Ser que j tinha atacado? Ser que Penny tinha aceitado a cantada?
"O que digo  que ela est seguindo em frente", disse a voz. "Preste ateno. Vou sair para jantar. E enquanto estiver fora eu gostaria que voc acabasse de subscrever 
os envelopes."
"Preciso ter notcias de Penny", ele disse levantando-se e deixando cair migalhas de bolo no cho. "Onde ela est? Algum est cuidando dela?" Algum que no seja 
voc, sua manaca desalmada, ele pensou, mas no disse.
"Ela voltou para Nova York", a voz respondeu. "Posso garantir que tem toda a assistncia que precisa."
Bram sentiu um n na garganta. Comeou a tossir sem parar. Espasmos violentos tomavam-lhe todo o peito. "Socorro!", ele mal conseguia gritar. "Me ajude! Estou doente! 
Preciso de um mdico" Sufoco, escarro, contoro. ''Voc no pode me deixar morrer aqui!", Bram apoiava uma das mos no peito e estendia a outra em desespero, com 
os dedos rgidos.
Esther soltou uma risada.
"Bela tentativa", ela falou. "E trate de comer tudo. Voc ainda tem cento e cinqenta refeies para engolir."
Bram suspirou. Voltou a sentar no sof, temporariamente derrotado.
"Voc est pronto para admitir que bateu na minha filha?"
"No foi isso que aconteceu", ele afirmou.
"Foi o qu, ento?"
Ele cerrou os lbios.
"Estou saindo", ela disse. "Se voc notar um gs verde txico passando pelos respiradores, ignore."
"Uma outra coisa", ele disse.
"Fale rpido", ela rebateu.
"Se fosse possvel voltar atrs, eu casaria com ela." 
"Grande coisa", ela falou. "Seu cabeo de merda."
Ela desligou o sistema dos alto-falantes.
Ele estava sozinho outra vez. Esther tinha dito que ia sair. Penny tinha voltado para a cidade. E provavelmente a russa se trancara no quarto, bebendo vodca. Ele 
podia tentar escapar nessa noite, mas correria um risco desnecessrio. A melhor ocasio seria na manh de domingo.
Bram comeou a imaginar como seria o resgate dele. Um arete contra a porta da frente. E uma equipe da SWAT irromperia casa adentro.
Na hora certa, ele pensou. Tinha que ser paciente, tinha que esperar a hora certa. Sua ateno se voltou outra vez para Cinderela. O filme estava naquela cena em 
que as irms postias de Cinderela rasgam o seu vestido de baile.
Em outro contexto essa cena seria quente, falou consigo mesmo, lambendo o glac do prato.



































Captulo 18

SEIS HORAS DA TARDE. DA AMURADA da escada do segundo andar, Penny assistia  conversa entre sua me e Keith.
"Espero que voc no se incomode em sair para jantarmos", Esther falou, ao mesmo tempo em que abria a porta para ele. "No quero nada do menu desse casamento."
"Voc melhorou?", disse Keith, elegantemente vestido. ''A soneca ajudou?"
"Estou tima, muito obrigada."
"Onde est Penny?", ele quis saber. "No vem?"
"Ela est... cansada e emotiva."
Keith sorriu e disse:
" assim que o ingls descreve quem bebeu em excesso."
"Penny no bebe", Esther replicou energicamente. "S est cansada e emotiva por causa de tudo o que aconteceu."
Penny franziu o cenho. A verdade  que estivera bbada. Estava bbada antes da ressaca. Sua me sempre fora exaltada. Por que no conseguia relaxar? Penny passara 
metade da infncia tentando acalm-la em suas irritaes por qualquer coisinha como compromissos esquecidos, bilhetes da professora, torneiras que pingavam.
o rosto furioso de Esther fez Keith sorrir, mas sem indulgncia.
"Talvez voc tambm esteja cansada e emotiva", ele falou.
" claro que estou!", ela rebateu.
"Ento, tenho que arrumar alguma coisa interessante para fazemos."
Ele segurou o brao de Esther (pelo que Penny se lembrava, era a primeira vez que via um homem tocando em sua me) e levou-a para fora da casa.
Enfim Penny e Boris, seu novo amor, estavam sozinhos.
"Esta noite  s nossa, Boris", ela disse baixinho na orelha esquisita do co.
Ela o segurava como se tivesse um beb nos braos.
"Pelo que entendo de ces, vou lhe dar comida e voc vai gostar de mim para sempre, e me olhar com esses olhinhos carinhosos por toda a vida."
Muitas vezes os homens so comparados com os cachorros. Penny j tinha visto um monte de livros de auto-ajuda com ttulos como Homens: Manual de Adestramento ou: 
Como Adestrar Seu Homem. No ano anterior lera um romance cujo primeiro pargrafo dizia: "Peg Silver era capaz de fazer o homem se aproximar dela, mas era incapaz 
de faz-lo ficar".
Penny acarinhou o focinho triangular de Boris e concluiu que a comparao entre homens e ces no era correta.
" um insulto para os ces", disse para Boris, que parecia sorrir.
Levou-o para o quarto dela. Seu apartamento de Nova York cabia todinho dentro de seu quarto de Nova Jersey. Quando criana ela o chamava de "salo de baile" por 
causa das cortinas que pendiam do alto das paredes, fazendo-a lembrar-se dos filmes de princesas. Por volta dos quinze anos de idade ela se deu conta de que podia 
confundir as pessoas se chamasse o quarto de "salo de baile". Afinal, nunca havia danado com ningum nem ali nem em qualquer outro lugar da casa. Seus romances 
sempre aconteciam do lado de fora, nos arredores da piscina ou sobre cobertas no campo. Ela e Bram jamais tinham passado uma noite naquele quarto. Ele no quisera. 
Disse que morria de medo de Esther, de que ela o visse enquanto dormia.
A poltica de proibio do prazer no se aplicava apenas ao quarto de Penny. A casa inteira era uma manso assexuada, um palcio de abstinncia.
E mesmo assim quero me mudar pra c, ela disse a si mesma. 
Penny removeu a maquiagem gtica, tirou o jeans e a camiseta e vestiu um conjunto confortvel de moletom. Talvez para uma soneca. Deitou-se ento em sua cama king-size 
com cabeceira acolchoada, onde um dia (no passado distante ou seria mera imaginao?) fora chamada pelo pai de "minha princesinha". Boris brincava sobre a colcha, 
cheirando-a e dando cambalhotas em crculos. Ela queria que ele se aquietasse e deitasse. At que ele se aninhou na colcha. Penny estava cansada e emotiva. Cansada, 
principalmente. Mas no conseguia dormir. Boris pulava em cima dela e mastigava seus cabelos e sua camiseta. Lambia seu rosto e arfava em seu ouvido.
"Voc  mesmo um cachorrinho hiperativo. At parece que sofre de transtorno de dficit de ateno", ela falou. Ele olhava fixamente para Penny com seus grandes olhos 
molhados, e abanava o rabo, e ficava  espera, e observava e pedia brincadeiras e afagos. Era enervante ser encarada daquela maneira. E quanto de carinho aquela 
criatura precisava?
"Ser que voc quer sair?", disse Penny. Boris saltou imediatamente da cama e arranhou o cho. Penny saiu da cama de chinelos, resmungando. Depois, abriu a porta 
do quarto - Boris tinha tentado empurr-la com o prprio corpo - e seguiu na direo da escada; com ele correndo  frente. Mas em vez de descer, o filhote deu uma 
guinada brusca para a esquerda e subiu desembalado at o terceiro andar.
"No, Boris. Vem aqui. Vem!", Penny ordenava.
Exatamente nesse instante, fez-se um claro em sua memria: ela e Bram na cama dele; ele por cima dela, sussurrando em ouvido: ''Vem, vem".
Penny engoliu em seco e varreu a imagem da mente. No devia pensar em Bram, E, definitivamente, no devia pensar em sexo.
Da escada, ela chamou outra vez pelo cachorrinho.
"Desa j da!" Boris latiu de volta. E continuou latindo forte, um latido incompatvel com seu tamanho.
Ele farejava alguma coisa no tico, talvez esquilos ou um guaxinim. Olhando para a escurido do terceiro andar, Penny no acreditava no que estava acontecendo. Naquela 
hora devia estar em sua lua-de-mel, e no caando um filhote desvairado.
Talvez Boris comesse os esquilos. Ou ento os esquilos o comeriam. Um esquilo grande de Short Hares chegava a ser maior que Boris. Penny comeou a subir a escada. 
Boris continuava latindo e rosnando.
Devia haver alguma coisa por l. Talvez maior que um guaxinim. De repente, Penny comeou a sentir frio - tremores e arrepios na espinha. Ela se deteve. Se houvesse 
algum guaxinim ou marmota por ali, seria mais apropriado usar jeans, botas e casaco. Seria mais prudente. Podia ser um animal hidrfobo. E ela devia primar pela 
segurana.
Natasha deve saber o que fazer,  Penny pensou.
Deu meia-volta e desceu voando pela escada.
Mas estancou no meio do caminho.
Foda-se a segurana, ela disse para si mesma.
Tomou de novo a direo do terceiro andar. Ela mesma teria que encarar a criatura. Por mais que fosse grande e hidrfoba.





Captulo 19

"PARA ONDE ESTAMOS INDO?", perguntou Esther, no banco do passageiro do carro de Keith.
Fazia pelo menos uma hora que rumavam ao sul da Garden State Parkway. Keith estivera o tempo todo taciturno, sem matar o tempo com conversa fiada. Esther gostava 
disso. Os homens tagarelas lhe faziam lembrar-se de Russell (tambm conhecido como mentiroso). Ele era capaz de falar durante vinte minutos a respeito de qualquer 
coisa, sabia tudo de tudo. Quando se conheceram, Esther tinha apenas vinte anos e se deixava impressionar com facilidade, de modo que Russell lhe pareceu o cara 
mais inteligente que j vira.
Houve um tempo em que ela gostava de ouvir os discursos dele. E naquele tempo Russell no era to tagarela.
"Para o mar", disse Keith.
Lua cheia. Brisa de vero na calada. Bater de ondas na praia vazia,  noite. Andar descalo na areia com sapatos nas mos. Tudo indicava uma aventura romntica. 
Esther no vivia um romance desde os vinte anos.
''Voc planejou isso?", ela disse.
"Foi de estalo". Ele tirou os olhos da estrada com rapidez e sorriu para ela. "Quando soube que Penny no vinha."
Afastada do vivo charmoso que estava ao seu lado, Esther olhava pela janela. O brilho das luzes dos carros que passavam a deixava hipnotizada. A cada quilmetro 
que percorriam ao afastar-se de Short Hares ela se sentia mais livre, mais leve. Mais jovem.
"Achei que seria bom dar uma volta de carro", ele argumentou.
"Isso  a cara de Nova Jersey", ela falou. "Ns adoramos carros. Voc j reparou que na abertura de [A Famlia Soprano, Tony aparece em seu Range Rover? Isso diz 
tudo."
Ele assentiu com a cabea.
"Ento, vamos  praia?", perguntou.
" claro", ela respondeu. "Estou sempre aberta para anis de lula empanados." A ltima vez que tinha ido ao litoral (em NJ ningum dizia "vamos  praia") fora em 
sua lua-de-mel improvisada, em Atlantic City. Ela e Russell tinham se hospedado na sute Maharaja do Taj Mahal Casino. Nesse lugar e nessa ocasio perdera a virgindade.
"H muito tempo que no vou ao litoral."
"Bom saber disso", ele comentou, mostrando-se satisfeito.
''Voc gosta de anis de lula empanados?"
"Gosto mesmo  de espontaneidade", ele disse. "Como a sua. Eu sabia que voc gostaria de dar uma volta de carro."
Keith a achava espontnea? Esther no se preocupou em corrigi-lo. Ele que pensasse o que quisesse. Afinal, estava no carro dele.
"Desde que minha mulher morreu,  a primeira vez que tomo caf-da-manh e janto com uma mulher, tudo no mesmo dia", ele disse.
''A verdadeira proeza seria jantar e depois tomar o caf-da-manh", ela replicou. "E isso no vai acontecer."
Keith balanou a cabea.
"Eu disse que voc  espontnea e no fcil."
"Definitivamente, no sou fcil", Esther concordou.
Ele sorriu. Ele que  fcil, ela pensou.
"Alice, minha esposa, no era impulsiva nem fcil. Refletia muito antes de fazer qualquer coisa. Antes de fazer reserva em um restaurante, ela estudava o menu; antes 
de assistir a qualquer filme, tinha que ler pelo menos dez crticas; antes de se deitar, guardava as roupas. Antes de se decidir por uma viagem, estudava os guias 
tursticos durante um ano. Quando nos conhecemos, adorei essa meticulosidade. Eu tambm era um pouco espontneo demais naquela poca, se  que voc me entende."
"Nem desconfio", disse Esther com cara-de-pau.
Ele sorriu com os olhos fixos na estrada.
"Eu confiava no julgamento dela. Se ela optava por um restaurante, era sempre o melhor e o mais limpo. Se fosse um filme, era o mais inteligente e engraado. Um 
resort, o mais em conta e confortvel. Alice tomava conta de tudo e me deixava livre para cuidar dos negcios. Era uma mulher adorvel e afetuosa, mesmo com sua 
compulso de planejar tudo com antecedncia. Sinto at vergonha em dizer, mas quando o oncologista falou que o cncer dela estava muito adiantado, tive vontade de 
rir."
"Eu achava que ela tinha sofrido um ataque cardaco", Esther falou.
"E sofreu", ele afirmou. "O corao enfraqueceu com os meses de quimioterapia. Ainda estava se tratando quando morreu. Foi um caso tpico daquele ditado: 'se no 
morrer da doena, morrer da cura'."
" engraado como aquilo que  primeira vista nos atrai em algumas pessoas  justamente o que acabamos odiando com o passar do tempo", Esther comentou.
Ambos olhavam fixo para o pra-brisa.  frente, nada mais que uma estrada negra e cheia de curvas.
"Nunca falei que odiava alguma coisa em Alice. Amei minha mulher at o seu ltimo suspiro."
Esther dissera a coisa errada. E se lamentava por dentro. A inexperincia que tinha com os homens tornava-se gritantemente bvia. Mas que importncia isso tinha? 
Seu objetivo se resumia em afastar aquele homem. Keith Shiraz no era s um sujeito de peito largo com feromnios poderosos. Era o pai de seu inimigo. Por conseqncia, 
tambm era seu inimigo, por mais que a presena fsica dele mexesse com ela.
De repente, Esther sentiu claustrofobia dentro do carro e pediu:
"Pega a sada. Ali, logo  direita. Por favor!"
Ela agarrou o volante e o puxou para a direita. Keith deu uma guinada, atravessou duas faixas e saiu da estrada. Fizeram o contorno e desceram pela rampa at parar 
com um solavanco no sinal vermelho l embaixo.
"Em frente", disse Esther, apontando para uma construo rstica que exibia uma enorme lagosta no telhado. O nome do restaurante piscava em non na vidraa: ABRUZZI'S.
Keith estacionou o carro. Esther abriu a porta e saiu. A brisa salgada do mar era um alvio. Agradecida, inalou sal e areia, a essncia slida de Nova Jersey. No 
fora  toa que eles tinham parado em Sea Grit, cidade litornea cujo nome quer dizer Mar Slido.
"Qual  seu problema?", perguntou Keith batendo a porta do carro e aproximando-se dela com o rosto rubro.
"Eu queria beber", ela disse, entrando no restaurante.
Era um lugar escuro e frio; a nica claridade vinha de sete ou oito luminosos de marcas de cerveja: Budweiser, Miller, Pabst, Heineken. Esther sentou-se no balco 
e acenou para o bartender, um rapaz
na casa dos vinte anos, de cala jeans desbotada e rasgada nos joelhos e camiseta branca com o logotipo dos Rolling Stones. A manga esquerda fora arrancada, e a 
direita, enrolada, prendia um mao de Marlboro. Seu cabelo era castanho, comprido, farto na parte de trs e curto e encorpado na parte superior da cabea. No bolso 
traseiro dos jeans, uma carteira estufada presa a uma corrente. No outro bolso, um prendedor de cabelo de metal.
"Um copo d'gua, por favor", disse Esther.
"S gua?", perguntou o bartender.
"S gua. Muito obrigada."
"Mineral ou da torneira?"
''Alis'', ela refletiu um pouco, "pode ser um martni duplo com duas azeitonas", e cochichou para Keith, que se sentava ao seu lado: "O lcool deve matar os germes 
do copo".
"Traz o mesmo pra mim", disse Keith.
O rapaz anotou o pedido e trouxe as bebidas. Esther tomou um gole.
" o pior martni que j bebi na vida."
"Pavoroso", Keith concordou ao experimentar o dele.
"Dez dlares cada. Dinheiro vivo", disse o rapaz.
Eles beberam.
"Lamento pela sua esposa. No era minha inteno fazer comentrios sobre o seu casamento", disse Esther.
"Fiquei na defensiva", Keith falou. ''Alm disso, tenho quase certeza que voc se referia ao seu prprio casamento."
Ela assentiu com um gesto de cabea.
"Foi um casamento curto e j faz muito tempo", ela disse com displicncia, tentando mudar de assunto.
"No entendo por que voc no se casou de novo. Aposto que foi bastante assediada pelos homens. Afinal, ficou solteira muito nova. Vinte e poucos anos, no ?"
"Eu tinha vinte e cinco anos quando ele... quando nos separamos. Estava com trinta quando ele morreu. E o assdio no foi tanto assim." Muitos candidatos potenciais 
se mantiveram  distncia devido a uma suspeita - fortalecida pelas fofocas - de que ela poderia estar envolvida na morte de Russell, j que ele morrera uma hora 
antes de o divrcio ser assinado - o que fizera dela uma mulher muito rica.
Esther no gostava de ser vista como assassina, mas por outro lado agradecia por ter sido deixada em paz. Depois de tudo o que passara, ela no podia confiar em 
ningum, sobretudo considerando-se o seu novo e obsceno status de viva milionria. Ela se colocara na mira dos caa-dotes. Durante todos aqueles anos, qualquer 
homem, caa-dote ou no, que demonstrasse interesse era logo rechaado por Ashley Longmead. "Eu .no quis e ainda no quero me casar de novo", ela afirmou. "Tenho 
uma filha para proteger."
"Voc fez um timo trabalho com Penny", Keith retrucou. "Ela  uma mulher maravilhosa." Ele enfatizou a palavra "mulher", dando a entender que Penny j era bem grandinha 
para ser cuidada pela me.
"Ela  to ingnua quanto eu na idade dela", Esther rebateu com rapidez. "E olha que cometi grandes erros."
"Onde estavam as pessoas que poderiam ajud-la? Onde estava sua famlia?", ele quis saber.
"Meus pais vivem em Columbus", ela respondeu. "Quando casei com Russell; uma semana depois de nos termos conhecido, cortaram relaes comigo."
"E por que fizeram isso?"
Eles o haviam detestado de cara. Russell tinha vinte anos a mais que Esther. E era astuto como uma lontra. Mas o verdadeiro motivo dessa rejeio...
"Ele era judeu", ela disse.
Em vez de se sentir ofendido (Keith tambm era judeu), ele riu.
Depois, balanou a cabea em sinal de descrdito, comentando:
"Ento, voc no  um membro da tribo. Eu estava em dvida; Esther  um nome judeu clssico."
"Diz isso para os meus pais catlicos", ela falou. "Russell fazia questo que Penny fosse educada na tradio judaica, e para mim tanto fazia. Nunca disse  filha 
que no sou judia. Quando Penny era pequena eu no queria confundi-la E agora no vejo que diferena isso faria. Gostaria muito que voc no contasse para ela".
Keith se mostrou surpreso com as palavras de Esther. Olhou-a de modo estranho, triste, como se quisesse perguntar o que mais Penny desconhecia sobre sua me, sua 
identidade e sua infncia. Ou sobre qualquer outra coisa de Esther que ele no sabia ou no imaginava.
Sentindo-se desconfortvel com a conversa, Esther esvaziou o copo. Jamais comentara com ningum - exceto com Natasha - sobre Russell ou sobre o assunto que se negara 
a revelar para Penny. Embora Ashley fosse amiga dela, no era totalmente confivel.
"Com licena", disse Keith, dirigindo-se depois ao rapaz: "O banheiro masculino?"
Enquanto Keith caminhava at o banheiro, Esther desfrutava um pouco mais o traseiro dele. Como tudo nele, sua bunda era slida, masculina. As mos de Esther eram 
grandes para o padro feminino, e naquele instante ela as imaginava cravadas naquelas ndegas.
A porta do restaurante se abriu e o odor de ar salgado varreu seus pensamentos. Entraram dois sujeitos. Era bem possvel que fossem irmos do bartender. O mesmo 
estilo praiano, o mesmo corte de cabelo, os mesmos jeans, a mesma camiseta apertada e os mesmos tnis de basquete. Debruaram-se no balco, cumprimentaram o rapaz 
atrs dele e pediram uma rodada de cerveja Budweiser. Em vez de ser bem-educado, deixando um banco vago ao lado de Esther em respeito  privacidade dela, o idiota 
mais alto sentou-se imediatamente ao seu lado. Onde Keith se sentara.
Ela sorriu com condescendncia para ele (como se isso ajudasse) e disse:
"Este banco est ocupado".
"Opa", ele falou enquanto recuava. "De costas, voc parecia muito mais nova. Que merda, podia ser minha me."
Esther no se deu ao trabalho de imaginar a aparncia da  me do garoto, mas levando em conta que era dentuo e tinha a  pele inteiramente detonada, certamente o 
comentrio no fora um elogio.
"Se no se importa, gostaria que voc sasse da", ela completou.
"Me importo, sim", ele rebateu. "O banco  meu. Sento nele toda noite. E se voc se sente to incomodada com isso, beije aqui a minha bunda branca e ossuda." De 
certa forma os pensamentos de Esther a respeito do traseiro de Keith se estragaram.
Como uma dama bem educada de Short Hares deveria saber que a melhor maneira de lidar com os inconvenientes  a indiferena, Esther virou de costas para o boal e 
fixou os olhos em seu copo vazio.
"Que bom, voc no caiu fora. Isso significa que foi com a minha cara. No sou de ficar com nenhuma mulher com mais de vinte e cinco, mas no vejo outra por aqui. 
E voc t me parecendo uma coroa legal."
O cretino ousou pr a mo no joelho de Esther; isso, como se diz em NJ, fez com que ela perdesse as estribeiras.
Jogou o martni de Keith na cara do idiota.
"Isso queima!", ele gritou, pondo as mos nos olhos.
"Guarde essas mos maltratadas para si mesmo, seno acerto sua cabea com uma garrafa e desovo voc em Pine Barrens!", ela ameaou.
"Sua vadia!" Ele avanou para ela com um prendedor de cabelo.
O safado no teve tempo de se aproximar. Keith Shiraz voltava do banheiro e agarrou-o pela gola da camiseta. Ele revidou, mas a favor de Keith havia vinte e cinco 
quilos e trinta anos de experincia a mais. Quando o rapaz se deu por vencido, Keith soprou alguma coisa em seu ouvido.
O garoto perdeu a cor, literalmente.
Keith largou-o. O idiota saiu do bar arrastando-se pelo cho. O amigo e o bartender observavam abestalhados enquanto a porta batia em sua bunda branca e ossuda.
"O que voc disse pra ele?", perguntou o bartender.
Keith deu de ombros.
"Que ele tinha deixado os faris da frente acesos."
Os rapazes riram entusiasticamente (tambm eram descontrados).
"O que voc realmente disse?" Esther quis saber.
Keith se negou a dizer, meneando a cabea.
"Por favor", ela suplicou.
"Me aborrece, e voc vai ficar sabendo."
Uma sugesto amedrontadora e pavorosa. Esther se abalou com a lisonja. Ser defendida por Keith tinha sido uma grande virada. Mais ainda: ela estava  merc dele.
"Podemos ir?", ela disse.
Keith sacou a carteira e deixou vinte dlares no balco. No perguntou por que ela queria sair dali ou para onde queria ir. Talvez tivesse deduzido que era mais 
uma exibio da alegada espontaneidade de Esther. Mas ela no era uma pessoa impulsiva. Afora uma exceo marcante (quando golpeara Bram), sua vida era rgida e 
cercada de proteo. Keith, no entanto, exercia uma grande influncia sobre ela. Era como se, ao ter atingido a cabea de Bram, ela tambm tivesse atingido alguma 
coisa que estava esquecida em sua prpria mente.
Saram do bar. Nos arredores, silncio. Keith destravou as portas do carro. Em vez de sentar no banco do passageiro, Esther abriu a porta traseira e sentou no banco 
de trs.
''Agora eu sou seu motorista?", ele disse.
"Senta aqui perto de mim", sugeriu ela, apontando o assento ao seu lado.
Ele entrou e fechou a porta atrs de si. Depois, trancou-a com o controle remoto.
"Nunca sei o que se passa em sua cabea, o que voc est planejando", ele falou.
"Besteira", ela disse.
Aproximaram-se um do outro; primeiro a boca, depois, as mos. Esther aninhou-se no colo de Keith. Ele era to grande, to podereso, que ela se sentia pequena. Segurando-a 
pela nuca, Keith deitou-a no banco. Em seguida deitou-se sobre ela, mordendo seus lbio, apertando seus mamilos.
Erguendo-se um pouco para trs, ele disse:
"Isto significa que vamos tomar o caf da manh juntos?"
"Como  que voc pode pensar em comida numa hora dessa?"



Captulo 20

"PELO AMOR DE DEUS, CALA A BOCA!", Penny gritava com Boris, que latia sem parar, pulando em frente ao quarto de brinquedos. Penny encostou o ouvido na porta e teve 
a impresso de ouvir vozes. No muito audveis. Era como se estivessem sintonizadas em alto volume; chiavam, cantavam.
Ela girou a maaneta. Trancada. Tentou olhar pela fechadura, mas estava selada com fita adesiva pelo lado de dentro da porta.
Os guaxinins entraram, mas no conseguiram sair, ela pensou. Talvez haja uma chave por aqui.
Penny comeou a apalpar a superfcie da porta para ver se encontrava a chave. No a encontrou e voltou-se outra vez para a maaneta, tentando for-la. Depois, investiu 
o peso de seu corpo contra a porta, vrias vezes, a fim de arromb-la.
Boris assistia a tudo com expresso de aprovao. Esticava a cabea e gania toda vez que ela demonstrava dor, como se para anim-la. Uma ltima investida fracassada.
''Ai'', ela esfregou o brao.
Com as mos nos quadris, Penny passou os olhos pelo terceiro andar. Mveis aglomerados ao longo das paredes, cadeiras amontoadas, mesas empilhadas. De repente, notou 
alguma coisa sobre uma das mesas. Parecia uma fatia de queijo. Aproximou-se para inspecionar o que era.
No  uma fatia qualquer, disse consigo,  a fatia. Ela apertou o sapato direito com fora, lembrando-se claramente da ocasio que vira aquilo.
Seus olhos recaram na porta oposta s mesas empilhadas, e especialmente na mancha em cima da fechadura. Chegou mais perto e viu que era uma mancha branca. Cheirou.
 cobertura de bolo, disse consigo.
Do bolo de seu casamento.
Sem dificuldade, ela girou a maaneta. Abriu a porta, acendeu a luz e passou a investigar aquele aposento que nunca tinha visto - alis nem sabia que ele existia. 
Nele se via um console com diversos botes e interruptores. Uma janela ampla que no dava para o lado de fora; e sim para o quarto ao lado. Duas cadeiras. Uma mala 
no cho. Uma foto emoldurada em cima do console. Pegou-a para ver de quem era a foto. 
Era dela.
Penny olhou pela janela de vidro. Mesmo mal iluminado, reconheceu seu velho quarto de brinquedos. A mesinha, as estantes, o brilho da tev, o sof cor-de-rosa.
De repente, algo inesperado. Uma sombra escura projetada na parede perto da porta. A sombra de um homem. Um homem com os braos sobre a cabea e uma das mos segurando 
alguma coisa. Uma boneca de plstico?
A sombra moveu-se. Ligeiramente, apenas um passo  direita. Era um homem de carne e osso. Estava vivo. Penny precisou de um algum tempo para processar a informao. 
Um estranho dentro daquele quarto. Armado com uma Barbie, disposto a atacar quem passasse por aquela porta.
Penny soltou um grito. Sua pele gelou, o sangue congelou. Instintivamente, deu um passo para trs, contra a parede oposta, e acabou caindo em cima da mala que estava 
no cho. Boris latia em seu ouvido, pulava em sua barriga. Trmula, ela tentou se levantar, mas como no tinha o controle dos ps, teve que se apoiar com as mos. 
Puxou a mala e fez dela um escudo. A mala no estava trancada e abriu-se, fazendo o contedo - malhas, roupas e outros itens - despencar aos seus ps.
O cheiro de Bram impregnava todo o quarto, entrando pelas narinas de Penny.
Ela afastou as roupas e se ps de p. Olhou outra vez para a sombra masculina, debruando-se sobre o console para ter uma viso mais ntida, e acionou sem querer 
o interruptor.
De repente, um zumbido eletrnico espalhou-se pelo ar. Alm disso, ela ouviu uma respirao. Superficial, acelerada... e famliar. Ela conhecia bem aquela intensidade 
e aquele ritmo, uma ligeira dificuldade no fim de cada inspirao. Era o mesmo som que entrava pelos seus ouvidos quando se deitava com o homem que amava.
"Bram?", ela gritou. Ele olhava para o espelho, cara a cara com ela. Mas no podia v-la. "No entendo. O que voc est fazendo a?"
Ele abaixou os braos e disse:
"Estou fazendo... alguns exerccios de alongamento."
"Voc ia me atacar com a Barbie!"
Ele se aproximou do espelho de duas faces e se deteve ali, falando consigo mesmo, um pouco  esquerda do ponto em que ela estava do outro lado. Penny podia v-lo, 
mas Bram no a via.
"No esperava que voc voltasse to cedo", ele disse.
"Voltar de onde?", ela quis saber, desnorteada.
"De onde voc foi", ele respondeu com impacincia. "Voc disse que ia sair."
Ela no tinha dito nada a ele! No trocara uma slaba com ele desde o jantar de ensaio.
"Voc est enganado", ela falou.
"No faz uma hora voc disse que estava saindo para jantar fora. E queria que eu subscrevesse os envelopes de devoluo. Eu ia comear a fazer isso depois que a 
Cinderela enfiasse o p no sapatinho que o prncipe levou."
Caiu a ficha. Ele est pensando que sou a mame. Isso significava que sua me sabia que Bram estava no seu antigo quarto de brinquedos. Ser que ele est se escondendo? 
No, ele est trancado. Aprisionado. Contra a vontade dele.
"Que merda!"
Penny estava pensando justamente nessas palavras quando elas ecoaram pela porta aberta. L estava Natasha, plantada  porta. Ela arrastou o seu peso para dentro 
do quarto, desligou o interruptor e o cmodo ficou completamente em silncio, sem nenhum zumbido.
As duas mulheres se encararam por dez segundos at que comearam a discutir.
"Voc est metida nisso!"
"No  o que voc est pensando!"
"Isso aqui  seu!", acusou Penny, exibindo a fatia de bolo para Natasha.
''Vou ficar encrencada com sua me."
"No vai ficar encrencada, no", Penny replicou. "Voc j est no meio da encrenca. Pode acreditar!"
''Voc devia ver o seu estado", Natasha falou com displicncia.
Penny olhou o seu reflexo no vidro da janela, sua expresso enlouquecida, os cabelos desgrenhados, a roupa folgada. Logo saiu do foco, com medo de que Bram visse 
sua triste figura.
"Ele no consegue enxerg-la. Nem ouvi-la, a menos que voc aperte o boto", disse Natasha.
"Este?", Penny perguntou, com o dedo indicador no interruptor vermelho. Natasha assentiu. Ela apertou o boto, e a voz de Bram  inundou o pequeno cmodo.
"...voc est a?  uma crueldade me deixar aqui completamente afastado do resto do mundo. Pelo menos me d um rdio. Ou uma tev comum. Ou um telefone."
"Um telefone?", Natasha deu uma risadinha e desligou o microfone.
Era s o que faltava!
"Como foi que isso aconteceu?", Penny inquiriu.
"No sei de nada."
"Me diz!"
Natasha deu de ombros.
"Sua me ficou furiosa depois que ele te abandonou. Ento, golpeou a cabea dele e o trouxe pra c."
Penny olhava para Bram, espantando-se por t-lo to perto. A alguns centmetros de distncia. Vendo-o um pouco inchado, ligou o microfone.
"Voc est gordinho", ela disse.
"O que voc queria?", ele rebateu. "Estou comendo vinte refeies por dia!"
"Aquelas bandejas eram ento pra ele", Penny cochichou no ouvido de Natasha. "No havia vira-lata algum! Bram  que era o cachorro, o que alis pra mim  um insulto 
aos ces." Ela esperou um pouco at esfriar a cabea. "De onde ento veio o Boris?"
"Do abrigo de animais de Short Bares."
''Vocs adotaram um cachorro s pra encobrir um seqestro?"
"Do jeito que voc coloca, parece errado", Natasha falou enquanto aninhava Boris nos braos. "Mas voc sempre quis um cachorro, Penny. E ele precisava de um lar."
"Ele  uma gracinha", disse Penny, acariciando o cozinho.
Enquanto isso, Bram continuava falando:
''Voc pensa que acho engraado engordar? Voc se diverte com  o meu rosto inchado de tanto comer bolo de noiva? Deve se divertir muito com isso, no ? Vai fundo. 
Arrebenta de tanto rir."
Ele pegou o prato do cho ao lado do sof e comeou a devorar o bolo, sem nenhuma pausa para mastigar e respirar. Penny olhava, horrorizada, dividida entre o nojo 
e a fascinao. O isolamento tinha acabado com ele. E com tanta rapidez! Ela comeou a rir do absurdo da situao, do rosto de Bram enlouquecido e coberto de glac, 
do cativeiro, do crime da me, da cumplicidade de Natasha. O riso deixou Boris excitado e o fez pular do colo de Natasha para rodear as pernas de Penny.
"T legal", Bram falou com a cara cheia de glac branco. "Pode rir, sua vaca. Ri  vontade, sua vadia."
Ele deixou o prato cair, e os pedaos de bolo se espalharam pelo carpete, formando uma trilha de glac. Agarrou ento a prpria garganta e se dobrou. Seus olhos 
se esbugalharam com dramaticidade, ao mesmo tempo em que ele tentava expelir alguma coisa que parecia ter obstrudo sua garganta.
"Ele est sufocando", Penny gritou.
"Que nada, est fingindo", replicou Natasha.
"Temos que ajud-lo! Ele est ficando vermelho!"
O rosto de Bram parecia um tomate prestes a se tornar beterraba. Ele caiu de joelhos, batendo contra o prprio peito.
"Ele est tentando fazer a manobra de Heimlich sozinho" ,disse Penny, agarrando Natasha e puxando-a para o quarto de brinquedos. Mas logo se deu conta de que sem 
a chave no poderia entrar l para ajud-lo.
"Destranca a porta!"
" encenao dele. Sei muito bem quando algum est sufocando."
"Ele est ficando roxo!", Penny gritou, acrescentando: ''Voc j viu algum morrer engasgado?"
"Muitas, muitas vezes", Natasha respondeu com ar de tdio. "Eles no ficam vermelhos. Ficam azuis."
"Voc est fingindo", disse Penny ao microfone.
Bram parou de se contorcer. Esticou-se no cho e ficou imvel, com a cara cheia de glac.
"Agora ele est se fingindo de morto?", Penny cochichou no ouvido de Natasha.
"Infelizmente", sussurrou a moscovita. "Logo, logo ele rola."
No deu outra: aps trinta segundos Bram comeou a se mexer.
''Agora ele vai se sentar."
Bram empinava-se.
"Observa agora."
Ele levantou-se e sentou-se no sof, com o brilho da TV refletido em sua face resignada.
Penny estudava a expresso deprimida de Bram, os patticos resqucios de glac em seu rosto, em seus jeans, a postura arqueada. 
E sentiu pena dele.
Natasha desligou o microfone e disse:
"Logo que sua me chegar, conversaremos sobre o que fazer depois. Por mim, o melhor seria dop-lo, vendar seus olhos e desov-lo em Pine Barrens."
"Nunca o vi dessa maneira. Vulnervel, desesperado,  merc dos outros. Com uma aparncia to triste", Penny comentou.
"Ele  que a deixou to triste", Natasha rebateu.
"Ento  assim, olho por olho?"
"Em Moscou,  perna por olho", disse Natasha. "Bram fez um bom negcio."
Penny assentiu com um gesto de cabea e no se conteve:
"Bram, por que voc fez aquilo?"
Ele lanou um olhar gelado (ou seria lambuzado?) em direo ao espelho.
"Aquilo o qu?"
"Fugir do casamento."
Ele desviou os olhos diretamente para o lugar onde Penny  estava, como se pudesse v-la. Ela engoliu em seco.
"No aja como se desse a mnima, Esther", ele disse. ''Voc est radiante com o fracasso do casamento. E no s porque me odeia. Mas porque seu maior desejo  que 
Penny nunca se case. Se fosse possvel, aposto que voc a trancaria neste quarto."
Deve ter acontecido alguma coisa l com ele, ela pensou.
"A questo em pauta:  por que voc abandonou Penny no altar?", ela inquiriu, fingindo ser a me.
"J lhe disse, isso no lhe interessa. E francamente, no entendo por que voc quer saber tanto. Penny voltou a ser toda sua.  isso que lhe interessa. Muito mais 
que a prpria Penny. Se eu tivesse uma chance, explicaria diretamente para ela."
"Fala pra ele que  voc", Natasha sussurrou.
Penny podia fazer isso. Podia pedir que Natasha lhe desse a chave para libert-lo, Podia confront-lo sem a intermediao dos vidros; podia question-lo e expuls-lo 
de sua casa, de sua vida, de seu futuro.
Mas ele insultara Esther. Anulara a relao que havia entre me e filha.  claro que no caso em questo essa relao podia parecer um pouco tensa, mas elas estavam 
unidas por laos sagrados que se sobrepunham s crticas de qualquer um que estivesse de fora. Ele no tinha o direito (quem ele pensava que era?) de se referir 
a Esther daquela maneira.
Penny pegou o microfone e falou:
''Voc no vai a lugar nenhum, seu egosta, desalmado, seu bastardo de merda. Voc no faz a menor idia de como me relaciono com Penny, do muito que significamos 
uma para a outra nesses anos todos. Sempre fiz tudo o que pude pra deix-la feliz, e tanto que voc nem pode imaginar. Seu bundo."
Bram ficou boquiaberto.
Penny desligou o microfone.
As sobrancelhas riscadas a lpis de Natasha quase foram parar no incio da testa.
"Voc est furiosa", ela disse. "E com razo."
Penny agarrou Boris, apertou-o nos braos e saiu para o corredor. E deu um pontap na porta do quarto de brinquedos quando passou por l.



































Captulo 21

KEITH AFASTOU A BOCA DOS lbios de Esther, comentando:
"Namorando nesse banco traseiro, me sinto com dezessete anos. Se no fosse minha coluna. Ela ainda tem cinqenta".
A coluna de Esther tinha virado uma gelatina, no lhe permitindo contestar.
"Vamos voltar para o hotel", ele sugeriu. "Podemos pedir o servio de quarto. E champanhe. Vamos abrir aquela garrafa que voc deu para Bram e Penny."
Ao ouvir o nome de Bram e a meno  arma que usara, ela ficou petrificada.
''Voc no gosta de champanhe?", ele perguntou.
"Adoro", ela respondeu. "O hotel  uma tima idia."
Foram para o banco da frente e voltaram  estrada. Com o movimento, Esther teve a chance de pr os pensamentos em ordem, de enfiar Bram, Penny e toda a confuso 
do casamento numa caixa e arrum-los numa prateleira de seu crebro. Ela s conseguia pensar em Keith, naquela noite e em sua sexualidade por tanto tempo ignorada. 
No dia seguinte teria que encarar a realidade que ela mesma havia criado, e tentaria ajeit-la.
" uma longa viagem de volta", ele disse. "Estou louco pra deitar em cima de voc e atac-la."
"Mos no volante, olhos na estrada", ela disse, abrindo a braguilha da cala dele para masturb-lo durante o percurso de volta at Short Bares. Ele estava esplendidamente 
ereto, silencioso e focado na estrada (na medida do possvel).
Fizeram o caminho de volta com um tempo excelente. Esther nem se deu conta de quanto Keith havia acelerado.
Pararam na entrada do Plaza e se beijaram apaixonadamente at que o manobrista bateu na janela do passageiro com um sorriso envergonhado e ruborizado, obrigando-os 
a se separar.
"No se mova", disse Keith.        
Depois de sair do carro, ele foi para a porta de Esther, abriu-a e estendeu a mo. Ela lhe deu a mo e ele ajudou-a a sair do carro, com distino. Keith abraou 
Esther com firmeza e amparou-a pelos degraus da entrada como se ela fosse frgil como vidro.
Elegncia ao extremo. Fazia tempo que ela no via isso! As mulheres da gerao de Esther tinham sido treinadas para reagir negativamente ao cavalheirismo. Ela se 
lembrava de como fazia questo de frisar para Russell que era perfeitamente capaz de abrir portas e empurrar a cadeira  mesa. Mas naquela hora, com tamanha demonstrao 
de cortesia, seria ridculo assumir uma postura feminista. Ela aceitaria a cortesia, todo o cavalheirismo que ele pudesse oferecer, e curtiria as atenes.
"Agora  a sua vez", disse Keith assim que entraram no saguo.
"Minha vez?" De me mostrar magnnima?, pensou ela. Ser que ele lera a sua mente?
Ele sorriu com malcia e apalpou um ponto estratgico do vestido de Esther.
"Ei!", ela reclamou, sem graa, notando os olhares da recepcionista e do mensageiro do hotel.
Ele a empurrou na direo do bar.
"Vamos l pra cima", ela retrucou.
"Primeiro eu quero brincar com voc por baixo da mesa", ele falou.
 um pervertido, ela pensou. Mas a simples idia de ele a tocar quase que na frente de outras pessoas fez a vagina dela se contrair.
Sou uma pervertida, ela pensou. Todos aqueles anos de abstinncia s para saber que tinha desejos erticos excntricos. Ou talvez Keith  que estivesse estimulando 
a excentricidade, embora ela  que tivesse dado a pista disso.
O bar do Plaza era perfeito para a tarefa. Era um ambiente do estilo europeu - polido, sbrio e tradicional. Carpete com padronagem saxnica, lambris de carvalho, 
papel de parede verde e gravuras que exibiam cenas de caa  raposa, tpico da Inglaterra do sculo XIX. No salo, mesas baixas acompanhadas de cadeiras de veludo 
estofadas. No bar, o garom, um imaculado senhor de meia-idade, de bigode e vestindo terno preto e camisa branca, limpava o balco com um pano branco.
"Boa noite, senhor. Boa noite, madame", ele disse. Umas doze pessoas ricamente trajadas para a noite bebiam usques e coquetis gelados, sentadas nos bancos altos 
do balco.
"Direto do Abruzzi's para essa orgia esnobe. Parece outro planeta", Keith cochichou no ouvido de Esther.
"Nova Jersey tem de tudo", ela comentou enquanto se sentavam num canto escuro. O restaurante exalava um aroma de madeira e hortel, e no de fritura e cerveja.
"Precisamos de uma toalha de mesa", disse Keith.
"Quer que eu pea ao garom?", ela sugeriu, espantada com o descaramento dele.
"Pe o meu casaco no seu colo", ele falou, ajudando-a a coloc-lo. "Assim est bom."
Esther se sentia aliviada por no estar usando meia-cala. Em julho isso significava uma graciosa castidade.
Keith se aprumava ao lado, com a mo direita infiltrando-se por debaixo do casaco at as coxas de Esther.
"Mos sobre a mesa; olhos... em mim", ele disse.
Ela suspirou quando os dedos dele atingiram o ponto. Talvez tenha deixado escapar um ligeiro gemido, com os olhos voltados exatamente para onde ele queria. Focou-se 
na boca de Keith. Ele falava suavemente com ela, dizia coisas sem sentido; por vezes parecidas com rimas infantis, s para fingir que de fato conversavam.
"Voc est encharcada", ele disse quando ela sentiu uma contoro na virilha, uma sensao de zumbido, o comeo de algo que...
"Oh, meu Deus", ela gemeu.
"Oh, meu Deus!", uma outra pessoa exclamou.
Esther e Keith se viraram para ver quem era.
"Ei, vocs dois! No acredito! Que coincidncia encontrar vocs aqui!"
''Ashley?'', Esther engasgou ao ver sua amiga.
Keith retirou a mo de debaixo da mesa, o que fez Esther lamentar.
"Boa noite, Ashley", ele disse.
''Achei que podia encontr-lo aqui, Keith. Mas nem me passava pela cabea que podia encontr-los juntos. E sentados a conversando, parecendo to ntimos. Nem pediram 
as bebidas..."
Instintivamente, Esther se afastou um pouco de Keith e disse:
"Voc gostaria de..."
''Adoraria.'' Ashley sentou-se  mesa que era de dois e agora, de trs, deixando Keith no meio.
Ela se debruou sobre o colo dele para beijar Esther. E ao se afastar, deu sua piscadela habitual de cumplicidade. Esther balanou a cabea. No, ela sussurrou. 
Mas Ashley j tinha voltado a ateno para Keith, Alguns anos antes ela havia se empenhado em fazer alguns "resgates" similares para Esther, que no queria necessariamente 
ser salva. Acontece que Esther nunca conseguira achar uma maneira educada de afastar Ashley. Mas na ocasio no se importara muito.
Com Keith, entretanto, Esther se importava.
''Ainda estou boquiaberta por ter encontrado voc!", disse Ashley.
" to surpreendente assim encontrar Keith no hotel dele?" Esther perguntou com sarcasmo.
Ashley lanou para sua amiga um olhar de interrogao.
"Estou interrompendo alguma coisa? Esto desabafando as mgoas pelos filhos? Pelo casamento? Pela tragdia de tudo isso?"
Sim, pelo corao partido, pensou Esther. Pela dor de cabea tambm. Pela sua empregada desmiolada. E pelo Bram, por Penny e o casamento. As caixas de pensamentos 
voavam das prateleiras e despencavam no colo de Esther, agora fria e impenetrvel.
"Est bem, confesso. Vim procurar vocs. Espero que no se zanguem. Eu estava to entediada, sentada naquela minha casa enorme!" Ashley olhou para Keith e acrescentou: 
"Desde que o meu marido morreu, sinto-me muito s  noite".
"Eu entendo o que voc sente", disse Keith.
Esther tambm se sentia assim. No pela falta de seu falecido marido. Ela chegara at a danar quando recebera a notcia pelo telefone. Mas sobre as noites solitrias, 
tinha o que dizer. A caracterstica da seduo de Ashley era a empatia. Sua incrvel capacidade de perceber qualquer coisa que o seu alvo sentisse, e de retribuir 
a esse sentimento. O efeito era imediato. Keith, no entanto, no era bobo. No cairia na trama sedutora de Ashley.
Pelo menos era o que Esther pensava. Virou-se para Keith na expectativa de que ele estivesse olhando para ela. Mas ele olhava a blusa de seda cor de caf de Ashley, 
embasbacado.
"Que blusa linda", disse Esther para a amiga, com uma fasca de cime.
Ashley empinou os seios de silicone, como para faz-los saltar da blusa.
"Esta coisa velha?"
Elas riram juntas, como velhas amigas que eram.
"No  bom estarmos todos aqui?", Esther falou, dando um tapinha no joelho de Keith.
"Ainda mais quando penso que Esther me odiou quando fomos apresentados", ele replicou.
" verdade?", Ashley quis saber.
Esther no estava com a menor vontade de passear pela memria. Na verdade, no estava disposta a dar um s passo.
"Eu tentei impression-la com uma piadinha. E me lasquei completamente", ele disse.
"A piada era engraada?", disse Ashley.
"No muito."
"Tadinha da Esther", Ashley comentou com simpatia.
"Se olhar matasse, eu j estaria morto", ele falou, rindo. "Ento resolvi que faria qualquer coisa para que ela mudasse de idia a meu respeito."
"Voc gosta de desafios?", perguntou Ashley.
"Vocs gostam de falar das pessoas como se elas no estivessem presentes?", perguntou Esther.
"Eu queria deix-la feliz", ele se justificou, olhando nos olhos de Esther. "Me parecia que voc no conseguia resolver isso sozinha."
"Eu sempre precisei de um homem para me sentir feliz", disse Ashley. "Todas as mulheres precisam. Exceto as lsbicas. Mas esse no  o caso de nossa Esther."
Esther no sabia como lidar com aquilo. Keith ento resolvera salv-la emocionalmente? Quem disse que ela precisava ser salva? Ela odiava a idia de ser uma mulher 
parecida com Ashley. Rejeitava a noo de que as mulheres no podem ser felizes sem os homens. Geralmente, acontece o oposto.
Ashley colecionava homens. Esther jogava a afetividade em outras coisas como tapetes, cadeiras, mquinas de costura, violinos, tabuleiros de xadrez. Mas, contrariando 
o juizo convencional, alguns itens de sua coleo (as colchas antigas, por exemplo) a deixavam aquecida nas noites geladas de inverno. Por que Ashley tinha que exibir 
sua coleo de homens para ela? Em oposio s cadeiras de Esther, os homens no tinham necessariamente que ficar no mesmo lugar. Todos os homens caados por Ashley 
partiam de manh, deixando a cama vazia. Pelo menos com as cadeiras ela j estava acostumada, pensava Esther.
"Ela tem razo", Esther falou. "No sou lsbica. Mas estou muito cansada." Levantou-se. Dormir com Keith fora uma adorvel fantasia. Mas com o aparecimento de Ashley, 
era como se as deusas que regem o destino sinalizassem o perigo. Se tivesse transado com ele, ser que ficaria viciada em sexo, como algumas pessoas se viciam em 
crack? Ser que uma noite com Keith a deixaria como Ashley Longmead? Essa perspectiva a fez tremer.
''Aonde voc pensa que vai?", Keith falou rapidamente, levantando-se.
"Para casa", ela respondeu. "E como voc vai deixar a cidade amanh, acho que no nos veremos outra vez. Cuide-se, viu?"
"Tnhamos outros planos para esta noite", ele disse.
"Planos que mudaram", Esther replicou. "Mas no vejo razo para voc deixar de aproveit-la". Ela lanou um olhar para Ashley.
"Os planos continuam", ele afirmou. "Tenho que insistir", disse com mais firmeza. Esther no sabia se ele queria esmurr-la ou beij-la.
"Sem essa, amigos. Vamos parar com essa discusso, principalmente porque estamos com a garganta seca. Joffrey!", disse Ashley.
"Uma garrafa de champanhe. Coloque-a na conta do senhor Shiraz. E vocs dois, por favor, sentem-se." .
"Sim, senhora Longmead", o garom respondeu do balco.
Esther e Keith permaneceram sentados. Keith a olhava com intensidade, a poucos centmetros de distncia. A vulva de Esther pulsava (ela no podia negar).
''Joffrey, cancele o champanhe", ela ordenou.
"Sim, senhora Bracket."
"Joffrey", disse Keith.
"Pois no, senhor Shiraz."
"Mande o champanhe para o meu quarto."
"Sim, senhor."
Ashley levantou-se, excitada, pegou com suas mos cheias de jias as mos de Keith e disse:
"Que idia excelente! Eu adoraria conhecer sua suite. Esther, voc precisa mesmo ir pra casa? Ah, bem, talvez precise".
Keith ps a mo no colo macio de Ashley e empurrou-a de volta ao assento. Ela caiu sentada.
"Foi timo rev-la. Boa noite, Ashley", ele disse enquanto abraava Esther, levando-a para fora do bar na direo do elevador. Ele apertou o boto. Sobe. Depois, 
sob o lustre de cristal e ouro, enlaou a cintura de Esther, puxou-a para si e beijou-a da forma mais apetitosa que ela j sentira na vida. Um fil de beijo ao ponto, 
sangrento, mastigvel e fortificante. Um alimento. Um beijo que poderia sustent-la por dias ou, se necessrio, pelo resto da vida.
Os dois estavam to agarrados que no notaram quando a porta do elevador se abriu com um ping, dando sada a um monte de gente.
"Ora, ora. Olha s pra isso, Morris. Eu bem que avisei pra eles encontrarem um quarto, mas acho que j encontraram."
Esther abriu um olho e l estava Vita, a amiga degenerada de sua filha, na frente de Keith. Os braos longos da moa estavam cruzados contra o peito. Ao lado dela, 
o padrinho de Bram, o neandertal que entregara a carta-bomba para Penny no dia de casamento. Esther e Keith se desgrudaram e olharam para os amigos de seus filhos.
"Vita", disse Esther, confusa.
"Senhora Bracket", Vita cumprimentou.
"Ol, senhor Shiraz", disse o rapaz.
"Ol, Morris", Keith respondeu, colocando-se atrs de Esther a fim de esconder os traos de ereo.
Os dois casais sorriram, sem graa. O encontro com a amiga de Penny, que obviamente acabara de fazer uso de um quarto daquele hotel, era um jato de gua fria no 
desejo de Esther.
"Voc teve alguma notcia de Bram?", Keith perguntou para Morris.
"Nenhuma", respondeu o rapaz.
"Parece que vocs no esto preocupados", disse Keith.
"No, ele deve estar... ocupado com alguma coisa."
"Ocupado? Voc tinha falado que talvez ele estivesse em alguma praia", Vita comentou, metendo-se na conversa.
"Que praia?", Keith sussurrou para Esther. "No em Sea Grit."
"Como voc acha que Edina Spanky faria esta cena?", Vita perguntou para Morris. "A me da noiva com o pai do noivo? Curioso. E muito doido, considerando as circunstncias. 
Seria o mesmo que a me de Julieta transar com o pai de Romeu."
"Edina ficaria intrigada pela motivao sexual."
"Oportunismo?", Vita conjeturou. "Desejo como fruto de estresse e de ansiedade? Sexo como fuga de problemas grandes demais para se enfrentar?"
Enquanto Vita falava, Esther observava que a boca da moa era rosada, compacta, adorvel, e que seus olhos verdes brilhavam como o mar da Irlanda. A garota era uma 
coisinha adorvel; pequena, aucarada. Um bolinho.
"Sua presunosa retido  deprimente", disse Esther, demonstrando a averso que tinha pelos bolinhos.
"S estou explorando uma personagem", Vita se justificou.
"No  nada pessoal. Mas, se for o caso, Penny j sabe sobre isso? Talvez ela tenha algumas questes a colocar."
"No h 'isso' algum", Esther replicou.
"No h?", Keith interveio.
"Por ser a melhor amiga de Penny, minha obrigao  contar pra ela tudo o que vi. Alis, vou agora mesmo pra l. Ela acabou de me telefonar e pediu que eu fosse 
pra l."
Esther olhou o relgio. Dez horas. Penny estaria bem? Ligando numa hora daquela para pedir apoio emocional (mesmo insignificante)? E por que no conversara com Vita 
s pelo telefone? Que razes teriam feito Penny solicitar a presena de Vita? Ser que Penny queria mostrar alguma coisa?
O estmago de Esther revirou e suas pernas ficaram bambas.
Penny o encontrou, ela pensou.
"Vou com voc", disse Esther para Vita.
"No vai, no", disse Keith, mostrando-se mais exasperado que resoluto.
" claro que a Penny precisa de apoio", Esther se justificou. "Sou a me dela. Tenho que ficar ao lado dela."
"Eu posso lidar com isso", disse Vita.
Esther bufou.
''Vita, se a senhora Bracket quer ir, voc pode ficar", disse Morris.
A garota sorriu.
"Prometo que voltarei logo. E se no voltar tarde da noite, volto amanh cedo. Ah, fica com isso antes que eu me esquea." Vita terminou a frase estendendo o carto 
de seu quarto para o rapaz.
"Preciso estar na cidade por volta das dez", disse Morris. "Tenho, hum, um compromisso comercial."
"No domingo?"
", sim", ele respondeu de supeto, com os olhos voltados para os tnis.
"Voc tem realmente um trabalho?", Keith perguntou.
''Ainda sou escritor freelance."
"E vai ter um encontro comercial", disse Keith. "No domingo."
" um cliente novo", Morris comentou com displicncia. "Ele quer um discurso."
"Sobre o qu?", Keith inquiriu, olhando-o nos olhos  espera de resposta.
Esther imaginou aqueles olhos cravados em seus olhos enquanto Keith a carregava para a cama.
"Senhora Bracket", Vita falou, "a senhora est respirando na minha orelha."
" um discurso, hum, de trabalho."
"Fale mais sobre isso", disse Keith.
"J vou indo", disse Vita.
"Eu tambm", disse Esther juntando-se a ela.
Keith se despediu de ambas com um beijo no rosto.
"Vamos deixar o caf-da-manh para outra hora", ele comentou com Esther.
Vita deu um sorriso matreiro enquanto registrava mentalmente a cena para contar para Penny. Esther seguiu-a pelo saguo.
"Lamento por ter estragado a sua noite", disse a garota, caminhando apressada.
"De qualquer forma, eu j estava de sada." Esther esforava-se para acompanh-la.
" vergonhoso apress-la."
"No tem importncia."
"O hotel pode chamar um txi mais tarde, se voc quiser ficar".
"Pelo amor de Deus, Vita, a casa s est a trs quilmetros daqui", Esther retrucou. " claro que pode se agentar sozinha comigo por uns trs minutos."
"Claro que posso", Vita declarou com a mo no peito. "S estava preocupada com o seu conforto. Pela sua idade, no desejo de maneira nenhuma estressar seu corao."
Esther olhou de relance para trs, na direo de Keith. Ele apoivava a mo no ombro de Morris, como para mant-lo no lugar. Morris parecia nervoso. Keith queria 
saber de alguma coisa. Os olhos de Morris se movimentavam da esquerda para a direita como se procurassem fugir.
Vita e Esther atravessaram a porta de entrada. O manobrista chegou com o fusquinha verde exatamente no instante em que elas desciam a escada do hotel.











































Captulo 22

PENNY PROTEGIA OS PS DOLORIDOS. Natasha aninhava Boris no colo, acariciando as orelhas esquisitas do co.
"Da prxima vez, use botas." A russa supostamente tinha alguma experincia em chutar portas.
Blm.
"Quem ser agora?" Penny desceu mancando pela escada. Depois do encontro com Bram no tico, ela estava preparada para qualquer coisa. "Talvez o fantasma de papai 
tenha vindo para me resgatar."
"Talvez seja o meu finado marido", Natasha rebateu enquanto abria a porta.
"Boa noite", ela falou para a mulher  soleira da porta.
"Ol, dona Molotov. Que bom ver voc, Penny", disse Ashley Longmead.
Ela beijou o rosto de Penny.
''Voc no est me parecendo muito bem", disse a mulher quimicamente preservada vestida de conjunto de seda. ''Voc tem que passar um dia inteiro em algum [i]spa[/i], 
Penny. Agende um fim de semana. Vou telefonar para o Reynaldo, l do Short Hares Wellness. Garanto que ele vai arrumar uma vaga pra voc."
A porta da cozinha bateu  esquerda. Era Natasha que se evaporava.
Boris tambm recebeu mal a vizinha de cabelos castanho-avermelhados, latindo com adorvel hostilidade. Penny pegou-o no colo (gentil e amorosamente) e apertou o 
focinho dele.
"Mame no est em casa", ela disse.
"Pensei que ela estava jantando com o maravilhoso Keith Shiraz."
Ashley esticou os olhos sobre os ombros de Penny  procura de sinais masculinos.
"Eles saram."
"Por acaso voc sabe aonde foram?"
Penny deu de ombros.
"Keith ainda est no Plaza?", Ashley perguntou.
''Acho que sim."
"Muito obrigada, Penny. E no se esquea. O Reynaldo  um gnio. Ele faz qualquer coisa por mim. S preciso dizer buu."
''Voc quer dizer 'doida'?", disse Penny.
Ashley deu uma pausa e sorriu.
''Voc sempre foi uma criana estranha, Penny. Boa sorte com a sua solido. Espero que voc tenha momentos melhores que sua me. "
Penny bateu a porta com violncia. E abriu-a depressa.
"Desculpe, a porta bateu", ela falou atropeladamente.
Mas Ashley j estava dentro de seu Porsche. Acenou com a mo cheia de brilhantes, buzinou e se foi. A culpa se apresentou imediatamente. Ela havia batido a porta 
na cara de Ashley. Por mais gratificante que isso fosse, Penny sabia que logo se arrependeria. E Esther ficaria furiosa quando soubesse.
Penny entrou na cozinha. Natasha no estava l. Ento, pegou o telefone de parede e discou para o celular de Vita.
O telefone s tocou uma vez.
''Vem pra c", ela disse.
"Estou com Morris", Vita respondeu. "Estamos lendo o romance. Quer dizer, a pea.  boa, Pen. Talvez seja a pea que eu estava procurando."
Ser que ela devia contar a Vita que Bram estava no tico? Deus, como ela queria contar! Afinal, eram notcias fresquinhas. E que deliciosa ironia! Logo ele, que 
buscava a liberdade. Olha s pra ele agora.
Ela abriu a boca para exprimir esses pensamentos, mas alguma coisa a fez hesitar.
"Voc est legal?", Vita perguntou ao telefone.
"Estou tima", disse Penny. "Muito bem."
"Tem alguma coisa errada."
"Esquea." Penny pesou um pouco mais e resolveu no contar nada para Vita. A atriz tinha uma tendncia ao exagero; ela e Esther no poderiam ir mais longe. Se descobrisse 
alguma coisa sobre Bram, Vita cometeria alguma loucura como, por exemplo, chamar a polcia.
"Voc no est nada bem", Vita falou. "J estou indo pra a. S preciso de vinte minutos." E desligou.
Penny tentou ligar outra vez, mas o celular de Vita j estava desligado.
Agitada demais para esperar na cozinha, Penny atravessou-a na direo de uma entrada estreita onde havia uma escada de servio que ela raramente usava e que dava 
no segundo andar, exatamente em frente ao quarto de Natasha.
Penny chegou com Boris no colo e bateu na porta.
"Ela j foi?", disse Natasha logo que abriu a porta.
"Saiu voando", Penny respondeu.
"Aquela mulher", Natasha cuspiu no cho, "me trata como uma empregada."
"E qual seria exatamente a descrio de seu trabalho?", Penny inquiriu.
"Eu sou uma governanta", Natasha falou de nariz empinado.
"E co-seqestradora", Penny acrescentou. "Co-criminosa, co-torturadora."
"Pode ser, mas no sou uma empregada!"
Penny entrou naquele quarto decorado com dramaticidade, admirando como sempre o tapete oriental vermelho-ma, a colcha cor de morango e as paredes cor de cereja. 
O armrio era uma relquia asitica laqueada em tons escuros de rom.
Natasha gostava de vermelho. E de frutas.
E Penny amava aquele quarto. Quando era criana, implorava para que Esther a deixasse pintar tambm o seu quarto de vermelho-berrante, mas a me se recusava, dizendo:
''Vermelho  para prostitutas e comunistas, no para menininhas."
E Penny sempre perguntava:
"Ento, por que o quarto de Natasha  vermelho?"
Invariavelmente, a pergunta provocava em ambas uma sonora gargalhada que encerrava o dilogo. 
Natasha continuava tecendo comentrios sobre a vizinha.
''Ashley Longmead s se sente feliz quando sua me est na pior."
"Parece que ela tem o dom de adivinhar quando as coisas no vo bem", Penny comentou enquanto se reclinava na cama cor de morango. Ashley chegara voando no dia em 
que Russell fora embora, como se estivesse esperando l embaixo que o carro dele tomasse a estrada. E tambm chegou bem depressa quando Russell morreu. Era ento 
natural que ela marcasse presena por ocasio do casamento fracassado.
"E Esther ainda acha que Ashley  amiga dela", disse Natasha com ironia. "Talvez agora voc entenda melhor a sua me."
"Sim, eu me dei conta de que ela tem um porrete pronto para qualquer emergncia", Penny replicou. "No passa de uma criminosa fracassada."
"Sua me est sozinha no mundo. Ela s tem voc e eu", Natasha rebateu.
"Fao ento uma correo: mame  uma criminosa triste e sozinha", Penny falou baixinho, do fundo da alma.
"Na Rssia, a turba jogaria Bram no fogo e deixaria o corpo carbonizado para os ratos, s pelo que ele fez."
Penny sabia que Natasha era capaz de atos cruis e covardes. A russa era uma excelente cmplice. Mas ela no podia imaginar que sua me seria capaz de golpear a 
cabea de uma pessoa e depois seqestr-la. Durante anos ouvira os cochichos das pessoas que comentavam que Esther estava envolvida de alguma maneira no mergulho 
fatal de Russell.
Penny abraou uma almofada vermelha, lembrando-se de como Esther tentara dissuadi-la do noivado. E quanto mais Esther a desencorajava, mais ela se unia a Bram. S 
depois de muita terapia  que percebeu que um dia alguma coisa se colocaria entre ela e sua me. Bram fora seu amado e seu sustentculo. Mas o que ela significava 
para ele?
"Se toda vez que falar com Bram eu fingir que sou a mame", disse Penny, "poderei falar o que quiser sem pensar nas conseqncias."
''Voc no ter essa chance", disse Natasha. "Esther vai solt-lo assim que chegar."
"No!", Penny exclamou.
"Se ficar provado que houve seqestro,  bom que voc no esteja envolvida. E agora que voc j sabe, acabou. Mas que foi divertido enquanto durou, isso foi!"
" s no contar pra ela", disse Penny.
A russa podia ser to inflexvel quanto a cortina de ferro.
"Ele tem que sair daqui", ela insistiu.
"Fale um pouco a respeito do quarto de brinquedos. O que significa aquele sistema de vigilncia? Mame o usava pra me espionar?"
"No era a sua me", respondeu Natasha. "Era o seu pai. E no era pra te espionar. Era pra espionar a ela."
Ela, Penny entendeu imediatamente, era Jemima, sua bab inglesa. A mulher que fizera com que Esther fosse abandonada. Aquela com quem ele estava quando morreu.
"Ele era um pervertido, um tarado", Natasha acrescentou.
A me de Penny tinha um parafuso a menos, e o pai dela era um voyeur. As notcias eram to constrangedoras como renovadoras. Desde que sara da sala de controle, 
cerca de vinte minutos antes, Penny estava se coando para subir as escadas e espiar Bram. Seria bom observ-lo. Alis, sempre gostara disso. E daquela forma podia 
observar tudo o que quisesse sem a presso e a ansiedade de ter o olhar dele sobre ela.
"Talvez eu tambm seja uma tarada", ela disse.
"Talvez seja", Natasha assentiu. "So os mesmos genes. A maldade pode aflorar em voc. Isso pode acontecer a qualquer hora com qualquer um que esteja sob presso. 
 s ver o que a Esther fez com o Bram. Uma vez, o meu irmo Misha fez um ninho com jornais que ele encontrou na sarjeta e comeou a dormir dentro dele. Ele dizia 
que tinha virado um pombo. At que um dia pulou do telhado, achando que podia voar."
"E ele se machucou?", Penny perguntou.
Natasha negou com um gesto de cabea.
"Nossa casa, se  que aquilo podia ser chamado de casa, era baixa. Eu e meus irmos vivamos pulando do telhado por pura diverso. No havia parques nem pracinhas 
em Moscou. ramos obrigados a ficar o tempo todo dentro de casa para no sermos pegos pela polcia e enviados a um campo de trabalho para jovens l na Sibria."
"Pelo menos uma nica vez eu gostaria que voc me contasse a verdade sobre sua vida antes de Nova Jersey", disse Penny.
"Cada palavra dita por mim  verdadeira!", Natasha insistiu.
''Voc no se casou por correspondncia."
"Casei sim! Fui capa do primeiro catlogo de agenciamento. Meu irmo Serguei tirou uma foto minha, nua, e de minha prima. Isso foi em 1991, um dia aps terem derrubado 
o Muro de Berlim. Dois meses depois recebi uma carta de um americano. Ele mandou dinheiro, documentos e passagem de avio. Fui para Chicago e nos casamos."
"E ele morreu?"
"Est mortinho", disse Natasha. "Era um idiota. S mesmo um idiota ligaria o aparelho de barbear dentro da banheira para morrer eletrocutado. Chorei muito tempo 
pela morte dele."
''Voc? Chorou? Agora tenho certeza que est mentindo." Penny balanou a cabea e riu.
"T bem, a parte do choro  mentira", Natasha admitiu.
"Voc no vai contar pra mame que encontrei.o Bram, no ?"
Elas ouviram uma porta batendo.
"Tem algum aqui", disse Natasha.
"Eu chamei a Vita", Penny comentou.
''Voc no pode contar pra ela!", Natasha foi incisiva.
"No vou contar!"
"Eu vou me livrar dela."
Penny no gostou de como a frase soou. Natasha, ento, corrigiu:
"Vou pedir pra ela ir embora."
As duas mulheres se espremeram para sair ao mesmo tempo pela porta e se apressaram pelo corredor, disputando a escada principal.
"Pra de empurrar", Natasha falava.
"Sai da minha frente", Penny replicava.
Esse mesmo clima era compartilhado pelas duas outras mulheres que se engalfinhavam para subir a escada.
"Voc no pode me deter", Vita dizia, subindo.
"Esta casa  minha", Esther rebatia.
Todas elas se encontraram no hall do segundo andar.
"Sua me e Keith Shiraz estavam se agarrando l no saguo do Plaza", Vita falou para Penny.
"No estvamos nos agarrando, no!", exclamou Esther. "Estvamos nos despedindo com um beijo."
"Ele estava de pau duro!", Vita declarou.
"E voc no devia ficar olhando a virilha dos homens", disse Esther.
"E quem disse que eu podia evitar? Aquilo era um pau-de-sebo. Uma tora de carvalho. Ele podia at furar meus olhos com aquela coisa."
"Tal pai, tal filho", Penny comentou.
Esther corou e disse:
"Essa conversa  grosseira e imprpria; no quero mais ouvir uma s palavra. Natasha, me acompanha at a cozinha? Estou morrendo de fome."
"Pensei que voc tinha sado para jantar", disse Penny. ''Algumas horas atrs."
"O que voc est querendo dizer?", Esther rebateu.
"Esquece o que eu falei", disse Penny.
Esther abriu a boca para falar, mas as palavras no saram. Talvez porque no soubesse o que dizer ou porque estava faminta, embaraada e confusa para se defender. 
Ela parecia triste, emocionalmente desgastada.
O corao de Penny se apertou. Ela pensou: Mame estava parecendo to velha!










































Captulo 23

MEIA-NOITE. S MAIS DOZE HORAS, Bram pensou debaixo do chuveiro, enquanto se ensaboava com o aromtico sabonete liquido da Barbie. Se fosse necessrio, ele agentaria 
mais doze dias, mais doze semanas.
Mas se tudo sasse como previra, estaria livre na metade de um dia.
 O perfume do sabonete o levava de volta  coleo de figurinhas de beisebol, s bicicletas e aos skates. Na poca em que ele no ligava para as meninas - nem tinha 
que lidar com suas mes patolgicas e possessivas.
O primeiro ato de Bram como homem livre? Ele se deleitava ao imaginar a contratao de uma equipe de advogados. A arregimentao de algumas testemunhas e psiquiatras 
capazes de declarar que Esther Bracket era demente, mas responsvel por suas aes. E se divertia ao imaginar o sbito aparecimento dos homens da SWAT fazendo o 
cerco a Esther Bracket no instante em que ela tomava ch no solrio. 
Bram ria e se ensaboava. Limpava minuciosamente as costas e as pernas. Desde a sua captura dois dias antes, pela primeira vez se sentia bem, limpo, purificado.
Mas quando ele ouviu um rangido e o som de passos no quarto de brinquedos, a magia do banho se quebrou.
"Merda!", disse para si mesmo, pulando fora do chuveiro e do banheiro e dirigindo-se para o quarto, onde se chocou contra a porta que se fechava. A coliso se deu 
bem na hora em que a porta se trancava, e ele quase tropeou na nova bandeja. A comida estava empilhada numa montanha de protenas, com uma batata sobressaindo precariamente 
no topo.
Bram investiu contra a porta trancada e lhe deu uma ltima pancada com a mo. E fez tudo que pde para se cobrir com as mos (grandes, mas inadequadas para essa 
funo) na longa jornada de volta  privacidade do banheiro.
"Da prxima vez, te pego", ele prometeu.
Sem resposta, retornou ao chuveiro.
Ouviu um outro rangido e passos vindos do quarto de brinquedos.
"Porra!", ele gritou. Com xampu nos olhos, correu novamente para o quarto com os braos esticados e o pnis balanando entre as coxas. Agarrou a maaneta e tentou 
gir-la. Mas seus dedos estavam escorregadios. A porta bateu mais uma vez. O som da chave que travava a fechadura era bem claro.
"Espero que voc esteja se divertindo!", ele berrou enquanto tentava esconder outra vez as partes ntimas com as mos.
"D uma olhada no saco", disse uma voz.
"Que saco?", ele perguntou.
"Perto da bandeja", disse a voz. Ela continuava distorcida, mas naquela noite estava mais leve. Mais amistosa.
Bram olhou para o cho e l estava uma sacola de compras com o logotipo The Pampered Pup. Olhou para dentro dela. De cara, viu uma toalha de banho branca e limpa, 
que enrolou na cintura. Depois, um barbeador, creme de barbear, escova de cabelo, escova de dentes, um jeans limpo, uma camiseta e um par de cuecas. Cada item, exceto 
a toalha, viera de sua mala.
"Muito obrigado", ele disse sorrindo na direo do espelho.
Nada. Aproximou-se do espelho e pela milionsima vez tentou vislumbrar o que estava atrs, do outro lado. Mas s pde ver seu prprio reflexo (visivelmente mais 
largo). Recolheu ento o barbeador e o creme de barbear e levou-os para o banheiro.
"Voc  bem-vindo", ela disse com suavidade, com terna reflexo.
Pego de surpresa, Bram girou rapidamente. A toalha se desprendeu e caiu aos seus ps.
"Sua atmosfera  reveladora", ela disse, rindo das tentativas que ele fazia para se cobrir. "Vamos conversar."
"Sobre minha libertao?"
"Vamos chegar l."
"Fiz uma descoberta fascinante", Bram falou enquanto se sentava na cadeira.
"Ento, conte."
''A tecnologia do chega-de-lgrimas realmente funciona. O xampu da Barbie  to suave nos olhos quanto a gua pura."
Ela riu. O som da risada o deixou aquecido e aliviado, como o banho quente que acabara de tomar. Era uma sensao estranha, pois Esther Bracket era sua inimiga declarada. 
A risada de Penny  que costumava aquec-lo por dentro. Nada mais lgico que me e filha tivessem o mesmo timbre.
"Nunca tinha ouvido voc rir", ele disse. "Devia fazer isso mais vezes."
Ela ignorou o comentrio.
"Voc falou com algum sobre a sua deciso de abandonar Penny?", ela perguntou. "Um amigo, um psicanalista, seu pai?"
Bram cruzou as pernas e discretamente puxou a toalha at os joelhos.
"No falei com ningum."
"Por qu?", ela inquiriu em tom gentil. " difcil tomar uma deciso to importante sozinho."
"Achei que ningum entenderia."
"Por que voc no conversou com a Penny?"
Ele balanou a cabea.
"Se eu contasse o meu problema pra ela, a situao ficaria pior."
"Voc ter que se explicar."
"No posso", ele falou e levantou-se, mostrando desconforto com a conversa. "Tenho que me barbear e me vestir."
"Est bem", ela disse.
Interrupo na esttica.
"Espera", ele disse repentinamente, diante da perspectiva de ficar mais tempo sozinho (como ele tinha ansiado por uma conversa!).
O sistema de som foi outra vez ligado.
"Sim?", ela disse.
"Eu posso explicar."
"Mas?"
" pessoal."
" claro!", ela exclamou, paciente.
"Voc me odeia", ele acrescentou.
"Todo dio comea com um mal-entendido."
Bram almejava compreenso. Sofrera na tentativa de encontrar um confidente. Alguns meses antes do casamento, ele chegara at a pensar em procurar um psicanalista. 
Mas sabia perfeitamente que qualquer terapeuta o faria compartilhar seu problema com Penny. Noite aps noite sentava-se  mesa com Penny para jantar o que ela preparava 
com tanto amor, sentindo a preocupao dela com sua aprovao e seu silncio a cada garfada. A presena de Penny o paralisava.
"Se voc confiar em mim", disse a voz de Esther Bracket, "eu te solto".
"Quando?"
''Amanh de manh", ela respondeu em tom tentador.
Ela estava mentindo. Mas isso no importava. De um jeito ou de outro, ele fugiria nas prximas doze horas. Ela no fazia a mnima idia do inferno que a esperava 
e de como Bram gostaria de desabafar, mas ele no podia.
''Agora estou muito cansado", ele se desculpou. "Mas podemos, nos encontrar amanh na hora do almoo. Explicarei tudo. Inclusive as agresses em Penny."
"Ento, temos um encontro."
"E agora j posso me vestir pra isso", ele apontou para as roupas recm-chegadas. "Pensei que voc me tiraria o resto de dignidade no me permitiria vestir roupas 
limpas."
"Os planos mudaram", ela disse. "Decidi ser boazinha."
"O que no devo ter feito para merecer..."
"Boa noite", ela interrompeu e desligou o som.
Bram esperou por um minuto mais, e depois percebeu que ela se fora. Naquela noite ela lhe pareceu quase humana. As roupas limpas e o tom amistoso suavizaram a antipatia 
que sentia por ela. 
Ela me golpeou com toda a frieza e me trancou, ele se lembrou.
Depois de se barbear, Bram desdobrou o jeans para vesti-lo. Alguma coisa pesada estava oculta no meio da cala dobrada. Uma fotografia emoldurada.
Ele olhou para a foto de Penny vestida em roupas esportivas, tirada no dia em que ficaram noivos. Passou o dedo polegar pela moldura e pelo sorriso de Penny. Ela 
estava linda, especialmente naquela tarde: fresca como a brisa de outono. Ps a foto na mesa, terminou de se vestir e pegou a bandeja. Enquanto ingeria o seu terceiro 
jantar, a foto de Penny em cima da mesa sorria para ele.
Naquela foto, Penny no o deixava preocupado nem desconcertado. Era tudo com que ele sempre sonhara. Ela e ele, simplesmente, um ao lado do outro, compartilhando 
o espao e a vida. Duplicando a alegria e dividindo a dor. Ela no tinha que preparar o jantar dele, nem chupar o pau dele, nem lavar as meias dele. Para ele se 
sentir imensamente feliz, transbordando de felicidade, bastava ela estar com ele. Bastava a danarina traquinas que podia se dobrar em formas surpreendentes e depois 
desfaz-las.
Depois de comer os brcolis embebidos em molho holands congelado, Bram raspou o excesso de molho com pedaos de po. Ele sorria para a foto de Penny, curtindo-a 
em duas dimenses e lastimando o que eles tinham perdido naquele grande dia.













Captulo 24

"DESCULPE POR TELEFONAR TO cedo", disse Keith para Esther, que na noite anterior tinha conversado com Natasha at altas horas. 
Ela olhou o despertador na mesa-de-cabeceira. Nove horas.
"No tem problema", ela respondeu ainda grogue de sono.
"J sei onde Bram est", Keith anunciou com alegria.
A afirmativa despertou Esther como um ataque areo.
"Estou abobada", ela disse.
" chocante", ele concordou.
"Nem sei o que dizer", ela gaguejou.
''Vai se vestir", ele disse. "Estou indo pra a."
Um suor repentino fez o telefone escorregar dos dedos de Esther. Hora de assumir a responsabilidade. Ela esperava que o preo no fosse alto. Talvez tambm pudesse 
golpear Keith e deixar os dois no tico...
"Vou me arrumar", ela falou.
"Te vejo em dez minutos", disse ele, desligando o telefone.
Nove minutos depois ela estava com um lindo vestido de vero branco e sandlias de salto, e segurava um castial de ferro. 
Keith chegou e buzinou.
Natasha espionava pela janela da frente.
"Ele est acenando que voc saia."
"Ser que devo golpe-lo?", perguntou Esther.
"Primeiro oua o que ele diz", respondeu Natasha. "E segure o castial atrs de voc."
Esther assentiu e abriu a porta da frente. Keith acenava do carro:
"Depressa, Esther. Temos que ir."
"Pergunte pra ele aonde vocs vo", Natasha sussurrou.
"Aonde vamos?", Esther gritou.
''Vem logo", ele disse.
"Um minutinho s", pediu Esther, fechando a porta para confabular com Natasha.
"Ser que ele acha que o Bram est em outro lugar e no aqui?", ponderou Esther. "Talvez queira me levar at um beco escuro pra me fazer uma oferta irrecusvel."
"Ponha o castial na bolsa", Natasha ordenou.
"Boa idia", Esther concordou. "Se eu no estiver de volta em algumas horas, prepare um drinque 'especial' para o prisioneiro."
Natasha assentiu com seriedade.
"Cianureto ou estriquinina?"
"O que tiver o pior sabor", respondeu Esther.
Ela ajeitou um leno de seda na cabea, guardou o castial na bolsa, respirou fundo e se dirigiu ao carro de Keith. A aventura matinal seria um teste para o seu 
brio. No estava segura quanto  sua fora (o castial era pesado).
Keith se mostrou radiante quando Esther entrou no carro, e pulou em cima dela para beij-la com ardor, deixando-a amassada como uma sanfona de papel.
Um som estridente ecoou do rdio do carro.
"Charlie, aqui, senhor."
Keith pegou uma espcie de microfone.
"Fale, Charlie."
O rdio emitiu:
"Radar checado. Melhor rota para Manhattan: rota 24 at 109, em frente pela Pulaski Skyway at o tnel Holland. No h engarrafamento no tnel".
"Entendido."
"Desligo", o tal Charlie concluiu.
"Ento vamos para a cidade", Esther falou enquanto ajeitava o cinto.
Keith manobrou o carro e desceu pela rampa.
"Se voc quiser se divertir, no se acanhe em me masturbar."
"De dia, no", recusou Esther.
"Ento alguma coisa me aguarda no caminho de volta", sorriu ele.
A viagem at Manhattan durou cerca de quarenta minutos. Esther aproveitou o tempo para saber como Keith tinha localizado Bram.
"Notei que Morris estava sabendo de alguma coisa", disse Keith.
"Depois que voc e a amiga de Penny saram do hotel na noite passada, convidei-o para tomar um drinque comigo."
"E voc cochichou no ouvido dele?"
"S um pouquinho", ele disse. "Com uma dose de gim tnica, Morris solta logo a lngua. Ele no resiste a mim. Eu o conheo desde que tinha trs anos. Sou como um 
segundo pai para ele." Keith praticamente se contorcia de prazer com seu trabalho de detetive, e se excitava com a perspectiva de encontrar o filho (o que Esther 
sabia que no aconteceria).
"Que foi ento que o Morris disse?", perguntou Esther, com um alvio que crescia  medida que a histria se desenrolava.
Keith deve ter sentido a tenso de Esther, uma vez que pousou a mo na coxa dela e afagou-a.
"Por que voc no relaxa? Recoste a cabea no assento", ele falou. "Assim no posso olhar esse pescoo maravilhoso."
Ela encostou a cabea no assento, deixando o pescoo  mostra.
"Chegamos ao bar e sua amiga Ashley ainda estava l; enfim, mais uma vez tive que ser rude com ela para poder ficar sozinho com Morris", ele disse.
Ela balanou a cabea.
"E o que Morris contou?"
"Parece que ele e o Bram tinham um plano", disse Keith, desenrolando um pouco mais a histria, "de se encontrarem na cidade, na manh de domingo - hoje -, no apartamento 
de Bram. Morris tem a chave. Bram entraria em contato com ele entre a noite de sexta-feira e esta manh. Morris teria que ficar em Short Hares, de olho em todo mundo. 
Para observar se a barra de Bram estava limpa, j que ele teria que ir para o esconderijo."
"Desculpe, Keith, mas seu filho  um fuinha."
"Vamos dizer isso pra ele. Eu e voc. Ns  que vamos ao encontro de Bram, no Morris. Vamos obter todas as explicaes que merecemos, e depois o levaremos para 
se desculpar com a Penny. Quero arrumar essa baguna", ele disse. "Para o nosso bem."
Eles eram um "ns"? Esther engoliu em seco.
"Quer dizer que ele est escondido no seu prprio apartamento", ela disse, fingindo-se surpresa. "Esse tempo todo esteve no lugar mais bvio!" Ento, o grande plano 
dele era voltar pra casa? Bram no passa de um doidivanas imprestvel, ela pensou.
"Morris prometeu no falar sobre a mudana de plano para Bram", disse Keith em triunfo. "Ele no sabe que estamos indo para l!"
"Que bom", Esther falou, em meio ao eco do ronco dos motores dentro do tnel Holland.

Keith ps o dedo indicador nos lbios, posio internacionalmente conhecida por "silncio". Enfiou a chave na fechadura do estdio de Bram, no SoHo, girou-a e depois 
abriu a porta.
Ele entrou no estdio, gritando:
"Ei, sumido!"
Silncio profundo.
"Talvez tenha sado para tomar o caf-da-manh", disse Esther.
"Estamos um pouco adiantados. Ele e Morris se encontrariam s dez", Keith olhou o relgio.
"Podemos esperar ou voltar mais tarde."
"Se esperarmos perdemos o fator surpresa." Keith parecia ansioso para pr as mos no filho.
"Ento, vamos."
"No", ele disse. "Ele pode nos ver saindo do prdio.  melhor esperar. Pega uma cadeira e senta, enquanto fao um caf."
Esther sentou-se em uma cadeira de uma mesa de jantar dos anos 1950, em tons de azul e prata. Era um conjunto original, no uma reproduo barata, e Esther ficou 
bem impressionada. Seus olhos percorreram o aposento arejado e claro. O relgio de parede com motivos celestes, o fogo e a geladeira retr. A cama era suspensa, 
engenhosamente construida com uma nica viga de sustentao. Esther sups que tinha sido construida pelo prprio Bram. E ainda havia um sof Noguchi verde-claro 
de linhas curvas, que combinava com uma mesinha de vidro (Esther achou que a moblia era original), elegantemente disposta sobre um tapete branco felpudo. As prateleiras 
(tambm feitas  mo) numa das paredes estavam repletas de livros, objetos, CDs e DVDs. Abarrotadas, mas no bagunadas. Na pia, nenhum vestgio de loua suja. O 
apartamento estava limpo e arrumado, impecavelmente decorado. Quem entrasse ali certamente diria que o morador era um homem refinado e talentoso. Qualquer um pensaria 
isso.
Keith estendeu-lhe uma caneca estilizada e encheu-a com o caf que tinha feito num bule Robert Graves. Sentou-se  mesa com uma caneca igual  de Esther e tirou 
acar de um aucareiro quadriculado kitsch, em azul e branco.
"Eu queria que ele estivesse aqui", ele disse com pesar.
Esther sentiu pena de Keith. Ele estava com saudade do filho. Uma saudade enorme de Penny apertou seu peito. Lamentou por no ter acordado a filha antes de sair 
de casa naquela manh.
"Ele vai aparecer", ela disse.
"Quando?", perguntou Keith.
Esther engoliu em seco.
''A qualquer minuto."
Ela teria que libertar Bram. Nesse dia mesmo. Aquilo tinha ido longe demais. J havia expressado o seu ponto de vista. Bram tivera o que merecia, e ela tambm teria. 
A verdade viria  tona. Certamente Keith a odiaria. O "ns" que havia entre eles logo se desvaneceria.
"Gosto realmente de voc, Keith", ela falou.
"Tambm gosto de voc, Esther", ele rebateu. "E gostaria que o nosso caso tivesse comeado longe de toda essa confuso."
Se ele fizesse idia do tamanho da confuso...
Tomaram o caf de mos dadas.
"J passa das dez." Keith levantou-se e atravessou o estdio.
"Vamos esperar mais alguns minutos", ela sugeriu.
"Vou urinar", ele disse.
Esther ruborizou. Ele tinha sido grosseiro. J que estavam to prximos do rompimento, pelo menos ela poderia se poupar do dia-a-dia de urinadas e cagadas.
"Esther, veja isto aqui", ele chamou-a do banheiro.
"Nem pensar."
"Bram deixou um bilhete."
Um outro bilhete. Bram era um autntico manaco postal. Esther foi ao banheiro. Keith estava na frente de uma bancada incrivelmente branca iluminada por spots dourados. 
Ele apontou para um envelope encostado atrs das torneiras.
No envelope se lia: No Caso de Eu No Estar Aqui.
Curioso, Esther pensou. Quando ele deixou isso a? S pode de ter sido antes de sua ida para Short Hares, na quinta-feira.
"Ele no est aqui", disse Keith. "Ento, vou abrir." Ele pegou o envelope.
"Claro que  um bilhete para o Morris. Temos que entregar pra ele", disse Esther.
"No est endereado ao Morris", ele se justificou.
E rasgou o envelope, retirando duas folhas brancas escritas com tinta preta.
" a letra de Bram, sem dvida", ele disse.
Enquanto Keith lia a carta, Esther olhava o rosto dele refletido no espelho. Seus olhos e suas sobrancelhas denotavam concentrao. De suas narinas saam rajadas 
de vapor que embaavam o espelho.
"O que ele diz?", ela perguntou de maneira tentadora.
Keith olhou-a com expresso severa.
"Leia voc mesma", ele disse, entregando-lhe a carta.

Para Quem Possa Interessar

Escrevo - nesta manh de quinta-feira antes de ir para Nova Jersey - e ainda no me decidi sobre o que fazer. Se eu cair fora do casamento, certamente esta carta 
ser destruda amanh. Se me casar com Penny, eu a destruirei aps a lua-de-mel. No entanto, se esta carta for encontrada e lida por uma outra pessoa, isso s pode 
significar uma coisa: no consegui retomar para o meu apartamento. Alguma coisa ruim aconteceu.
Se eu abandonar a Penny, talvez esteja pondo em risco a minha integridade fsica. Na famlia dela existem pessoas que podem me fazer mal. Esther Bracket, por exemplo: 
ela me odeia e deseja me ver morto. Acredito que ela pode fazer isso.J matou antes. Pesquisei as circunstncias da morte do marido dela. Li os registros da polcia 
e todos os jornais que noticiaram o caso. Foi uma morte tida como acidental, mas somente por causa da escassez de provas. A polcia achava que Esther Bracket tinha 
motivos para assassinar o marido, mas ela no ficou entre os suspeitos porque tinha um libi. Penny, na poca com oito anos de idade, no seria uma testemunha confivel.
Eu ainda temo a vingana de Natasha Molotov, urna mulher que tambm investiguei. Acredito que ela tambm  uma assassina. O marido dela, Stanley Gorp, de Evanston, 
Illinois, morreu eletrocutado na banheira. A polcia suspeitou de Molotov, mas no conseguiu provar sua culpa. Ela s permaneceu em Illinois at receber o dinheiro 
do seguro de vida, e depois se mudou para Nova Jersey, onde se reuniu com sua prima, Alexia Flushenko, uma russa que tambm se casou por correspondncia. O dinheiro 
do seguro no durou muito tempo. Ela empregou-se na casa de Esther Bracket e apegou-se  nova patroa.
Penny no sabe que investiguei a me dela e a empregada. Rogo a Deus que tudo isso seja mera especulao de minha parte. Tenho certeza que ningum ler esta carta. 
Quando eu chegar em casa, vou rel-la e dar boas risadas pela minha parania. De qualquer forma, tinha que escrever a minha teoria.
Se eu fugir do casamento e desaparecer, procure os meus restos mortais na manso de Esther Bracket; em Overlook Lane, Short Hares, Nova Jersey.

Cordialmente
Bram Shiraz

Esther encarou Keith, rindo com nervosismo.
"Bem, esta carta diz tudo", ela falou.
"E o que ela diz?", Keith perguntou entre dentes.
"Que Bram  alucinado e paranico", ela afirmou. "Ele no est bem. Temos que encontr-lo e lev-lo para um terapeuta;  claro que ele precisa de ajuda."
Se ainda havia alguma culpa em Esther pelo que fizera com Bram, essa culpa sumiu. O merdinha, ela pensou. Agresso e seqestro era uma coisa (quer dizer, duas). 
Assassinato j era outra histria. Oh, quanto ela no daria para peg-lo outra vez. E desta vez o acertaria com muito mais fora.
"Ele me parece sadio", disse Keith.
"E me acusa de assassinato!"
"Eu sei, eu li", Keith rebateu, pegando a carta de volta.
"Meu marido caiu de uma mureta. Umas doze pessoas testemunharam."
Keith no conseguia olhar para ela.
"Vamos esperar mais dez minutos. Se ele no passar por aquela porta, vamos para sua casa e vou vasculhar cada canto dela."
"No posso acreditar no que estou ouvindo!", disse Esther. ''Voc acha mesmo que sou capaz de matar?"
"Com um bom motivo, qualquer um  capaz de qualquer coisa."
Embora ele estivesse absolutamente certo, Esther se ofendeu ao ouvir isso.
''V em frente", ela disse. ''Vasculhe a minha casa. Acabe com meu jardim, esvazie a piscina: Eu s preciso dar um telefonema, se voc me der licena."
Ela saiu a passos largos do banheiro (o mais rpido que pde), sentou-se  mesa e procurou o telefone dentro da bolsa. Depois de encontr-lo, comeou a discar para 
casa.
Keith, que a seguira, interveio:
"Nada de telefonemas." Ele arrancou o telefone da mo dela. "E o que voc me diz de Natasha Molotov?"
" a nica pessoa que nunca me traiu", ela respondeu, mal conseguindo falar. A raiva a tomava da cabea aos ps. Bram era psictico ou brilhante? De qualquer forma, 
ela o odiava ainda mais. Ele previra o prprio seqestro antes que ela botasse os olhos nele. Ele no podia se atrever a antecipar as aes de Esther antes que ela 
agisse! Isso era uma invaso de privacidade.
"J so 10:45", disse Keith com seriedade. ''Vamos embora."
Assim que Esther se levantou, sua bolsa balanou e derrubou a caneca de caf. Foi com prazer que ela olhou a caneca estatelar-se no cho e derramar o lquido marrom 
sobre o tapete felpudo.












































Captulo 25

DEPOIS DE ACORDAR, TOMAR BANHO e se vestir, Penny correu at a cozinha a fim de preparar a bandeja de Bram. Natasha estava arrumando-a, enchendo uma molheira, quando 
Penny irrompeu pela porta.
"Como  que voc sabe qual  a hora certa de levar a bandeja ao quarto de brinquedos?", perguntou Penny.
"Observo, esperando ele entrar no banheiro", disse Natasha enquanto elas subiam para o tico com Boris trotando atrs. "Ele est comendo muito, e por isso vai muito 
ao banheiro. Ele sempre fecha a porta."
Penny j sabia desse detalhe. Bram no abria mo de sua privacidade no banheiro. Ela sempre achou que isso era mais uma forma de mant-la  distncia, negando-lhe 
a intimidade completa que ela desejava.
Estacionadas na sala de controle, Penny e Natasha tiveram que esperar durante uns dez minutos com o sistema de som desligado, at que Bram entrasse no banheiro. 
Penny segurou Boris no colo e Natasha, esperta como uma raposa, abriu a porta do quarto de brinquedos e deslizou a bandeja para dentro.
Bram deve ter ouvido a porta se abrir. Saiu s pressas do banheiro, com as calas arriadas, e correu na direo dela, na tentativa de segur-la antes que se fechasse. 
A pressa fez com que ele tropeasse nas calas e casse a poucos centmetros da porta. Ele esmurrou o carpete, gritando "PORRA!" (penny nem precisou ouvir para entender 
o que tinha acontecido.) Depois, ele levantou as calas, voltou para o banheiro e bateu a porta atrs de si.
Natasha retomou  sala de controle.
"Ele sempre faz isso", ela disse com displicncia. "No vai aprender nunca."
"Tambm acho", disse Penny.
"Olha, tenho coisas a fazer, pessoas para ver", a russa acrescentou, "e vou levar o Boris comigo."
"Que timo", disse Penny. "Ele  adorvel, mas muito carente."
''Voc vai ficar aqui?"
"S alguns minutos."
"Vai falar com ele?"
Penny negou com a cabea.
"S vou espiar. Ele  meu reality show particular."
Natasha apertou a bochecha de Penny de modo amoroso, embora dolorido, e depois saiu. Penny se ps a ouvir o barulho dos saltos plataforma at que sumisse completamente. 
Esperou ento que Bram sasse do banheiro. Depois, ligou o microfone e falou com ele.
"O almoo est servido." Ela ainda ajeitava o microfone para encontrar um tom agradvel.
"Que horas so?", ele perguntou de maneira trivial, sem olhar para o espelho, ignorando a comida.
"Meio-dia."
Ele fechou a cara.
"Tnhamos um encontro, lembra?", ela disse. "Ou talvez voc j tenha feito outros planos."
Ele caminhou com lentido, revolvendo os cabelos.
"Voc prometeu revelar os motivos que o fizeram abandonar Penny. Depois, eu te solto", ela o relembrou.
"Est certo."
"O que voc tem a perder?", perguntou Penny.
"Voc podia me soltar, primeiro", ele finalmente se manifestava, "e depois eu contaria tudo."
"Voc pode entender a minha relutncia."
"E voc tambm pode entender a minha."
"Estou vendo que estamos num impasse."
"Com certeza", ele concordou.
"Sem essa, Bram.  s voc admitir que abandonou a Penny porque estava com medo do compromisso."
"Isso  tolice."
"Voc a deixou porque odeia a me dela, quer dizer, eu! Voc me odeia, e no quis entrar para a nossa famlia."
"Odeio, sim", ele disse. "Mas imaginei que, se no fosse morto por voc, isso s me tornaria mais forte."
"Ento, voc  um bastardo egocntrico. E se acha melhor que a Penny. Acha que ela no  boa o suficiente para voc. Ela sabia disso o tempo todo. Na verdade, voc 
nunca a amou."
"Cala a boca!" O grito dele provocou um zumbido no sistema de som. "Ela  que no me amava!"
Penny esfregou o ouvido com o dedo indicador. Achou que no tinha ouvido bem.
"Ela o amava. Era loucamente apaixonada por voc."
"No me amava, no. Alis, ela no me ama. Ela pode at tentar se enganar, mas sei o que ela realmente sente."
"Seu arrogante de merda. O que  que o faz pensar que voc conhece a Penny melhor que ela prpria?"
"Ela  uma farsante!", ele afirmou. Ergueu-se, nervoso, e comeou a andar. "Uma falsa. Mentia pra mim nas horas em que a verdade mais importava."
"Quando ela dizia 'eu te amo', ela estava sendo honesta."
"Penny. Farsante at nos orgasmos", ele disse deliberadamente. "Fora uma ou duas vezes em que ela estava cansada ou bbada. Durante todo o tempo em que estivemos 
juntos, ela fingiu noite aps noite."
O sangue fugiu do rosto de Penny. Da cabea inteira. Ela se viu  tonta e desorientada, com medo de desmaiar ou morrer de vergonha.
Bram continuava a falar sem clemncia:
"Ela fingia na cama, uivando e gemendo. Atuava tanto que merecia ganhar centenas de Oscars. E no fim perseverava com as mentiras, dizendo que a terra tinha tremido 
ou que ela tinha visto cores e estrelas. E tambm tinha a mania de fazer juras de amor."
No console, Penny gelava, incapaz de falar, de se mover, de respirar.
"Al, voc ainda est a?", disse Bram.
"Uhh", ela forou um grunhido.
"A verdade  foda, no ?", ele falou. "Eu me sentia constantemente um fracassado. Isso me corroa. Quanto mais se desenvolvia a farsa, mais difcil ficava enfrentar 
o problema. Tentei racionaliz-lo. Que diferena isso faria, se eu a amava e ela estava disponvel para o sexo toda vez que eu queria? E se ela estava feliz com 
a situao, eu tambm poderia conviver com o problema. Mas quando a data do casamento se aproximou, percebi que no conseguiria levar o fingimento adiante da mesma 
forma que ela. Para mim, no bastava am-la e desej-la, se ela no me amava, no me queria com a mesma intensidade. Ento, comecei a duvidar da integridade dela. 
Como  que ela podia manter uma farsa como aquela? Por que se casaria com um homem que no a excitava?"
"Como  que voc podia ter tanta certeza da farsa?", ela perguntou em um tom to frgil quanto uma casca de ovo.
Bram deu um suspiro.
"Voc precisa realmente que eu explique, Esther? Voc  mulher. Existem sinais fisiolgicos."
"Tais como?"
"Contraes vaginais, rubor facial, intumescimento dos mamilos; notei tudo isso nas outras mulheres que tive. Conversando com meu amigo Morris, ele disse que isso 
varia de mulher para mulher. Ento resolvi pesquisar e consultar alguns ginecologistas. Todos foram enfticos: sem contraes no h orgasmos. O orgasmo  definido 
pelas contraes provocadas pela estimulao do clitris, e o clitris no  aquilo que a maioria das pessoas pensa. No  s a protuberncia que se v de fora. 
Ele tem a forma de um garfo com dois dentes que..."
"Voc conversou a respeito com o Morris?", ela disse. "Mas nunca disse uma palavra pra mi... Penny. Devia ter falado pra ela."
"Falado o qu? 'Penny, amor de minha vida, sabe as centenas de vezes que voc gemeu, uivou e me arranhou como uma tigresa? Pois , era tudo uma grande merda!'"
Para Penny isso soava quase como um golpe mortal. Ela se sentia chafurdando na imundcie, coberta de vergonha. Como no havia outra opo, ela tambm se colocou 
na defensiva.
"E da se Penny fingia? Ela fazia tudo o que voc queria nan cama. E tambm fora da cama. Pelo que sei, voc nunca se ops  maratona de chupadas. E o que voc diz 
de todas as posies mirabolantes?"
"Penny te falou sobre isso?" Seu rosto ficou cor de cinza. ''Acho que vou passar mal."
"Entre me e filha no h segredos", ela mentiu de novo.
"Pensei que isso era privado", ele caoou. "Se Penny contou pra voc a nossa vida sexual, no sei por que se ofendeu por eu ter conversado com o Morris. Alis, j 
que estamos discutindo os detalhes prticos da questo, quero frisar que todas aquelas posies malucas foram sugeridas por mim pensando nela. S pra saber o que 
a deixaria feliz. E quanto s chupadas, eu sou humano! No ia virar as costas pra Penny. Alm do mais, ela se sentiria ofendida se eu recusasse. Ela gostava de fazer 
aquilo! Para ela, nossa vida sexual significava me dar prazer."
"Deve ter sido horrvel pra voc", Penny falou com sarcasmo.
"Olha, Esther, no sei que tipo de homem voc conheceu. Talvez isso seja alguma coisa de gerao. Mas o que me excita  dar prazer  mulher que est comigo. Eu e 
Penny ficamos juntos durante dois anos. Perguntei a ela milhes de vezes, de milhes de maneiras possveis, o que eu podia fazer por ela. Mas ela sempre desviava 
a ateno pra mim. E se para salvar a minha pele eu tivesse que responder o que deixa a Penny excitada, eu no saberia responder e acabaria morrendo."
A essa altura a vergonha de Penny era tanta que ela j estava achando que podia morrer, cair dura, dar seu ltimo suspiro. Bram parecia igualmente esgotado, mas 
aliviado. Ele tinha descarregado o seu fardo. Isso devia ter sido fantstico.
Ele procurou ginecologistas, ela se maravilhou. Ele havia pesquisado. Penny sabia que ele investigava -novas tcnicas sexuais - orais, tteis, genitais -, porque 
as experimentava com ela. E se cumprira com seu dever de casa, ela no devia estar ali achando que podia morrer de humilhao. Devia, sim, estar na sute nupcial 
do Short Hares Plaza fazendo amor com Bram, fingindo de maneira mais convincente.
"Voc vai me deixar sair, ou o qu?", disse Bram.
Penny ouviu vozes vindas do salo de entrada. Vozes que soavam cada vez mais altas. Ela desligou a aparelhagem e encostou o ouvido na porta da sala de controle. 
Ouviu as vozes de Esther e de um homem. Keith? Dava pra perceber que j estavam no segundo andar, discutindo.
Bram continuava a falar, sua boca se movimentava. Postado na frente do espelho, tentava enxergar o que havia do outro lado, e batia no vidro como se exigisse uma 
resposta.
As vozes soavam cada vez mais altas. Penny saiu da sala de controle, e Keith Shiraz j subia a escada na direo do terceiro andar. Esther estava um pouco atrs. 
Parecia transtornada, furiosa, praticamente em pnico. A certa altura Esther abriu a bolsa e tirou um grande castial negro de dentro.
Penny precipitou-se pelo corredor e disparou at chegar ao hall do terceiro andar, onde se deparou com Keith e se atirou em seus braos.
































Captulo 26

QUANDO SUA FILHA SE ATIROU NOS braos de Keith Shiraz, Esther Bracket se convenceu de que estava tendo uma alucinao. Primeiro, Penny sara s pressas da sala de 
controle, onde certamente flagrara Bram trancado no outro quarto. Alm disso, ela no exigia explicaes. Mais ainda, abraava Keith e se aninhava em seus braos 
como um gatinho, e fazia um sinal por cima dos ombros para que Esther abaixasse o candelabro.
"Keith!", disse Penny. "Justamente o homem que eu queria ver! Tenho pensado muito em como voc  maravilhoso, na sorte de Bram por t-lo como pai. E, quando ele 
aparecer, e vai aparecer, ele mais do que nunca vai precisar do seu amor e do seu apoio."
Esther se deu conta de que devia estar com uma aparncia de possuda, porque Penny dizia "est tudo bem" sem emitir palavras, apontando para o castial que ela ainda 
mantinha erguido na mo. Penny fez um ar de satisfao quando Esther abaixou o brao e sem fazer rudo deixou o castial em uma das mesas entulhadas do hall.
"Se como pai voc  para Bram metade do que minha me  para mim, ele deve ser o cara mais sortudo deste mundo", disse Penny.
Para aumentar ainda mais o assombro de Esther, agora Penny se afastava dos braos de Keith e o guiava de volta at a escada, afastando-o da porta do quarto de brinquedos. 
Ela continuava a divagar, excitada.
"Estou to feliz por vocs dois estarem se entendendo! Minha me j passou por maus bocados, Keith. Voc sabia disso? Mas, por mais que sofresse, ela no deixava 
de me amar e me proteger. No  fantstico como a fuga de Bram acabou unindo vocs?" Os olhos de Penny brilhavam com lgrimas (reais?) de alegria.
"Voc  um doce de moa, Penny. Bram  um verdadeiro idiota", disse Keith.
Um pouquinho barulhento, pensou Esther olhando a porta do quarto de brinquedos.
Keith deixou-se guiar at a escada, olhando s vezes para Esther.
"Eu tambm sou um idiota", ele acrescentou.
''Alguma coisa errada?", perguntou Penny.
"Nada", respondeu Esther.
Keith balanou vigorosamente a cabea, aproximou-se de Esther e lhe deu as mos.
"Est tudo errado. Cometi um tremendo engano. Estou morrendo de vergonha por ter duvidado de voc."
"O que est feito est feito", replicou Esther, descendo a escada.
"Esperem! O que  isso?" Ele pegou o castial. "H um minuto no estava.aqui."
"Fui eu que o coloquei a", disse Penny.
"Voc?"
"No fale com ele, Penny", Esther interveio. "Ele acha que sou capaz de cometer violncias. E que feri intencionalmente o Bram."
"O qu?", Penny gritou com dramaticidade, ao estilo de Vita. "Mame  uma pessoa carinhosa, gentil... ela odeia brigas. No mataria um inseto. Eu mesma j vi minha 
me capturar moscas e depois solt-las", e acrescentou, com uma dose extra de excitao: "Como voc ousa acus-la de tamanhas mentiras?!"
"Desculpe", Keith implorou. "Eu no estava na posse de meu juzo. Uma mulher to amada pela filha no poderia ferir ningum."
" isso mesmo", Penny assentiu. "Mas diga exatamente O que voc queria fazer quando subiu como um louco at o terceiro andar. Estava em busca de um... corpo? O cadver 
de Bram?"
Keith cobriu o rosto com as mos e disse:
''Nem sei como pedir desculpas. Isso agora me parece to insano!"
Esther e Penny cerraram os olhos, segurando Keith pelos braos, e praticamente o arrastaram escada abaixo at a porta de entrada da manso. Ele no parou de falar 
durante todo o percurso.
"Estou morrendo de vergonha pelo que pensei. Esther, me perdoa, eu imploro. Coloque-se no meu lugar! Voc seria racional se se tratasse da Penny?"
Elas o levaram para fora da casa e o acomodaram no carro.
"Aceito suas desculpas, mas acho que no podemos nos rever", disse Esther.
"Por favor, Esther", ele suplicava.
"Adeus", dizia Esther.
"Pensa mais um pouco! Estarei no hotel te esperando", ele insistia.
"Vamos jantar juntos. Promete que voc vai pensar no assunto."
"Vou pensar no assunto", ela disse antes de segurar a mo de Penny, entrar na manso e fechar a porta com todas as trancas. Depois, Esther sentou no cho. Penny 
sentou-se ao seu lado.
"No sei se devo lhe pedir desculpas ou me aliar a voc", ela disse.
"Eu seqestrei o seu noivo e mesmo assim voc me protege?"
"Eu devia agradecer... e fao isso agora", disse Penny. "Tudo o que voc fez, por mais ilegal e emocionalmente desequilibrado que fosse, voc fez porque me ama."
O sol entrava pelas janelas frontais. Os olhos de Esther se marejaram. Ela sorria para sua menininha. No mais to menininha, pensou consigo mesma.
Penny descansou a cabea no ombro da me.
"Preciso te falar uma coisa sobre o Bram."
"Voc nunca o amou de verdade?", Esther tentou adivinhar.
"Quando desloquei o maxilar", Penny falou. "Isso aconteceu porque eu stava chupando ele. Tentava quebrar o meu prprio rcorde de quarenta e cinco minutos. E Bram 
 um cara grande. Quer dizer, enorme. Redondo. Fazia uns vinte minutos que eu estava chupando ele quando o meu maxilar sofreu um espasmo e ouvi um estalo dentro 
de minha cabea. Bram me levou correndo para o hospital. Era preciso dizer alguma coisa, e a inventei que tinha levado um tombo e batido com o queixo numa quina."
"Ele a obrigou a fazer isso?", Esther se assombrou.
Penny negou com a cabea.
"Eu  que o obriguei a fazer isso. Fiz uma posio tntrica que arrebentou com minha coluna. Insisti em masturb-lo, e fiz um ngulo to extravagante que destranquei 
os pulsos. Bram nunca me bateu. Ele nunca conseguiria. Cortaria as prprias mos para no me bater."
"Ento, voc no caiu da escada", disse Esther.
"Eram ferimentos sexuais, mame", Penny repetiu. "Talvez agora voc entenda por que menti pra voc."
"Voc me deixou pensar coisas horrveis dele."
"Desculpa", disse Penny.
Apesar da decepo, Esther se sentiu profundamente aliviada. Muitas vezes fora quase impossvel se controlar para no resgatar a filha no meio da noite, por mais 
que ela insistisse na inocncia de Bram. E mesmo agradecida por saber a verdade, a idia de que Penny havia praticado certos atos deixava Esther nauseada. Ser que 
o sexo era um esporte radical para a gerao de sua filha? Ou Penny  que tinha gostos particulares?
"Eu tambm lamento muito por ter seqestrado o seu noivo", disse Esther.
"Se voc no tivesse feito isso, eu nunca saberia por que ele me abandonou."
"Ele contou pra voc?"
"Ele contou pra voc", disse Penny. "Confuso de identidades. Duvido que ele contasse se soubesse que era eu. Ele jamais contaria."
"E o que foi que ele disse?", perguntou Esther.
"Somente uma confisso por hora", Penny sacudiu a cabea.
"Se voc quiser, podemos soltar o bastardo."
"No podemos, no", Penny retrucou.
"Voc j viu como Keith Shiraz est perto de encontrar o filho", comentou Esther.
"Se o soltarmos, o que acontece?", perguntou Penny. "Com voc?"
Esther suspirou. Independentemente de quando e como o libertassem, ela teria que pagar por esse crime, talvez com sua liberdade, sua reputao e seus bens.
"No importa", ela disse.
"Voc bateu muito forte na cabea dele?", Penny quis saber.
''Acho que no deu pra causar dano permanente."
"Se o acertssemos de novo, talvez ele ficasse com amnsia e no se lembrasse de nada."
Esther riu.
"Eu tambm j pensei nisso. Mas como vamos acert-lo?"
"Vou fazer uma pesquisa no Google sobre amnsia", disse Penny. "E voc vai para o Plaza e cola no Keith."
"Pra qu?", Esther replicou. "Mais cedo ou mais tarde ele vai descobrir tudo sobre o filho."
"E da? Voc no precisa casar com o cara para transar com ele", disse Penny;
"Essa conversa no  apropriada", Esther respondeu com autoridade. "E, para sua informao, Penny, eu vivi nos anos 1970. O amor era muito mais livre que hoje."
"E quem est falando de amor?"
Esther ergueu as sobrancelhas.
''Agora virou cnica? Aos vinte e trs anos e j arruinada pelo amor?" O amor tinha destrudo Esther com a mesma idade.
"Se eu tiver um outro relacionamento, e tenho certeza que terei, s vou me preocupar com minha prpria felicidade", Penny afirmou. "Ora se vou!"
"Eu tambm vou", disse Esther. "Tomar um banho. Bem quente. Voc viu a Natasha por a?"
"Ela deu uma saidinha."
Curioso, pensou Esther. Natasha sempre desaparecia nessas misteriosas saidinhas. Talvez para gastar o salrio ern pedicures.
Esther levantou-se e subiu as escadas rumo ao seu banheiro. Depois, abriu as torneiras da banheira, despiu-se, soltou os cabelos louros e entrou na gua, mergulhando 
at cobrir a cabea.








Captulo 27

NENHUM HOMEM SABE DO QUE  capaz at passar por determinadas experincias. E agora Bram sabia; depois de ter confessado sua dor para a mulher que ele mais odiava 
no mundo, ele era capaz de chafurdar, de chafurdar mais do que podia imaginar. E atolou-se como se sua misria fosse um banho de espuma e ele estivesse coberto at 
a cabea.
Nesse estado pattico, ele assistira a dois filmes. Branca de Neve e (al, velha amiga) Cinderela.
Pssaros no chapu, ele resmungou consigo mesmo, esparramado no sof. Camundongos no vestido. Quando Cinderela estava trancada no tico, ela foi salva por um bando 
de pssaros e camundongos. E quando Branca de Neve se viu em perigo, um grupo de coelhos e cervos surgiu para salv-la.
Bram lembrou-se do dia em que ficara noivo de Penny. O dia da fotografia, quando eles foram perseguidos por um bando de esquilos idiotas.
Ele riu do festival de absurdos. Roedores falantes. Figuras maternas malvadas que trancavam inocentes em torres. Seu desejo era ter coragem de enfrentar Penny ao 
menos uma vez. Se houvesse uma chance, ele iniciaria a conversa. E se a verdade correspondesse  suspeita que tinha - de que Penny no se sentia atrada por ele 
-, teria acatado isso de bom grado. Se possvel, tentaria sanar o estrago causado pela sua fuga to deselegante.
Bram olhou o relgio pela centsima vez. Onde o puto do Morris se metera? quela altura j devia ter lido a carta a respeito de Esther Bracket e Natasha Molotov. 
J estava ficando tarde. Em poucas horas o sol se poria. Se Morris no chegasse com a cavalaria, ele mesmo colocaria em prtica o seu plano de fuga.
Bram esperou at ter certeza de que ningum o estava observando do outro lado do espelho. Desde a hora do almoo Esther no aparecera para falar com ele. Talvez 
estivesse ocupada planejando a morte dele. O trato de Esther - informao em troca de liberdade - era fictcio. Ele suspeitara disso desde o incio. Mas ela o havia 
forado e espetado tanto que ele ficou a ponto de explodir por dentro e danificar seus rgos se no colocasse a verdade para fora. Seus rgos j estavam salvos. 
E Esther devia estar se sentindo pressionada. Ele se tornara um problema crescente (especialmente a barriga).
Bram apagou as luzes. Tinha que agir no escuro. Usando uma chave de fenda falsa (um garfo entortado), retirou as estantes da parede. Arrumou-as no centro do quarto 
de maneira que formassem um H. Valendo-se dos livros do dr. Seuss, calou as prateleiras e fez o arranjo de uma base firme sobre a qual disps a mesinha branca com 
as duas cadeirinhas em cima. As cadeiras ficaram uma em cima da outra, de modo que ele pudesse chegar ao topo pondo um p em cada assento. Segundo os clculos dele, 
as estantes junto com a mesinha e as cadeiras poderiam elev-lo uns dois metros e meio acima do solo.
Embora a base das estantes no fosse to slida como ele esperava, Bram conseguiu subir e ficar de p sobre a mesa. Agora restavam as cadeirinhas. Um p para cima. 
E depois...
Argh!, ele grunhiu ao escorregar e quase derrubar a estrutura inteira. Calma, disse para si mesmo. Ps um p descalo (por causa da trao) sobre a primeira cadeira. 
Equilibrando-se, esticou-se e ps o outro p no centro da segunda cadeira. Endireitou o corpo e colocou-se ereto em cima das cadeiras que balanavam sob seus ps. 
Contando com sua prpria altura, ele agora estava a quatro metros e trinta e poucos centmetros acima do solo.
No ousou olhar para baixo.
Com os braos estendidos para cima, ele ainda estava a alguns centmetros do teto. Pegou a corda - feita com as cordas de pular emendadas - enrolada em seus ombros 
e esticou-a. Fez um lao em uma das extremidades. Depois, respirou fundo, ajeitou-se e jogou o lao na direo do trinco da clarabia. 
Errou. O movimento quase o fez cair de sua plataforma.
Segunda tentativa: fracasso total.
Antes de tentar pela terceira vez, Bram fechou os olhos e concentrou-se intensamente. Depois, lanou a corda.
O lao encaixou-se no trinco e ele puxou a corda com fora, para que ficasse bem presa. Gotas de suor e alvio jorravam de seus poros. Agarrou a corda para ver se 
ela agentava. Estava firme, mas suas mos estavam escorregadias para a escalada.
Secou as mos nos jeans. Segurou a corda com firmeza e comeou a subir. Graas s unhas resistentes e  moblia empilhada, a fora corporal de Bram na escalada era. 
extraordinria. Com movimentos rpidos das mos, ele galgou em poucos segundos a curta distncia percorrida pela corda. Agarrou com firmeza o caixilho da janela 
com os dedos e jogou as pernas para o alto, na tentativa de alcan-la com os dedos dos ps.
Bram precisou de toda a coragem para soltar uma das mos a fim de afrouxar o lao do trinco e for-lo a abrir-se.
Mas a janela estava emperrada. Ele quase chorou. Usava toda a sua fora, agarrando-se no teto como um gato, e utilizava todos os msculos dos ps e das mos para 
manter-se no caixilho da janela. Se desistisse, despencaria e quebraria a coluna.
Uma exploso de adrenalina o ajudou a golpear a janela com o brao, e ela finalmente se abriu. O lao se desprendeu do trinco e caiu no cho, l embaixo. O p direito 
de Bram tambm escorregou. O peso de seu corpo impulsionava-o para baixo, e ele comeou a cair, tentando se agarrar com as mos, e as pernas pedalando no ar.
Com um nico dedo ele conseguiu se segurar na borda da janela aberta. Ficou dependurado por esse dedo at poder agarrar a janela com a mo. Em seguida, firmou-se 
na borda com a outra mo, impulsionou os ps na direo da abertura e passou as pernas por ela at atingir o telhado da casa.
Depois de conquistar essa posio, ele passou o corpo todo pela abertura, com facilidade. E, exausto, viu-se em cima do telhado. O esforo lhe acelerou a respirao, 
e as batidas do corao martelavam em seus ouvidos. Ele ento rolou o corpo de modo que pudesse olhar para dentro do quarto de brinquedos pela clarabia aberta. 
L no cho estava a corda que ele havia emendado. O seu plano era us-la na descida do telhado.
Ele rolou de volta. Naquela hora as estrelas ainda no estavam visveis. Mas a vista do alto da manso era maravilhosa. Ele avistava toda a rea de Short Hares como 
se fosse a cena de um filme; as regies arborizadas pareciam pedaos de rvores de plstico, e as ruas iluminadas, uma rede brilhante. E tambm vislumbrava as casas 
dispostas em filas curvilineas, com suas piscinas que faiscavam em tons de azul.
Piscinas.
Sem a corda, a piscina era a nica sada. Bram se arrastou como um caranguejo ao longo do telhado at alcanar a beirada. Esticou-se pela calha, olhando para o lado, 
e viu a piscina da famlia Bracket. Parecia ideal para um mergulho. Um mergulho de trs andares.
Na poca do colgio Bram tinha pulado de um trampolim. Sua altura era de aproximadamente nove metros e meio. Mas agora o pulo seria de mais de quinze metros e meio.
Sem problema, disse para si mesmo. A garotada faz isso toda hora, com o p-de-anjo.
Ele viu de soslaio um esquilo no telhado, fuando em torno da clarabia aberta.
Antes voc do que eu, ele falou observando o animal entrar pela abertura.
Ele ficou em p na beirada do telhado. Olhou a superfcie macia da piscina. O reflexo das luzes no fundo lhe dava um brilho radioativo.
Bram protegeu o saco e pulou.












































Captulo 28

ANOITECIA. PENNY ZANZAVA PELA sute da me. Passara as ltimas horas em seu quarto relembrando algumas de suas melhores atuaes de orgasmo, dignas de um Oscar. 
A ironia  que ela achava que tinha sido boa nisso. Convincente, de um modo selvagem. Algumas vezes, durante os espasmos do falso clmax, ela chegou at, a pensar 
em largar a dana e tentar as artes dramticas para no desperdiar seu talento.
 claro que a confisso de Bram colocava em dvida as encenaes de Penny. Ela no havia enlouquecido a audincia de um nico espectador. O conselho de Vita, "finja 
e faa", nunca a convencera, mas ela continuaria tentando at que desse certo.  claro que tambm tivera orgasmos quando se masturbava ou ficava debaixo da torneira 
da banheira (naturalmente, ela sabia das contraes vaginais, s no sabia que Bram sabia). Mas na presena de um homem, ela no podia dar para trs. No s com 
ele, mas com todos aqueles com quem tinha transado. Como nos seus primeiros casos afetivo-sexuais ningum parecia se preocupar se ela gozava ou no, ela no precisara 
se esforar. Acontece que Bram se preocupava. E como se preocupava! Era incansvel quanto a isso. Era como se realmente ele estivesse numa misso. A presso no 
a deixava relaxar. Ele s queria saber de foderr, de sacudi-la, de mergulhar entre as pernas dela. E ela preferia no pedir que ele parasse, porque podia ser mal 
compreendida. O fingimento parecia ser a melhor opo.
E teve incio ento uma seqncia de decepes. Penny achava que vez por outra tinha orgasmos com Bram. Sentia uma atrao louca por ele e nunca se coibia de toc-lo. 
Sua pele se arrepiava quando era tocada por ele, e ela adorava a ejaculao dele, a sensao da ejaculao dele dentro dela. Ela acreditava piamente, do fundo do 
corao, que depois do casamento teria coragem para fazer algumas sugestes e mostrar o que lhe dava prazer. Talvez pudessem visitar uma loja ertica juntos. Almoar 
fora. Tirar um dia s para isso. E se notasse que ele no estava na dela,  claro que pararia por a. Teria sido uma longa conversa. Mas por mais que Penny se sentisse 
apavorada agora, ela tambm se sentia feliz. Tinha certeza que nunca mais fingiria. A verdade libertou-a. E o Bram?, ela se perguntava. Ele tambm se libertaria. 
Acontece que no era ela que tinha que decidir.
"Me?", ela chamou com suavidade.
"Estou aqui", Esther respondeu de dentro da suite.
Penny entrou no gigantesco banheiro.
"Voc est tomando banho desde que Keith saiu? Jesus, mame, faz algumas horas."
Esther estava confortavelmente instalada na banheira , coberta de espuma.
"Estou me sentindo como uma ameixa seca. Me passa aquela toalha."
Penny esticou a toalha para a me e se virou para a parede. Ouviu a me sair da banheira e depois se virou para olh-la. Esther enrolava-se na toalha branca e felpuda 
presa pelos braos. Seus ombros ainda midos eram largos e bonitos. Seu pescoo longo no era enrugado como na maioria das mulheres mais velhas. Penny sorria, observando 
as mas rosadas do rosto da me e as gotas de gua que desciam por sua testa. Ela nunca lhe parecera to linda. Muito mais jovem sem a maquiagem, sem o cabelo feito 
e as vestes talhadas.
''Algum sinal da Natasha?", perguntou Esther.
"No." Penny divagou por alguns segundos. "Eu s queria saber o que ela est fazendo. E com o Boris."
"E isso importa?", indagou a me, dando de ombros.
"Voc vai ao Plaza pra ficar com Keith?"
"Vou", disse Esther.
"Que bom!"
"J faz tempo que no fico com um homem."
"Voc est linda, mame", disse Penny. "Se eu tiver a metade de sua beleza na sua idade, estarei feita."
"No estou preocupada com minha aparncia", Esther replicou com um pouco de impacincia.
" como andar de bicicleta, mame."
"Embora o sexo seja uma lembrana opaca", dizia Esther enquanto se sentava em frente ao toucador para secar o cabelo, "no lembro de ter alguma coisa a ver com andar 
de bicicleta."
Penny riu. Queria perguntar  me se ela j tinha fingido, mas faltou coragem. A questo era muito constrangedora.
Esther parou de secar o cabelo e virou-se abruptamente para Penny.
"Voc vai me visitar na priso."
"Todo dia", a filha respondeu.
" minha ltima noite de liberdade."
"Voc escolheu um bom homem para o servio", disse Penny.
"Quando estiver no presdio, ningum se lembrar de mim."
"Por favor, mame. Voc no vai ser presa", Penny retrucou.
"Os brancos e ricos sempre se safam. Voc pode contratar os melhores advogados. Pode alegar insanidade temporria ou outra coisa qualquer que funcione."
"Ou poderamos assassin-lo", Esther rebateu. "E desovar o corpo no pntano de Meadowlands."
"Bram e Jimmy Hoffa", Penny comentou, sorrindo. "Voc  uma comediante razovel, mame."
"Pois , eu e a Sarah Silverman." Esther sorriu de maneira afetada.
"Estou pasma", disse Penny.
"Por causa do meu senso de humor macabro?"
"No, por voc saber quem  Sarah Silverman."
Esther franziu o cenho, dizendo:
"H uma poro de coisas que voc no sabe de mim. E quando voc me visitar na priso, vou corrigir isso. Falaremos a respeito de coisas que eu devia ter contado 
h muito tempo. E pouco importa que para isso tenha que haver uma vidraa entre ns."
Penny se sentiu perturbada. A despeito da referncia a eventuais segredos que a me tivesse guardado, ela no fazia questo de conhec-los (embora imediatamente 
pensasse nos detalhes da queda fatal de Russell). Penny acabara de concluir uma outra conversa desconfortvel sobre um assunto que devia ter sido muito tempo atrs. 
No tinha certeza se estava disposta a lidar com outro.
"Vou nadar", avisou ela, mudando de assunto.
"Eu j tinha deduzido", disse Esther. "O biquni estava por a."
"Te vejo amanh de manh", disse Penny. "E boa sorte."

Penny se dirigiu para a parte externa da casa; atravessou o caminho de pedras e o jardim e logo chegou  beira da piscina. A gua da piscina era mantida morna, e 
sua limpeza era feita semanalmente pelos melhores profissionais de Short Hares. Esther nunca a usava, mas fazia questo de mant-la limpa de junho a setembro, para 
o caso de Penny querer us-la. Nos cinco anos que passara fora de casa, quantas vezes tinha feito uso da piscina? Doze?
Penny mergulhou a ponta do p na gua para test-la. A temperatura cara com a escultura de gelo, mas agora voltava ao normal. Por precauo, ela olhou atentamente 
para o fundo, para ver se havia algum resqucio de gelo. Nada havia alm de gua, e ela ento jogou a toalha na espreguiadeira atrs de si.
Depois, alongou os msculos da coluna e do pescoo e colocou-se na posio de mergulho. Meio segundo antes de mergulhar, um pssaro ou um animal gigante ou alguma 
outra coisa projetou-se na gua com uma velocidade incrvel, produzindo uma grande onda que quase a derrubou.
Zonza e parcialmente em choque, ela se arrastou at a beira da piscina. Uma figura escura e imvel flutuava na superfcie. De barriga para baixo.



































Captulo 29

"EU SABIA QUE VOC VIRIA", DISSE Keith Shiraz, abrindo a porta de sua sute no Plaza.
"Voc  bem cheio de si", Esther rebateu. Ela detestou a presuno dele quase com a mesma intensidade com que desprezava a idia de que ele ficara deitado, polindo 
as unhas ou fazendo outra coisa qualquer que os homens fazem para passar o tempo, na eufrica certeza de que ela logo apareceria.
"Por favor", ele convidou-a para entrar, arreganhando os dentes para o vestido vermelho e os sapatos acetinados da mesma cor.
Ela entrou naquele quarto impecvel. A roupa de cama, estendida com esmero sobre a mesa; loua de porcelana, copos de cristal e uma garrafa de champanhe no balde 
de prata ao lado de um vaso com uma nica rosa.
"Eu estava seguro, no quanto a mim, mas quanto a ns. J sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Passei a tarde inteira pensando nisso, antes mesmo 
de acontecer."
"Eu tambm pensei", Esther admitiu. Era como se aquela noite (uma e nica) estivesse predestinada. O destino os havia empurrado um para o outro como peas de xadrez. 
A coliso dos dois era mais do que lgica.
"Vamos comer", convidou Keith, sorrindo. "Ou voc prefere ir pra cama?"
Esther ruborizou-se (e esperava que tivesse sido com charme).
"Podemos fazer as duas coisas?", sugeriu ela, tentando demonstrar a mesma naturalidade dele.
A resposta de Keith foi agarrar com suas mos enormes (e rudes) os quadris de Esther, arranhar suas costas, tirar seus sapatos e beij-la na boca.
Ela perdeu o flego, pendurou-se no pescoo dele e deixou que ele assumisse o controle. A sute daquele hotel seria a sala ele controle de Keith - e o quarto de 
brinquedo de ambos. Keith em maior que Esther, e ela era uma frgil mulher. Sentia-se pequena e delicada nos braos dele; macia, mimosa e manipulvel - uma mudana 
dramtica em sua rigidez habitual. E ela gostava mais dessa sensao, a de ser o bichinho fofo com o qual ele estava louco para brincar.
Quando ele afastou os lbios, ela disse:
"Detesto falar nisso, mas... e quanto ao controle de natalidade?"
"Voc ainda... quer dizer, quantos anos voc tem?"
"Quarenta e cinco", disse Esther. "Gravidez  improvvel, certamente absurda, mas existe uma possibilidade fisiolgica."
Keith soltou um sorriu matreiro.
"Fiz vasectomia", ele informou, cortando o ar com os dedos. E apertou-a nos braos.
"Formamos um belo casal de meia-idade", ela comentou. "Eu ainda ovulo e voc  duro como uma pedra."
Ele riu.
"No consigo acreditar que Bram a tenha descrito como uma megera mal-humorada."
"Ele estava certo", ela disse. "Fui assim por muito tempo. Mas estou dando uma virada."
"Posso perguntar o que te fez mudar?"
Voc, ela pensou. O seqestro de Bram, o novo lao com Penny. A quebra de anos de rotina.
"Definitivamente, no", ela respondeu, puxando o rosto de Keith at seus lbios. Ele agarrou Esther pela bunda e ergueu-a o bastante para que ela enlaasse as pernas 
em sua cintura. Deu um passo atrs e sentou-se na cama com ela em seu colo.
"Se segura!" Keith se lanou na cama com Esther no colo. De repente, ela se viu estendida, com ele por cima.
Esther sorriu, Queria que ele fizesse justamente isso, que a fizesse sentir-se como se fosse uma boneca de trapo. Beijou o pescoo e o queixo dele. O rosto de Keith 
era macio. Ela podia sentir o aroma de hortel do creme de barbear.
Ele apoiou-se nos cotovelos.
"Preciso te perguntar uma coisa sobre Russell Bracket."
 "O que voc quer saber sobre ele?"
"Precisamos falar sobre a morte dele", ele disse. "Voc no pode pretender que eu finja que a carta de Bram no existe. Ele fez acusaes esprias, mas deve ter 
se baseado em alguma coisa. Quero ouvir de voc o que houve."
Ela suspirou e o empurrou. Depois, sentou-se na cama.
"Um pouco da assassina temperamental."
"Desculpe", ele disse. "Isso tem que ser feito."
"No o matei", ela afirmou. "Bem que eu o desejava morto. Rezava pra ele ser atropelado por um caminho. s vezes o imaginava tendo um ataque cardaco enquanto transava 
com a namorada. Mas eu no o queria morto s por vingana. Se no tivesse morrido, ele teria conseguido a custdia plena de Penny."
"Geralmente as mes ficam com a custdia", Keith replicou.
"Isso  verdade", ela concordou. "Mas houve um incidente durante a batalha judicial. No shopping. Eu me descuidei por um segundo e algum raptou a Penny. Foi resgatada 
em tempo, mas por pouco. Russell descobriu o que houve, o caso foi parar em todos os jornais e ele usou isso contra mim. Ele me chamou de me incapaz e negligente, 
e me acusou de alcoolismo e uso de drogas. J tinha parado de pagar as contas do supermercado, e ento me acusou de estar matando Penny de fome."
"Deus!", disse Keith. "Parece que o cara merecia mesmo morrer."
Esther assentiu.
"Ele tirou toda a minha fora. Depois de quase ter perdido Penny, o resto de fora que eu tinha se foi. Concordei com os termos dele. Nenhum dinheiro, nada de custdia. 
Eu j havia trocado minha famlia e minhas ambies pelo Russell. Ele tinha o dom de me destruir. E naquela poca eu achava que merecia. No dia em que ele morreu, 
eu estava empacotando as coisas para esvaziar a manso. Teria que levar Penny para Russell no escritrio do advogado, assinar os papis e dar adeus  minha filha. 
E ento o telefone tocou. Russell tinha cai, da mureta do shopping."
Esther fez uma pausa, com medo de encarar Keith.
"Eu ri, ri sem parar", ela continuou. "Ri tanto que me doeu o estmago. Quando me acalmei me dei conta de que Penny estava a salvo comigo, e que a partir de ento 
tudo seria meu: a casa, o dinheiro; e ento chorei. Chorei de alegria, mas Penny achou que eu estava triste por causa do Russell. Acreditava e ainda acredita que 
o pai dela era um homem bom, e no o canalha em que tinha se transformado."
Keith parecia estar momentaneamente tomado pelo tom de Esther.
"Ainda no consegui me livrar da raiva", ela disse.
"Mas agora voc est melhor", ele disse. "Desde que me conheceu."
"Voc est certo", concordou ela, sorrindo com leveza.
"Fale de Natasha Molotov", Keith pediu com gentileza.
Esther atendeu:
"Durante a disputa judicial, Russell me deixou de tal maneira que eu no tinha dinheiro para pagar empregada, nem bab. Logo que ele morreu, tive acesso ao dinheiro, 
entrei em contato com uma agncia e eles me mandaram Natasha. A Unio Sovitica j tinha cado, e havia uma afluncia de russos em Nova Jersey. Penny amou Natasha 
de cara, fascinada pelo sotaque dela. Ela se mudou l pra casa depois de um ou dois meses. E j se passaram quinze anos.  a nica pessoa em quem confio plenamente 
desde que Russell me traiu. Francamente, se Natasha teve alguma coisa a ver com a morte do marido dela, estou pouco ligando. Seja l o que tenha feito ou no, eu 
a protegerei e ajudarei em tudo o que estiver ao meu alcance".
" bom que eu no provoque a russa."
"Se voc d valor  sua vida", Esther concordou.
"Admiro sua amizade por Natasha", ele admitiu.
" mais que amizade", disse Esther. "Ns nos salvamos mutuamente. E ela  como uma segunda me para Penny."
"Eu queria muito ser o sogro da Penny. Mas agora talvez possa ser outra coisa pra ela."
Um padrasto? Esther no ousou perguntar. Era uma idia absurda. Quando Keith descobrisse o que ela fizera com seu filho, ele nunca esqueceria. Ela passaria aquela 
noite com ele, e depois tudo estaria acabado.
''Acho que j conversamos demais", ela disse.
"Tambm acho. Vamos tomar um drinque." Ele saiu da cama e abriu o champanhe. Ofereceu uma taa para ela.
Esther bebeu. Uma tima safra. Keith, o homem que conhecera dias atrs, infiltrava-se sob seu vestido, acariciando suas coxas.
"Vou logo avisando: nua eu aparento a minha idade", ela disse.
"Eu tambm", ele rebateu.
"Eu me exercito", ela disse. "Todo dia."
"Ouvi dizer que os exerccios aumentam a estimativa de vida, mas s com a quantidade de tempo que se gasta com eles", Keith comentou.
"O sexo tem o mesmo peso de um teste de esforo cardaco?"
"Pra mim, no", ele respondeu.
"Eu gosto de ir devagar."














Captulo 30

"RESPIRA!", PENNY GRITAVA ENQUANTO tentava reanimar o corpo de Bram. Ela o tinha retirado da piscina e aplicava respirao boca a boca. Os lbios dele estavam clidos, 
macios. Sem vida. 
Ele jazia deitado debaixo dela. Inclinada sobre ele, ela o examinava para ver se o rosto recuperava a cor. Com as mos sobre o peito dele, ela tentava detectar algum 
movimento. Aproximou o ouvido da boca de Bram e captou um sopro de respirao. Depois, apalpou o pescoo para sentir o pulso cardaco. Incansvel e insegura do que 
fazia, ela tentava se lembrar das horas de treinamento de primeiros socorros que lhe tinham sido ministradas num acampamento de vero. Penny se sentia desamparada. 
Alm disso, morria de raiva por ele ter sido to idiota a ponto de pular.
Em pnico, levantou-se a fim de telefonar para o nmero 911, mas depois deu um passo atrs e voltou para o lado dele, porque no queria deix-lo sozinho. Olhou fixamente 
para aquele rosto que tanto amara.
"Acorda!", ela ordenou, e ao mesmo tempo o esbofeteou com fora.
"Ei!", ele gritou, pondo as mos no prprio rosto.
O movimento repentino de Bram a fez cambalear, e ela caiu na piscina. Ao emergir, desabafou:
"Seu bastardo! Pensei que voc estava morto!"
"Voc bem que merecia isso", Bram replicou, agora sentado na posio de ltus.
"E voc fez por merecer!" Ela deu um impulso para sair da piscina, sentando-se ao lado dele.
Ele a empurrou de volta  piscina.
"Filho da puta!", ela xingou.
Agora ele ria.
"Bonito esse seu biquni", ele disse.
Penny abaixou os olhos para ver se o seio direito havia pulado para fora do suti do biquni. Bram cravava os olhos nesse ponto, como sempre hipnotizado pelos seios 
de Penny. Ela tirou o suti e jogou na cara dele, acertando-o na testa.
"Sempre amei esse biquni", ele disse, agarrando o suti.
"Pode ficar com ele", ela disse. " meu presente pela festa."
Ele franziu a testa.
"No diga isso. Lamento muito pelo que houve."
"Lamenta por ter pulado fora,do altar?", ela rebateu. "Ou por ter sido seqestrado?"
"Por ambos", ele respondeu, observando-a bater os ps na gua.
"Tive alguns dias para pensar; sozinho, como parece que voc j sabe. E me dei conta de que fiz tudo errado de diversas maneiras, e sinto muito por isso. Devamos 
ter conversado."
"Sobre o qu?", ela dissimulou com inocncia.
Bram apertou os lbios.
''Vamos, sai da piscina", pediu ele, segurando a toalha aberta para receb-la.
"No."
"No vou te empurrar de novo."
"Antes de tudo, quero frisar que no tive nada a ver com o sequestro. S fui saber dele uma hora atrs."
"Mas foi com voc que falei hoje na hora do almoo", ele perguntou. "Naquele momento no percebi, mas depois a ficha caiu."
"No era eu!", Penny exclamou, e depois se calou. quela altura dos acontecimentos, por que mais mentiras? "Era eu, sim. Fiquei sabendo do seu confinamento na noite 
passada. Fui eu que levei a sacola de roupas pra voc."
"Na hora, fiquei em dvida," Ele sorriu para ela. "Pensei que podia ser voc, mas depois rejeitei a idia, E depois, no almoo, foi mais fcil imaginar que eu conversava 
com a Esther. Mas subconscientemente eu sabia que era voc."
"Entendo", ela disse.
"Temos que conversar melhor."
"Pra que se incomodar?" Ela saiu da piscina e deixou que ele ajeitasse a toalha em seus ombros. "J est feito, Bram. Voc me abandonou e me fez ir at o altar pra 
comunicar o que voc tinha feito aos convidados. Fiquei nua l!"
"Imagino que voc tenha ficado terrivelmente exposta", ele disse.
"No, s fiquei completamente nua. Meu vestido se desfez."
"Eu gostaria de ter visto isso", ele comentou.
Ela sorriu.
"Se eu estivesse na platia, teria rido muito", disse ela. E acrescentou em tom amargo: "Mas no estava".
"Por que voc fingia?", ele perguntou com doura, abaixando os olhos.
"Parecia mais fcil que admitir o fracasso."
"Voc nunca se sentiu atrada por mim?", A voz dele vacilou.
Ela puxou uma parte da toalha para debaixo do queixo, dizendo:
"No, voc me dava nojo!" O rosto dele desmoronou. " claro que eu sentia atrao por voc! Que mulher no sentiria?"
"Ento, o que havia de errado?", ele quis saber.
"No sei", ela respondeu. "Eu simplesmente no conseguia ligar o boto. Quanto mais tentava, mais impossvel ficava. Voc acha que eu no queria sentir prazer? Acredite, 
queria. Muito mais do que voc queria que eu sentisse." Penny tentou se controlar, mas seus olhos se encheram de lgrimas.
Bram apertou-a nos braos. Ela se deixou confortar. Era agradvel ser abraada e tocada. Sempre se sentira assim com ele. Bram era incrivelmente afetivo. Talvez 
por isso ela quisera tanto se casar com ele. Sofrera de falta de afeio na infncia. Esther no a beijava na hora de dormir, e no a aconchegava quando viam TV. 
Penny se lamentava pelas oportunidades perdidas de ficar perto da me. E se perguntava que espcie de me Esther seria se as circunstncias fossem diferentes para 
as duas. As crianas medem o amor pela quantidade
de abraos. Ela sempre questionava os abraos de Esther.
''A verdade", Penny afirmou, encostada na camiseta molhada de Bram, " que nunca me convenci de que voc me amava de verdade. Tinha medo de voc me deixar, e voc 
me deixou. Da pior maneira possvel."
Por isso, ela o empurrou na piscina. Mas ele foi rpido com as mos e arrastou-a junto.
"Desculpe", ele disse quando as cabeas emergiram. "E voc vai ter que me perdoar." Ela tentou nadar para longe dele, mas foi agarrada pelos pulsos.
"Eu no perdo", ela disse, lutando e levantando gua.
"Pra de se debater que te solto."
Ela aceitou. Ele' largou o brao dela. E ela avanou sobre ele. Em meio ao louco combate, Bram imobilizou os braos de Penny, mantendo-os erguidos acima da cabea. 
Encontravam-se numa das extremidades da piscina, com o nvel da gua pela cintura. Ela estava sem o suti do biquni, e ofegava intensamente.
Em vo Bram tentava desviar o olhar para o alto.
"Me diz exatamente o que voc quer que eu faa", ele falou.
" difcil expressar em palavras", ela retrucou.
''Voc pode usar imagens", ele sugeriu. "Ou piscar duas vezes quando estiver gostando e uma vez quando no estiver."
Bram abaixou os braos de Penny. Ela abraou o pescoo dele puxou-o contra si. No pde evitar. Enquanto se beijavam, sentiu membro dele endurecendo sob o jeans 
encharcado.
''A luta vai ser dura", ela disse enquanto agarrava o cs do jeans. "Tira a cala."
"No estamos sozinhos", ele replicou.
Penny seguiu o olhar de Bram e viu um casal de esquilos na beira da piscina, com as patinhas sobre a barriga e o focinho voltado para o alto. Bram jogou gua nos 
esquilos. Eles fugiram, mas logo retomaram.
"Vamos dar um show de sexo para os roedores", ele disse.
"Talvez eles queiram nos ajudar", ela disse. "Como o camundongo da Cinderela."
"No, esses roedores so de Nova Jersey. So degenerados. So esquilos abelhudos."
Ela riu, e apareceram mais esquilos. E se ps a observar os bichinhos, que por sua vez mantinham os olhos no casal da piscina.
"J so cinco", disse Penny.
"Vem comigo", disse Bram, ajudando-a a subir os degraus da piscina e levando-a para uma cabana prxima.
"Ouam bem, seus esquilos", ele falou antes de fechar a porta, "no deixem ningum chegar perto daqui. Se Esther Bracket aparecer, pulem na jugular dela."
Penny esparramou-se numa enorme espreguiadeira. Bram olhava hipnotizado para seu corpo enquanto se desvencilhava da camiseta molhada e do jeans. A cueca estava 
grudada no seu membro ereto. Ele tirou-a e deitou-se ao lado de Penny.
"Sou todo seu", ele disse. "Me diz o que voc quer".
Ela abriu a boca, mas simplesmente no conseguiu falar. Depois, teve uma idia.
"Voc j ouviu falar em espelhamento?", ela perguntou.
"Transar na frente do espelho?", ele quis saber. "Pode ser at que seja excitante, mas francamente, durante um bom tempo no vou querer nada com espelhos."
Ela balanou a cabea em sinal negativo.
" uma tcnica teatral. A Vita me mostrou como . Voc imita os movimentos de outra pessoa, refletindo-os. Talvez nos seja til."
"Fao tudo o que voc fizer", ele disse.
" isso mesmo", ela falou e beijou a boca de Bram com delicadeza.
Ele retribuiu o beijo, devagar e atenciosamente.
Ela beijou todo o pescoo dele, sugou a orelha, lambeu o ombro, mantendo o ritmo delicado. Ele submeteu-se  ateno de Penny. Antes, toda vez que ela diminua o 
ritmo para desfrutar o gosto e aroma de Bram, ele se excitava ainda mais, pulava em cima dela com sofreguido e a comia (o que tambm tinha seus mritos). Penny 
voltou-se para os mamilos de Bram. Enquanto roava um delees com a boca, acariciava o outro com os dedos. Circulava o mamilo com a lingua exatamente como queria 
que ele fizesse com o dela. A simples idia de que logo ele estaria imitando cada uma de suas carcias deixou seu biquni molhado. Ela se descobria integrada, sentindo-se 
ao mesmo tempo poderosa e excitada.
Ela sabia que ele estava passando por momentos difceis pela passividade. Mas ele teria sua vez. Por enquanto, o que ela podia fazer era antecipar o que teria em 
troca, inflamar-se, inspirar-se.  medida que explorava centmetro por centmetro o maravilhoso corpo de Bram, Penny se via tonta de desejo.
Ela o engoliu inteiro. Bram gritou e comeou a latejar dentro da boca de Penny. Para evitar que ele gozasse, ela contornou delicadamente a base do pnis com os dedos. 
Ele pareceu se acalmar. Depois, com a lingua, fez ccegas nele.
"No sei se vou agentar isso", ele disse.
Ela o largou e deitou-se na espreguiadeira, pronta (e ansiosa) para sua vez.
Como um bom aluno, ele retribuiu os beijos dela com a mesma delicadeza, acelerando o ritmo e a presso aos poucos. Ele estava se contendo. Ela sabia que ele gostava 
de destroar, no de saborear.
A contenso de Bram deixou-a excitada, sobretudo porque percebia que ele prestava ateno. Quando ele pousou os lbios nos mamilos de Penny, lambendo, chupando, 
ela suspirou. O prazer percorreu sua pele, penetrou pelo seu corpo e afluiu ao longo da coluna.
 medida que lambia em torno do umbigo, ele alternava a velocidade das lambidas, ora acelerando, ora desacelerando. O descompasso do ritmo era torturante, e quando 
finalmente ele atingiu o alvo, abrasador, ela quase gozou com o simples toque, tal como acontecera com ele. Quando Bram fez a lingua girar e pincelou o clitris 
com os dedos, ela se deu conta de que a qualquer momento podia gozar com a mesma facilidade com que ele gozava, como qualquer homem. E se viu ento ofegante, com 
os quadris vergando-se e os msculos enroscando-se pelos anos de tenso.
Ele meteu um dedo dentro dela.
Penny gritou e gozou, contorcendo-se na espreguiadeira, inundando a pequena cabana de sons, aromas e felicidade.
Era o seu primeiro e genuno orgasmo com Bram. E embora ele o tivesse proporcionando, ela sabia que tambm contribura. Bram se arrastou sobre o corpo de Penny e 
esticou-se. Beijou-lhe o rosto, o queixo, e afastou o cabelo molhado da testa dela. Seus olhos brilhavam na escurido. Ele parecia envolto em nvoa.
" muito melhor que fingir", ela disse.
"No acredito como voc pode estar to bela", ele disse. "Sua beleza no  humana. Uma beleza aliengena. Nunca tinha visto voc desse jeito".
" a escurido", ela retrucou.
Ele riu. Penny abriu as pernas e Bram penetrou entre elas, apoiando-se nos cotovelos para que pudessem se olhar. No havia mais parede de vidro entre os dois: ela 
mantinha os olhos e as emoes abertas para ele, deixando-o participar disso.
Bram parecia entender que naquele momento Penny estava presente, plenamente ligada a ele, em vez de observar de fora a prpria luta para relaxar, como fazia antes. 
Eles estavam conectados na mente e no corpo. Ela o sentia por inteiro. Cada movimento tinha um comeo, um meio e um fim. Cada suspiro contava uma histria.
Quando ele intensificou os movimentos e gozou, ela o abraou com fora e o recebeu dentro de si. Uma sensao inesperada irrornpeu entre suas pernas, abrindo-se 
em outra exploso. Ela suspirou e estremeceu, sem acreditar no que estava acontecendo. O gozo chegou rpido e sem nenhum esforo.
"Voc gozou de novo?", Bram perguntou.
Ela assentiu, to surpresa quanto ele. Surpresa e feliz. Abraando-o, ela se deu conta de que aquele no era um momento de dissoluo, mas de redeno. Enfim, ela 
aprendera a se livrar dos pensamentos, a deixar a mente em silncio e a liberar o corpo.
Penny desperdiara anos.
De olhos fechados, Bram descansava a cabea sobre os ombros de Penny. Quase dormindo. Ela, no entanto, estava bem acordada. Acesa, pode-se dizer.
Agora ela compreendia que ele agira corretamente ao acabar com o casamento. Talvez pudesse t-lo feito com mais tato. Mas agora ela estava ciente de tudo o que ele 
queria para os dois. Um casamento capenga no era o bastante.
O entendimento leva ao perdo. Ela podia ser capaz de perdo-lo. Mas no estava certa se podia perdoar a si mesma por seu erro. Ele seria para sempre uma lembrana 
de tudo o que ela havia fingido.
"Gostei dos seus brincos", ele resmungou semi-acordado. "Gostaria de ter estado ao seu lado quando voc os colocou." E depois caiu no sono.
Penny deslizou a cabea de Bram de cima do seu ombro. Levantou-se da espreguiadeira e foi at o armrio da cabana, onde pegou uma dzia de toalhas de banho. Antes 
de cobrir o corpo desnudo de Bram olhou-o fixamente. Tentava memorizar a cena e emoldur-la na mente.
Podia ser a ltima vez que o olhava nu.
Ela o cobriu com as toalhas e dependurou as roupas molhadas em aparadores. Depois, enrolou-se numa toalha e foi para casa. Seguiu at o quarto de brinquedos para 
ver como ele tinha escapado. Fugira pelo teto. Ele o tinha escalado. Merecia a liberdade, e ela o deixaria ir de qualquer maneira.
Penny recolheu os pertences de Bram; seus apetrechos de toalete, seus tnis e as roupas sujas. E tambm a foto dela. Colocou tudo na mala dele junto com o vdeo 
Cinderela. E foi ao seu quarto para escrever
um bilhete. Depois de escrito, ela o ps dentro de um envelope e o levou junto com a mala para a cabana.
Bram dormia profundamente, imvel. Ela beijou o nariz dele, deixou a mala perto da espreguiadeira e colou o envelope num lugar onde sabia que ele encontraria.

















Captulo 31

QUERIDO BRAM:

A noite passada foi incrvel. Enfim, falamos o que precisvamos falar e ficamos juntos uma ltima vez. No me arrependo de um s segundo dessa noite.
Vi por onde voc escapou. Podia ter morrido. Isso revela o quanto voc queria ficar longe de mim.
Muita coisa aconteceu entre ns. No estou pronta para perdo-lo por me ter abandonado ou para me perdoar por ter mentido para voc. Voc tem razo,  melhor acabar. 
Dessa maneira cada um de ns pode ter a chance de recomear.

Afetuosamente,

                                                                                                                                              Penny

P. S.: Se voc denunciar minha me, sou capaz de mat-lo.

Bram encontrou o bilhete colado com fita adesiva em seu peito.
Ao desgrud-lo, arrancou alguns plos. Dentro do envelope, junto com o bilhete, o anel de noivado que ele dera para Penny.
Exasperado, ele enfiou o anel no dedo mindinho. Ficou entalado entre a primeira e a segunda junes.
O bilhete o atingiu como uma bigorna. No tinha pensado - nem podia - que isso aconteceria. Achava que a noite anterior tinha promovido uma reunio triunfante. Aparentemente, 
Penny a considerava uma "apaixonada" despedida. Tivera dois orgasmos verdadeiros, e mesmo assim no o queria mais. Ela era to louca quanto a me. Mas, pensando 
bem, ele acabou agradecendo. Se Esther no tivesse seqestrado, eles no teriam a oportunidade de viver aquele momento na cabana.
Com a luz gelada da manh, a gratido de Bram por Esther se foi. Ele podia ver at que ponto Penny ainda estava zangada. S podia estar. E ele merecia sofrer pelo 
que fizera, mas, pelos seus clculos, de certa forma j tinha pagado. Fora atingido na cabea e ficara inconsciente, trancafiado como um cachorro e empanzinando-se 
de comida. E o pior  que fora forado psicologicamente a pesar seus erros e compreender que havia criado uma situao terrvel entre ele e Penny. Uma situao que 
ainda persistia. Por no t-la confrontado, ele se isolara. Seus planos de fuga (do seu casamento e da sua priso) s tinham piorado as coisas.
"Ento, o que fao agora?", ele se perguntou.
Nenhuma resposta. Nem mesmo dos esquilos degenerados. Bram encontrou a mala no cho perto da espreguiadeira. Vestiu as roupas que Penny deixara dependuradas. Estavam 
secas e cheirando a cloro. Depois de vestido, pegou a mala e se dirigiu para a manso.
Queria conversar com Penny. Se Esther e a assassina russa abrissem a porta, tinha umas poucas palavras (rudes e bem pronunciadas) reservadas para elas. Tentou primeiro 
a porta da cozinha. Trancada. Bateu nela. Nada. Ento foi para a porta da frente. Tocou a campainha at que a ponta do dedo ficou vermelha e dormente.
Uma onda de raiva cresceu dentro dele, a mesma raiva que o tomava quando estava preso no trfego ou quando via algum maltratar animais e crianas. Fechou os olhos 
e contou at dez.
Depois de repetir a contagem por duzentas e quarenta e trs vezes, ele se acalmou. Ficou sereno. E determinado. Penny podia se trancar no seu castelo, mas ele encontraria 
um jeito de entrar. 
Agora Bram tramava e esquematizava uma forma de penetrar na manso, e se lamentava por pensar isso.
Cogitou seriamente a idia de atingir a cabea de Penny com uma garrafa e seqestr-la.
Tomou uma deciso e comeou a descer pelo caminho de entrada. Tinha que voltar para o Plaza. Tinha que encontrar o pai ou Morris, ou ento um quarto para elaborar 
o passo seguinte. Depois voltaria para Penny, e no partiria sem ela.
Enquanto caminhava pela Overlook Lane, relembrava os instantes que passara na cabana com Penny, quente e macia em seus braos, contorcendo-se toda ao gozar, espremendo 
as ltimas gotas. Bram esperara dois anos por esses poucos segundos. E se tivesse que esperar mais dez anos para sentir isso outra vez, esperaria.
Penny havia dito que o mataria se a me dela fosse presa. O que devia fazer ento com Esther Bracket? As pessoas ss e racionais no saem por a esmagando crnios 
com garrafas. Pela segurana pblica, talvez Esther tivesse que ser internada. Ela tambm era uma influncia negativa para a filha. Afinal, se Penny no estivesse 
sob a influncia da me, ela o teria libertado no mesmo instante em que o encontrara.
Bram caminhava rpido, com raiva. Conjeturava a possibilidade de um trato. Em troca do seu perdo, Esther se comprometeria a romper relaes com Penny. Parecia um 
trato justo. Ou no. Ele no estava seguro. Talvez a ameaa de Penny fosse um teste. Se ele deixasse em paz a me dela, ser que ela lhe daria uma outra chance?
Bram no demorou muito para chegar ao Plaza. Logo que chegou, dirigiu-se ao balco da recepo.
Sorriu para a jovem recepcionista. Ela retribuiu o sorriso. Ficou na expectativa de ser reconhecido. Sabia que estava com aparncia cansada e desgrenhada.
"Bom dia, senhor. Em que posso ajud-lo?"
"Keith Shiraz ainda est no hotel? Ou Morris Nova?"
Ela consultou a tela do computador.
"O senhor Shiraz est registrado. E quanto ao senhor Nova acho que ele est recebendo chamadas no quarto de uma amiga. Lamento, mas no posso fornecer os nmeros 
dos quartos. Posso cham- los para o senhor."
Bram sorriu, aliviado. Seus entes queridos estavam por perto.
"No  necessrio", ele disse. "Muito obrigado."
Ele fingiu que se dirigia para o Coq et Boule, o restaurante do hotel. Certificou-se de que a recepcionista no o olhava e esgueirou-se para dentro do elevador.
A menos que Keith tivesse trocado de quarto, Bram sabia onde encontr-lo. Preferia subir a lidar com a reao do pai pelo telefone. O elevador parou no dcimo segundo 
andar. Enquanto andava pelo corredor em direo ao quarto de Keith, ele comeou a se sentir fraco, doente. Finalmente, o preo dos acontecimentos dos ltimos trs 
dias era cobrado.  medida que se aproximava da rbita protetora do pai, ele se sentia mais fraco e vazio. Engoliu em seco ao pensar no perigo que tinha corrido. 
A verdade  que Esther Bracket era uma assassina patolgica. Vivia como uma megera desde que se livrara do marido, e a partir da seus instintos violentos s tinham 
aumentado. Se ele no tivesse arriscado a vida para escapar, certamente Esther o teria assassinado. 
Trmulo, Bram chegou  porta do quarto 1214. Bateu suavemente. Eram oito horas da manh. Keith raramente dormia at mais tarde. Bram se perguntava por que seu pai 
ainda estava em Short Hares. Talvez tivesse entendido a pista do seu bilhete escrito com lpis de cera marrom na folha amarela e suspeitasse de algum crime. Ele 
bateu com mais fora na porta.
Uma voz ecoou de dentro do quarto:
"Pode entrar, a porta est destrancada."
Keith. O som da voz do pai fez com que Bram se sentisse melhor. Ele entrou pela porta aberta, secando as lgrimas, e sentiu-se aliviado ao se ver dentro do quarto.
"Coloca a bandeja na mesa e pega a gorgeta", o pai falou da cama, debaixo das cobertas.
Uma mulher riu. Um amontoado sob os lenis se contorceu.
Bram deixou a mala cair no cho.
"Pai?", ele disse.
Os corpos se congelaram na cama. Keith se descobriu e olhou fixo para o filho.
"Bram!", ele gritou. Pelas aparncias, devia estar nu, porque esboou sair da cama e depois desistiu.
Ao lado de seu pai, Esther Bracket, sua torturadora, com os lenis puxados at o queixo.
Bram deu um salto para trs quando se deparou com a cena, e derrubou o abajur de uma mesa.
"Qual  o problema, Bram?", Keith gritou subitamente ao seu lado. Graas a Deus encontrara um roupo."
"Que merda voc est fazendo com ela?", Bram perguntou.
"Filho, sei o que voc acha de Esther. Mas est errado.  uma mulher adorvel, gentil, generosa. Estou apaixonado por ela", respondeu Keith.
A notcia deixou Bram assombrado. Se no estivesse to desconcertado, teria vomitado.
"Bram!", Keith segurou o filho pelos braos. "Voc est quase verde! Est doente? O que h de errado?"
"O que h de errado?", Bram desabafou. "Esta coisa de mulher, esta pstula humana", ele gritou, apontando o dedo para Esther. "Esta criatura que voc acha que ama 
tentou me matar!"
"Isso  ridculo", disse Keith.
"Pergunta pra ela!", Bram ordenou.
"Voc precisa se acalmar", o pai aconselhou.
"Sua bruxa miservel!", Bram berrou. "O que voc fez com meu pai?", e acrescentou para Keith. "Ela  louca. No tem conscincia,  completamente sdica, quis me 
destruir. Pergunta pra ela, pai. Pergunta pra ela."
Keith respirou profundamente e voltou-se para Esther.
"Esther, sou eu que pergunto, voc tentou matar meu filho?", ele indagou com uma expresso perplexa.






Captulo 32

ESTHER PODIA VER QUE KEITH estava arrasado. Ele a considerava uma amante calorosa, espontnea, extravagante. Mas na realidade no passava de uma mulher perigosa, 
conspiradora e ensandecida. Keith estava apaixonado? Isso era novidade para ela.
''Vou esgan-la!", Bram exclamou, tentando se desvencilhar do pai.
"No tentei mat-lo", respondeu Esther da cama.
".Mentirosa!", Bram gritou.
"Bram, por favor, calma."
"Voc acredita nela? Nessa vbora vil e asquerosa? Quer saber? Fodam-se!", Bram saiu injuriado do quarto e bateu a porta com tanta violncia que as paredes tremeram.
Chocado e consternado, Keith olhava para Esther. Ela jogara pai contra filho de propsito. Seria uma conseqncia colateral?
"No tentei mat-lo", ela repetiu. "S golpeei a cabea dele com uma garrafa de champanhe. Depois o seqestrei e o mantive prisioneiro. Mas por poucos dias. E fui 
miuito boa para ele. Nunca o torturei... nego isso categoricamente. Bem, talvez eu tenha cometido uma pequena tortura psicolgica. Mas nada que ele no pudesse agentar."
"O qu?", Keith bramiu.
Pelo tom de Keith, Esther concluiu que ele precisava se a acalmar um pouco antes de terem uma conversa produtiva. Sentou na cama com as pernas para fora e recolheu 
suas roupas jogadas no cho. Vestiu-se rapidamente. Calculou que tinha mais ou menos trinta segundos para sair antes que ele explodisse.
''Voc sabia onde o Bram estava", ele disse. "Esse tempo todo."
"Na minha casa. No terceiro andar; no quarto blindado", ela disse enquanto puxava o zper do vestido.
"Eu estive l ontem", ele falou.
"Foi por um triz."
"O tempo que voc gastou comigo, seu consolo, sua ateno, tudo isso era para evitar que eu sasse  procura de Bram. Para me distrair. Aquele bilhete que ele escreveu 
com lpis de cera."
"Eu  que o fiz escrever", ela disse enquanto calava os sapatos. "Para que voc no suspeitasse mais do sumio da colcha e da garrafa de champanhe no cho da sute 
nupcial."
''A Penny tambm estava envolvida?", ele perguntou.
"No teve nada a ver com isso", Esther respondeu prontamente. "Eu assumo tudo. Voc tem que entender, eu estava um caco. Sei que fiz uma coisa horrvel. Mas agora 
ele est livre. Aparentemente intacto. No sofreu dano algum."
"Como  que voc pde fazer isso?", ele quis saber.
Ela suspirou profundamente.
''Admito que talvez haja alguma coisa errada comigo. Posso at ser acusada de falta de tica. Mas irei para o tmulo, ou para a priso, sei l, o que vier primeiro, 
convicta de que Bram mereceu o que teve. Agi como me em busca de justia para a filha."
''Voc mentiu pra mim durante dias."
"Por autopreservao", ela se defendeu. "Isso  um instinto animal bsico."
"Como  que voc pde me beijar, fazer amor comigo, sabendo que estava com meu filho trancado no seu tico?"
Boa pergunta.
"Coloquei o Bram num compartimento da mente e voc, no outro", Esther explicou. "Era como se o seqestro dele e o nosso relacionamento no tivessem nada a ver um 
com o outro. Foi uma mentira que preguei em mim mesma."
J vestida, ela pegou a bolsa e deu alguns passos vacilantes na direo de Keith. De repente, nunca se sabe. Ele podia esrnurr-la. Ou ret-la e chamar a segurana 
do hotel. Podia cuspir nela. Beij-la. Soprar palavras no ouvido dela (no gentis). Podia abra-la com fora, o que seria uma delcia, porque quela altura ela 
estava se sentindo vulnervel.
Para sua surpresa, quando Esther chegou perto de Keith, ele a abraou pela cintura. Inclinou-se, pegou-a pelos joelhos com um dos braos, ergueu-a do cho e sorriu, 
com o rosto quase colado ao dela.
Esther estendeu os braos em torno do pescoo de Keith e descansou a cabea no ombro dele, com os olhos fechados de gratido e alvio. Ele a perdoara. Entendera 
que ela estivera temporariamente insana. Ela no iria para a priso.
Ouviu um rangido e abriu os olhos.
Ele tinha aberto a porta do quarto. E depois a jogou para fora. Ela caiu de bunda no carpete do corredor.
Levantou-se, sacudiu a poeira da roupa e ajeitou o cabelo. Keith parecia se divertir com sua pantomima.
"Voc no vai chamar a polcia, no ?", ela perguntou.
Ele mostrou para ela todos os dentes.
"No meu ramo de negcios, ns gostamos de lidar com as coisas... internamente."
"Internamente, tipo ferimentos internos?", ela perguntou.
"Logo, logo voc descobrir", ele respondeu - e depois bateu a porta com violncia.
























Captulo 33

PENNY DORMIA CONFORTAVELMENTE em sua cama quando foi acordada pelo som da campainha. Era Bram que tocava sem parar. Foi surpreendentemente fcil ignor-lo. Bastou 
cobrir a cabea. Voltou a dormir por alguns minutos, mas logo depois foi acordada de novo por um barulho.
Desta vez o som vinha de dentro da casa. Ela saiu de pijama e se dirigiu para o quarto de Natasha, de onde vinha o barulho.
"Bom dia", ela disse, como se acostumara a fazer por mais de quinze anos. A cama estava cheia de sacolas de viagem. No cho, caixas com livros e bugigangas. Penny 
notou que algumas eram de Esther.
"Oi, Alexia", ela falou com a prima de Natasha, que a ajudava a empacotar. Alexia era mais baixa e mais magra que Natasha. Ambas apresentavam o mesmo nariz arrebitado, 
cabelos fartos e castanhos, sobrancelhas grossas e sapatos plataforma. Alexia acenou com a cabea para Penny, porque no falava uma s palavra em ingls.
"Esto indo para algum lugar?", perguntou Penny.
"Eu sempre disse que um dia voltaria para Moscou. E esse dia  hoje", respondeu Natasha.
Boris zanzava pela cama, tentando se enfiar nas sacolas que Natasha enchia de roupas. A russa arrumava malas com rapidez. Do umbral da porta, Penny olhava o vaivm 
das duas mulheres esvaziando gavetas e armrios.
"Voc tem quinze pares de sapatos plataforma", Penny observou. "Isso tem a ver com as mulheres russas e a diviso dos sapatos?"
''Vou te dar o par vermelho", disse Natasha. ''Assim voc se lembra de mim."
Penny enfiou os ps nas sandlias e se sentiu de imediato desmazelada.
"Adorei, Muito obrigada", ela disse.
"Sputnic gravlax borscht", Alexia comentou. Pelo menos foi assim que soou para Penny.
Natasha respondeu em russo e em seguida voltou-se para Penny.
"Quero te mostrar uma coisa", disse ela, entregando uma folha de papel para Penny.
Um fax, de Moscou. Penny no conhecia uma s letra do alfabeto russo. Desamparada, piscou os olhos para Natasha, dizendo:
"No consigo ler isso".
"Eu traduzo: 'Querida Natasha, estou morrendo com um cncer no crebro. Os mdicos me deram seis meses. No posso contar com seus irmos. Preciso de voc. Assinado, 
Mama'."
"Eu sinto muito!", disse Penny, e logo acrescentou. "Isso  verdade?"
"Eu no ia usar a morte de minha me", Natasha retrucou.
"Mas voc no havia dito que sua me j tinha morrido? Que tinha sido atacada pelos mutantes nucleares de Tchernobyl?"
"Essa era outra  me", disse Natasha. "Era minha madrasta, a esposa do segundo casamento do meu finado pai."
"Oh", Penny exclamou. "Ento, sua partida no tem nada a ver com a fuga de Bram. Nem com a iminente chegada da policia de Short Hares."
"Como voc pde pensar isso de mim?", Natasha rebateu.
"Mas voc notou que ele escapou."
"Na noite passada. Quando encontrei a casa vazia e levei comida para um quarto vazio."
"Voc tem dinheiro suficiente para viajar at Moscou?", perguntou Penny, comeando a se sentir triste. O motivo que fazia Natasha sair s pressas no tinha a menor 
importncia. Ela estava partindo.
"Olha s que coincidncia", disse Natasha. "O marido de Alexia morreu esta semana. Dormiu no carro ligado dentro da garagem. Uma tragdia. Por isso, ela tem dinheiro 
para as passagens. A sincronicidade  uma boa merda."
"Minhas condolncias", disse Penny para Alexia.
As duas primas trocaram algumas palavras em russo. E depois Natasha se dirigiu a Penny.
"Ela lhe agradece pela sua simpatia. E tambm ficaremos muito agradecidas se voc disser que nunca ouviu falar em Alexia se a polcia de Lodi bater aqui  procura 
dela."
"E eu l conheo alguma Alexia?!", Penny rebateu.
"timo. Vou levar o Boris comigo", disse Natasha. "J tinha te contado que minha famlia possua um co igual a ele. Ns o adorvamos, mas um dia ele foi sugado 
pelo aspirador de fossa e morreu afogado num mar de merda."
"O que voc contou  que o seu cachorro tinha sido esmagado por um tio perneta", Penny falou.
"Esse era outro cachorro."
Penny comeou a protestar, insistindo para que Boris ficasse. Mas logo se deu conta de que no tinha estabelecido propriamente laos com ele, apesar de sua vontade 
antiga de ter um bichinho de estimao. Ela considerou que sempre havia procurado um consolo para fugir do sofrimento. Boris era ento um outro caso de fuga da realidade. 
Teria sido bom se fosse de outro modo, ela pensou. E lembrou-se da noite anterior na espreguiadeira da cabana, da cabea de Bram entre suas pernas, do seu orgasmo 
inesperado e sublime.
"Boris ser muito mais feliz com voc", Penny afirmou. "Mas no se esquea de mant-lo afastado de tios e aspiradores de fossa. Vou procurar as coisas dele. A escova 
Mr. Woofers Grooming, o pacote de tapetinhos para xixi e o shampu Dharma Doggie."
"J os empacotei", Natasha falou enquanto passava os olhos pelo quarto. Estaria vazio, se no fosse pelas paredes vermelhas. Ela havia retirado a roupa de cama, 
e Penny sabia que Esther  que as tinha comprado.
As trs mulheres empilharam as caixas e as bolsas dentro de um carrinho de mo e o manobraram pela escada at a cozinha. De l era s carreg-lo at uma caminhonete 
estacionada prximo da cozinha. Assim fizeram e colocaram tudo dentro da caminhonete. Alexia assumiu o volante. Natasha deu um longo abrao em Penny.
"Voc no pode partir sem se despedir da mame", disse Penny.
"Ela no est aqui", Natasha se justificou, "e no posso esper-la. Tenho muita coisa pra fazer".
"Ela vai ficar magoada."
''A Esther vai entender", Natasha rebateu. "S lamento partir sem levar nada que mostre os meus anos na Amrica, exceto os muito pares de sapatos."
Penny sabia que sua me pagava um bom salrio para Natasha, e que ainda arcava com diversas despesas.
"Voc gastou tudo?", Penny perguntou sacudindo a cabea.
"Quando voc cresce sem nada, sem privacidade, sem posses, sem dignidade, sem esperana de futuro - quando o dinheiro aparece, voc gasta. Todinho. E to rpido 
quanto veio. Sei que isso pode parecer vazio pra voc."
"Vazio?", disse Penny. ''Acho que voc quer dizer superficial."
"Superficial", Natasha assentiu com a cabea. "Jantar em restaurantes no so to superficiais quando se cresce comendo lixo e bebendo gua de chuva empoada. Minha 
mezinha nunca ter a chance de viver como uma americana. Eu gostaria de mostrar pra ela um pouco das coisas maravilhosas que vi por aqui. Antes que ela morra. De 
cncer. No crebro."
Penny pegou Natasha pelas mos e puxou-a at o saguo de entrada.
"Quero que voc leve isso", disse a jovem americana, apontando os braos como um apresentador de programas de prmios para as caixas empilhadas junto  parede.
"Voc tem certeza?", perguntou Natasha.
''Agora j no preciso mand-las de volta", respondeu Penny.
"Muito obrigada." Natasha abraou-a chorando, agradecida.
O momento no durou muito. Natasha secou as lgrimas, caminhou at l fora e assoviou para Alexia, que prontamente manobrou a caminhonete e estacionou-a em frente 
 escada da entrada principal. Alexia comeou a transferir as caixas para dentro do bagageiro sem que ningum a instrusse, como se j esperasse por aquilo.
Ela levou uma hora e meia para encher a caminhonete de castiais de cristal, bandejas de prata e porcelana inglesa. Penny no lamentou por nenhum objeto. Durante 
toda a vida ela se cercara de coisas superficiais (vazias), e sentia mais prazer em se desfazer delas do que em possu-las.
"Talvez voc encontre um bom moscovita e se case com ele. Mas dessa vez um casamento de verdade", Penny falou enquanto elas fechavam as portas da caminhonete, trancando-as 
bem firme.
Natasha sentou-se no banco do passageiro e disse:
"No consigo amar do seu jeito, Penny. Falta alguma coisa em mim. No consigo me abrir para os homens. E nem quero tentar. Sua me  como eu. Mas notei que ela est 
mudando nestes ltimos dias. Sou m influncia para ela. Alm disso, ela no precisa mais ele mim. Nem voc. Uma mulher de vinte e trs anos  perfeitamente capaz 
de amarrar os prprios sapatos."
Boris pulou no colo de Natasha. E esticou a cabecinha para fora da janela. Penny beijou Natasha e o cozinho pela ltima vez. Depois, Alexia ligou o carro e levou 
consigo Natasha, Boris, os presentes de casamento e outros itens para sempre.
Quando a caminhonete chegou l embaixo, no porto, Natasha colocou a cabea para fora da janela e gritou:
"Mais uma coisa, Penny! Chamem o dedetizador!"
















Captulo 34

"DEVE HAVER CENTENAS DELES",disse Esther, em p ao lado de Penny na sala de controle. As duas mulheres observavam pelo espelho uma horda de esquilos que zanzavam 
pelo quarto de brinquedos, comendo os restos da ltima ceia de Bram e roendo a moblia.
"Entraram pela clarabia", disse Penny. "Do mesmo jeito que Bram saiu."
"Tenho que dar um crdito a ele", Esther falou enquanto passava a mo pela bunda dolorida do tombo no cho do corredor do hotel. "Desmanchar as estantes e improvisar 
uma escada requer engenhosidade."
"Pular do telhado? Isso foi burrice", Penny replicou enquanto observava as diabruras dos roedores.
Esther assentiu com a cabea.
"Que foi estupidez, foi. Uma debilidade mental. Mas tambm foi audacioso. Corajoso. Voc tem que admitir que se admirou por ele ter escapado."
"Voc est sugerindo que gosto dele?", perguntou Penny. "Para sua informao, eu o deixei ir embora."
"Voc disse que ele tinha pulado do telhado", Esther replicou.
''At a piscina. Onde eu podia captur-lo outra vez. Mas preferi deix-lo livre... de suas garras e de mim."
"Se  isso que voc realmente quer, tudo bem", disse Esther.
" isso", Penny falou em tom ligeiramente forado.
"De repente voc o soltou s pra ver se ele volta."
"Besteira", Penny rebateu. "Natasha partiu h cinco minutos. Eu preferia que ela tivesse te esperado."
Esther franziu a testa. No teria mais sua companheira. Apesar de toda a lealdade de Natasha, ela sabia que um dia a amiga teria que partir. Bom que se fosse. Afinal, 
que espcie de vida Natasha tivera com ela?
"Natasha tambm realizou hoje sua grande fuga", ela disse.
"Dei pra ela os meus presentes de casamento", Penny falou. "Pareceu a melhor coisa a fazer. Talvez voc quisesse que fossem devolvidos. A etiqueta manda que se faa 
isso quando o casamento  cancelado."
Esther deu de ombros. Sabia que um dia se preocupara com o que era adequado, mas agora no podia atinar por qu.
"Mande uma carta para os convidados", ela aconselhou. ''Agradea pelos presentes. Diga que voc tomou a liberdade de do-los ao Fundo Pr-Liberdade de Natasha Molotov. 
E no se esquea de mencionar que a doao deles  dedutvel cem por cento de impostos."
"Grande idia, mame!", Penny exclamou. "Olha s aquele esquilo! Deve pesar quase trs quilos."
O esquilo gordo sentou-se em cima da tev com o rabo empinado. Parecia saber que estava sendo observado, porque olhava para o espelho como se pudesse enxergar atravs 
dele.
"Ele  bonitinho", disse Esther. ''Vamos envenen-lo."
O telefone da sala de controle tocou.
Esther apertou a tecla que o colocava em viva-voz.
''Al'', ela disse.
"Penny!", uma voz esganiada soou alto.
"Vita?"
"Matei o Bram!", a atriz de novela gritou histericamente. "matei o Morris tambm! Os dois esto mortos! Estou aqui com o cadver deles!"
"Ento, toma conta", disse Esther.
"Mame!"
Os gritos e soluos de Vita eram ouvidos com nitidez.
"Onde voc est?", Penny perguntou.
"No Plaza, quarto 1224", Vita respondeu aos prantos.
"J estamos indo para a". Penny desligou o telefone e se dirigiu a Esther: ''As chaves do carro, por favor."
Esther olhou a palma da mo da filha.
"De jeito nenhum", ela afirmou.
Penny esbofeteou a me. No uma bofetada forte. S um tapinha.
"Por favor, mame", ela insisitiu. "Tem dois homens mortos."
"Eles no esto", Esther replicou, passando a mo pela face esbofeteada. "Voc sabe muito bem como Vita  exagerada. Se ela afirma que esto mortos, isso quer dizer 
que esto tossindo. Ou espirrando."
Esther viu que a filha no estava achando graa. Penny levantou a mo novamente. Esther agarrou-a pelo pulso e falou:
"No repita o que voc fez".
"Mas me senti muito bem na primeira vez", disse Penny.
Esther assentiu com um gesto de cabea.
''Voc deve estar morrendo de raiva de mim."
''Voc devia ter me abraado mais", Penny falou de supeto.
Esther suspirou, austera.
"Est bem." Ela pegou a bolsa para procurar as chaves. Depois de encontr-las, sacudiu-as, dizendo: "Com uma condio?"
"Que saco!", disse Penny.
''Vou com voc."
"Eu dirijo", Penny rebateu enquanto pegava o molho de chaves. As duas mulheres desceram pelas escadas, saram de casa encontraram no Volvo.
''A estrada j deve estar vincada entre o Plaza e este ponto", Esther comentou. "De volta  cena do crime."
"Que crime?", Penny perguntou.
"Suponho que no haja muitos para escolher", Esther respondeu. "E voc est certa. Eu devia ter te abraado mais. Tenho um problema para demonstrar afeio. Sempre 
tive. No sou de demonstrar emoes. E lamento muito por isso."
"No chore, mame."
"Lamento mesmo", Esther soluou.
Ela nunca havia chorado na frente da filha. E houve vezes, muitas vezes, em que no chorar na presena de Penny requereu dela uma fora sobre-humana. Os vestgios 
da maquiagem da noite anterior escorriam pelo seu rosto, e ela deixou as lgrimas rolarem. Tentou se lembrar do que a levara a se conter na presena da filha. Para 
se mostrar forte? No parecer piegas? A conteno parecia absurda naquela hora. Por que no expremir seus sentimentos? Por que no se permitir t-los?
Penny esfregou as costas de Esther com carinho, dizendo:
"Vamos l, vamos l", e depois zuniu em direo ao Plaza.

Captulo 35

BRAM SAIU S PRESSAS DO QUARTO do pai. Lvido, inflamado, fervendo de raiva. Apoiando-se ao longo das paredes do corredor, ele se lembrou de que o seu velho amigo 
tambm estava em algum canto daquele hotel.
Desceu de elevador at o saguo e l encontrou uma cabine telefnica.
Solicitou  telefonista que o colocasse em contato com Morris Nova.
''Al?''
Bram quase chorou quando ouviu a voz do amigo.
"Qual  o nmero do seu quarto?", ele perguntou, debilitado.
"Mil duzentos e vinte e quatro", Morris respondeu. "Quem  que est falando?"
Bram desligou o fone. Seu amigo de infncia no reconhecera sua voz, e mesmo assim fornecera o nmero do quarto. Morris nunca fora muito inteligente.
Ele decidiu queimar um pouco de sua raiva subindo de escada at o dcimo andar. Depois de ter ficado encarcerado por dias, isso seria um bom exerccio para ele. 
Quando ele chegou ao dcimo andar, a raiva j se esvara.
Quando encontrou o quarto 1224, beijou a porta. Era o portal que o levaria a um mundo so, onde estaria resguardado das mulheres da famlia Bracket e de suas respectivas 
aliadas. Ele chacoalhou a maaneta chamando por Morris, e no parou at que a porta se abriu.
"Bram! Cara!", Morris estaria nu, se no fosse pelo lenol enrolado  cintura.
Aos tropees, Bram agarrou-se ao amigo.
"Morris", ele respirou fundo. "Cara, como  bom te ver!"
"O que houve?", perguntou Morris, aparentando nervosismo.
"Fui ao inferno e voltei", respondeu Bram. "E o inferno no  nada bonito."
"Acredito!", disse Morris, tentando se soltar do abrao desesperado do amigo. " melhor voc se sentar."
Bram largou o amigo e pegou uma cadeira. Afinal, no queria manter tanta intimidade com os plos do peito de Morris. Esfregou o nariz e sorriu. Enquanto isso, Morris 
enchia uma taa de champanhe de uma garrafa j aberta. Na mesa via-se apenas uma bandeja de morangos e uma caixa de chocolates.
"Ento, de volta do inferno", Morris falou enquanto se sentava na beira da cama. "Onde voc estava? No sul de Nova Jersey?" Ele olhava com nervosismo para a porta 
fechada do banheiro.
"Se voc precisa ir ao banheiro, vai l", disse Bram.
"Estou bem."
Bram deu uma pausa, analisando o amigo.
"Cara, voc est diferente."
"Cortei o cabelo", disse Morris.
"E se barbeou. E... voc est usando base no rosto?"
"S um pouquinho", Morris se justificou. " s uma experincia. Nada alarmante."
"Cara, quando um homem comea a usar maquiagem, garanto que isso  alarmante."
"Esquece, cara. Foi... uma garota que fez isso." Morris desviou os olhos novamente para a porta do banheiro. "Ela gosta de homens com mscara. Disse que isso a faz 
lembrar suas razes punk rock. E a deixei que' ela me maquiasse.  uma atriz. Adora uma experincia.  muito persuasiva. Se  que voc me entende."
"E a Miss Chupadora est agora no banheiro?"
"Tomando banho", disse Morris. "Leva um tempo debaixo do chuveiro. Uns quarenta e cinco minutos. No fao a menor idia do que ela faz l."
"Voc j olhou?", Bram quis saber.
"Nem pensar, " Morris rebateu. "Ela tranca a porta e tapa a fechadura com a toalha."
"De repente, ela  ele", Bram comentou.
"Fique tranqilo, porque j fiz um inventrio completo das partes dela", disse Morris.
Na companhia do velho amigo, o corpo inteiro de Bram relaxou.
" realmente muito bom te ver", ele repetia. "Voc  a nica pessoa sadia que sobrou. O resto est completamente maluco. Meu pai, Penny. Esther Bracket  totalmente 
psictica. Eu sempre soube que ela era uma luntica. Exatamente como escrevi naquela carta."
"Que carta?", Morris perguntou.
''A carta que deixei pra voc no meu apartamento. Era pra voc me encontrar l na manh de ontem. No foi, n?"
"Eu... voc no estava l?"
"E nem voc, suponho."
"Bram, desculpe. Fui pego por essa garota. E seu pai praticamente arrancou a verdade de mim. Voc no o viu l?"
"Voc contou pro meu pai onde eu estava?" A cabea de Bram entrou em parafuso. "No posso acreditar nisso."
"Ele me aplicou o tratamento de soprar no ouvido", disse Morris. "Tive que ceder."
"Ento, voc me sacaneou e mandou meu pai em seu lugar? Ser que ele leu minha carta?", Bram perguntou. Impossvel. Se Keith tivesse lido, no iria pra cama com 
Esther Bracket de jeito nenhum. 
Ele pulou da cadeira.
"O que pedi pra voc era uma coisa simples; era s me encontrar no meu apartamento s dez horas da manh, no domingo. E voc fodeu com tudo, cara!"
"Desculpe", Morris falou de maneira nada convincente, enrolado no lenol. "Tecnicamente, voc me pediu duas coisas: uma, entregar o bilhete de cancelamento de casamento 
a Penny; outra, me encontrar com voc no seu apartamento."
"Pattico", Bram replicou.
" essa garota", disse Morris. "Ela est fodendo com meu crebro. Literalmente. Toda vez que a gente transa, fico mais estpido. Acho que estou apaixonado."
"Voc tambm, no!", Bram lamentou. "Quem  ela? Alguma vadia que voc achou no bar?"
"Voc disse vadia?", uma voz esganiada soou do banheiro.
Morris encolheu-se. Bram olhou para a esganiada de peites estufados num peignoir enfeitado com penas de avestruz e de galinha. Seu cabelo estava molhado, e a gua 
escorria pelos seus ombros. Seus lbios carnudos crispavam-se de indignao.
"No posso acreditar nisso", disse Bram. "Vita Trivoli? A melhor amiga de Penny!" Aquilo era to terrvel quanto encontrar o pai com Esther Bracket.
"Em que buraco voc andou metido?", Vita gritou, avanando para Bram com suas penas de avestruz. "Eu podia te matar pelo que voc fez com Penny! Seu desalmado, seu 
covarde, seu capado..."
"Essa  a ltima vez que confio em voc", Bram falou para o ex-amigo. ''Aposto que voc contou tudo pra ela."
"O que  que Morris podia me contar?", Vita gritou. "Ele no sabia nada sobre os seus planos desprezveis."
"Ento com ela voc manteve, a boca fechada", Bram falou com desprezo. "Foda-se!"
A plenos pulmes, Vita disse para Morris:
"Voc jurou por voc mesmo mortinho que no sabia onde o Bram estava escondido. Mentiu pra mim! E pra Penny. Na hora que ela mais precisava!"
''Por favor,Vita,cala a boca!" Bram estava com a cabea estourando.
"No me mande calar a boca", ela berrou.
"Morris", disse Bram. "Ser que d pra voc controlar sua mulher?"
Vita no gostou disso. Avanou furiosamente na direo de Bram. Ele a repeliu. Com jeito. Mesmo assim ela caiu no cho. Bram gemeu. Agora Vita contaria para Penny 
que tinha sido jogada no cho por ele. Ele fechou os olhos, segurando o nariz. Depois, ouviu o som de um baque. De repente, Bram deslizou atordoado da cadeira e 
despencou no cho.
Sua viso se nublou. Ele ouviu outro baque mais violento. Um enorme peso projetou-se em cima dele. Depois, tudo escureceu.


































Captulo 36
 
"E AQUI ESTAMOS, DISSE PENNY" no caminho de entrada do Plaza.
"Mudei de idia", disse Esther, encolhendo-se em seu banco, com medo de ser vista por Keith Shiraz. "No vou entrar. Voc no precisa de mim."
"Se eu no estiver de volta em quinze minutos,  melhor voc me procurar", a filha falou.
"Telefona pro meu celular quando chegar l em cima."
"Est bem", disse Penny saindo da caminhonete Volvo.
Esther admirou a filha, que subia graciosamente a escada do hotel. Tinha pernas musculosas. Firmes. Ela podia conseguir coisa melhor que Bram Shiraz. Mesmo que ele 
no fosse advogado ou demolidor, ainda assim odiaria o cara. Pelo simples fato de ele ter pensado que ela era uma assassina. Isso fora uma forma de anular as inclinaes 
positivas de Esther. Penny aparentava resignao pela rejeio dele. Isso era bom, pois com ele morto no haveria chance de se reconciliarem.
Enquanto olhava pela janela do carro, avistou o manobrista caminhando em sua direo.
"S vou ficar sentada aqui por um minuto", ela falou pela janela.
"No tem problema, madame", ele respondeu, sem demonstrar qualquer trao de interesse por ela ou por sua proposta. Dez anos atrs, ela pensou, qualquer homem lanaria 
um sorriso de conquistador e trs segundos extras de contato visual. Desde os catorze anos de idade ela era objeto de desejo, e via essa ateno como um incmodo. 
Agora, sentada no carro sozinha, Esther se sentia velha, invisvel. Seus poderes femininos murchavam, pelo menos com os homens mais jovens.
Com os homens mais velhos ela ainda mantinha seus atributos. Na noite anterior Keith fizera amor com ela trs vezes. Fora muito atencioso. Quando ele a penetrou, 
ela se sentiu acesa por dentro, como se o pnis dele fosse uma luz que brilhava e iluminava cada um de seus poros. Ela se acendeu com ele. Ainda podia sentir o brilho, 
embora soubesse que logo apagaria.
Se ela o tocasse outra vez, seria com um cassetete. Se Keith no a matasse (ou a considerasse morta) e Bram (por favor, esteja morto, ela pensou) no a fizesse parar 
na cadeia, ela tentaria se abrir para um relacionamento. Por mais que a idia de permitir um pnis estranho em seu corpo fosse grosseira. Ela no queria sexo. Queria 
Keith. Esse era o ponto.
Chegou um outro carro. Um Cadillac creme. O manobrista pareceu gostar mais da motorista recm-chegada que de Esther. Ele a recebeu com as devidas mesuras. Abriu 
a porta do carro, e ela por sua vez saiu rebolando. Ela podia. Ashley Longmead ainda tinha um belo traseiro.
Esther encolheu-se no banco; no queria ser vista nem forada a um papo, por menor que fosse. Mas que merda Ashley est fazendo aqui?, ela se perguntou. Esticou-se 
um pouco para o alto, espiou pela janela, e l estava Ashley, vestida de minissaia, com uma blusa de alcinhas - um lobo em pele de cordeiro -, a subir languidamente 
os degraus da escada, sacudindo o traseiro - que, pelo gingado, no tinha sido cirurgicamente esticado (ainda).
Esther esperou trs minutos. Depois, saiu do carro e dirigiu-se ao manobrista.
Colocou as chaves e uma nota de vinte na mo dele.
"Mantenha o carro por perto", ela falou, subindo apressadamente a escada e empurrando a porta do hotel com fora.
Apostaria toda a sua fortuna em que Ashley tinha se embonecado da cabea aos ps s para visitar Keith Shiraz.
"Como um rato em cima do queijo", ela murmurou consigo mesma  (embora as pessoas no saguo ouvissem e lanassem olhares intrigados para ela). Seu rosto estava emplastrado 
de maquiagem escorrida. Seu cabelo, urna desordem s. Parecia uma encrenqueira louca de meia-idade. E talvez fosse mesmo. Enquanto esperava o elevador, um homem 
se ps a observ-la.
"T olhando o qu?"
Confuso, ele se retirou. Ela subiu sozinha no elevador at o dcimo segundo andar. Os dois estavam no quarto de Keith. Juntos. Sem dvida, ela pensou, ao mesmo tempo 
em que apertava o boto com insistncia, apesar de o elevador estar subindo rapidamente (como sua presso sangunea). Apesar do cime e da raiva que sentia, ela 
ainda tinha cabea para reconhecer at que ponto suas emoes tinham se descontrolado nos ltimos dias, a partir do momento em que golpeara a cabea de Bram. Sua 
teoria estava se comprovando. Aquele golpe tinha destravado o subconsciente dela. Esther devia pensar seriamente em alguma coisa na qual pudesse bater se quisesse 
progredir um pouco mais emocionalmente. Um sorriso leve abriu-se em seu rosto. Ela sabia exatamente em quem gostaria de bater.
Chegou ao dcimo segundo andar e invadiu o corredor. Seus passos eram amortecidos pelo tapete. J em frente ao 1214, ela encostou o ouvido na porta, na expectativa 
de ouvir alguma coisa. Sons abafados, vozes. Mais de uma pessoa.
Mexeu na maaneta e viu que a porta no estava trancada. Podia abri-la e fazer uma entrada dramtica. Contou at trs. Depois, girou a maaneta e entrou no quarto 
aos gritos.
"Ah-ha!"
L estavam eles. Ashley e Keith, na cama. Ele, de roupo; ela, sentada em cima dele. Uma posio comprometedora, se  que se podia chamar assim.
Esther pestanejou. Esperava por uma cena cmica. Ela irromperia no quarto e diria o "ah-ha!" ao encontr-los jogando cartas. Eles poderiam olh-la com carinhosa 
tolerncia, ela gaguejaria algumas palavras a respeito do seu "cime idiota" e logo todos ririam como bons amigos.
Mas a verdade  que a idia de se ver diante daqueles dois com a cala arriada (e/ ou a saia levantada) parecia rebuscada demais. Paranica.
"Sa daqui no faz uma hora e meia, e voc j est se enroscando com outra!", ela gritou para Keith.
"Como  que voc entrou aqui?", ele perguntou.
Esther precipitou-se para a cama e bateu em Ashley com a bolsa.
"Sai de cima dele!"
Ashley afastou-se de Keith e levantou-se. Deu uma volta para evitar a bolsa de Esther. Pegou a prpria bolsa sobre a mesa e tirou o batom de dentro.
"Esther, que bom te ver! Voc est to... to pssima, querida", ela falou, passando o batom nos lbios.
"Quanto tempo voc levou pra cham-la depois que eu sa?",  Esther quis saber de Keith.
"No chamei ningum", ele esbravejou. "E voc no saiu. Coloquei-a pra fora!"
"Sim, mas voc no queria fazer isso", Esther replicou.
"Voc seqestrou o meu filho!", ele disse. "E mentiu sobre isso. Durante dias. E noites. Bem, s uma noite."
"Uma grande noite", ela corrigiu.
Contra a sua vontade, Keith teve que rir.
"Estou longe de perdoar e de esquecer, Esther", ele avisou. "E para sua informao, Ashley chegou aqui cinco minutos atrs... inesperadamente e sem ser convidada."
"Ela tomou a liberdade de vir?"
Ele assentiu com a cabea.
''Acho que sim."
"E tomou a liberdade de trepar com voc?", Esther perguntou.
"Meu Deus, Esther, voc nunca pra de reclamar?", Ashley comentou com a preciso de uma navalha alem. "Escuto suas lamrias h mais de vinte anos, e j estou cheia! 
Se tiver que ouvir mais uma palavra sua, corto a sua garganta!"
Esther olhou para a vizinha e (at aquele momento) querida amiga de olhos arregalados.
"Ento,  melhor parar por aqui", disse Ashley.
"No fala assim com a Esther!", disse Keith.
Ele est me defendendo, ela pensou com carinho. Talvez no arrancasse as tripas dela.
"No pude me controlar, Esther. Eu o queria. Desde que o vi no seu jardim, s tenho pensado em seduzi-lo", disse Ashley.
"E por que essa grande atrao?", Esther quis saber. "Ele  gorducho. E no  rico o bastante pra voc."
"Ei!", Keith exclamou.
"Eu no quis ofend-lo", disse Esther.
"Sei que ele  gordo e pobre...", Ashley rebateu.
''A palavra certa  'corpulento", ele protestou.
" ...mas, de qualquer maneira, eu o queria. Porque ele queria voc", ela completou. "Voc sabe muito bem que sempre afastei todo homem que se aproximava de voc. 
Fiz isso dezenas de vezes desde que Russell morreu."
"Eu achava que voc estava me protegendo", disse Esther.
''Voc  uma ingnua, no tem desconfimetro", Ashley replicou.
"Sempre foi assim. No consegui acreditar quando Russell a trouxe pra casa. Uma secretria de vinte anos de idade? De Ohio? Voc no sabia nada de nada. E por voc 
ele deixou de lado uma mulher muito superior."
"Ele se divorciou da primeira mulher um ano antes de me conhecer! Um ano antes!", Esther balbuciou.
"No estou me referindo a Shirley", Ashley falou com rispidez, ainda remexendo na bolsa.
"Ento, de quem est falando?"
Ashley suspirou com enfado.
"S um palpite: acho que ela est se referindo a si mesma", disse Keith, agora em p ao lado de Esther.
"Voc?", disse Esther para a vizinha. "Mas voc era casada com Lawrence!"
"Eu ia abandon-lo", disse Ashley. "Naquela ocasio j fazia dois anos que eu tinha um caso com Russell. E planejvamos fugir juntos. Ele precisava fazer uma ltima 
viagem de negcios, e fugiramos quando retornasse de Ohio. Foi uma agonia esperar o retorno dele. Todo dia eu espionava a casa dele de binculo. At que um dia 
a limusine estacionou na entrada da casa. Eu o vi sair e chorei de alegria. Mas a voc tambm saiu do carro, com suas longas pernas e seu cabelo louro. No mesmo 
instante percebi que ele havia mudado de idia em relao a mim. Vomitei l mesmo onde estava, no peitoril da janela do meu quarto. Ele me trocou por voc da mesma 
forma que tinha trocado a Shirley por mim. Jurei que me vingaria de Russell. E de voc."
Buzz.  O celular de Esther.
''Al'', ela respondeu mecanicamente.
"Mame", Penny falou quase sem flego. "Voc tem que subir at aqui.  uma emergncia!"
"Desliga", Ashley ordenou.
"Te ligo depois", disse Esther fechando o aparelho e cravando os olhos no cano da arma que Ashley apontava.










































Captulo 37

PENNY OLHAVA PARA O CELULAR SEM poder acreditar. Esther tinha desligado na sua cara. Estava pouco se lixando.
"O que  que eu fao?", disse Vita.
''Vamos ligar para o 911!"
"No podemos", Vita argumentou. ''Vo nos prender por assassinato. Ou por massacre de homens."
"Isso seria verdade", Penny falou, "se eles estivessem mortos, mas no esto." Ela tinha examinado a jugular de Morris e Bram e constatara que estavam vivos, embora 
inconscientes.
Isso significava que Bram havia sofrido duas contuses num perodo de trs dias, ela se deu conta. Mas no disse nada; no queria aborrecer Vita mais do que j estava, 
se  que isso era possvel.
"Eles esto mortos!", sua amiga baixinha delirava, arrancando as penas do robe e batendo no peito com as mos bem-cuidadas.
"Olhe aqui, sente s", Penny sugeriu.
A estrela de novelas caiu de joelhos e apalpou o peito de Bram; sua mo subia e descia com a respirao dele. "Ele tem um corpo", ela observou.
"Fiz um bom uso dele na noite passada", Penny falou, rindo at os dentes. "L na cabana da piscina."
"E como  que ele apareceu na sua casa?", Vita perguntou, confusa com o que acabara de ouvir.
Penny fez uma pausa; no queria entrar na histria do seqestro.
"Ele emergiu, s isso", ela desconversou.
Vita examinou os movimentos do peito e do pulso de Morris.
"Morris. Acorda!" Ela segurava o queixo dele e balanava a sua cabea para ambos os lados. "No gosto deste Morris aqui", ela comentou. "Tem uma ereo permanente. 
Goza e continua duro.  um investigador particular. Ele me examinou com uma caneta luminosa. E claro que chegou l no fundo, se  que voc me entende."
"Voc j tentou gelo?"
"L?", Vita perguntou.
"Para reanim-los", exclamou Penny, checando o balde de champanhe prateado, cheio at a metade de gua gelada. ''Vou adorar fazer isto", e despejou a gua no resto 
de Bram.
Ele gaguejou, sacudindo a cabea. Revirou os olhos e voltou a desmaiar.
Enquanto isso, Morris comeava a se mover.
"Olha s!", disse Vita, apontando para a cabaninha de lenol entre as pernas dele. "Eu no falei?"
"Deve estar sonhando com voc!", disse Penny.
"Se ele tiver alguma dvida quanto  minha capacidade de representar o papel", disse Vita, "bato nele de novo com uma garrafa de champanhe."
''Voc vai ser a primeira atriz em Nova York que golpeia o seu meio de subir na carreira. Ou, no seu caso, de afundar", Penny comentou. Olhou a expresso inerte 
de Bram. Fazia alguns meses que no a via assim to serena, nem mesmo quando ele dormia. Examinou outra vez o pulso e notou que ele estava usando o anel dela no 
dedo mindinho.
O corao de Penny desceu at as entranhas. Se ela no estivesse de joelhos, certamente desceria at os ps.
"Estou preocupada com o Bram", ela disse. "Temos que pedir ajuda."
"Tenta ligar de novo pra sua me."
"Como se ela fosse fazer alguma coisa por ele", Penny ironizou.
"Quem mais a gente pode chamar? Os seguranas do hotel, nem pensar!"
Keith Shiraz estava hospedado no Plaza.
"Vou buscar o pai do Bram", disse Penny.
"E trazer ele aqui?", Vita perguntou enquanto fechava o robe at o pescoo, num show de recato.
Para Vita, tudo era um show.
"Vou voltar logo. No bata nele enquanto eu estiver fora."
Penny olhou novamente para Bram, levantou-se e o deixou com Vita, que a essa altura procurava alguma roupa decente na mala para vestir.










































Captulo 38

ESTHER J TINHA VISTO DIVERSAS VEZES a arma de Ashley. Era uma pistola calibre 22 com cabo de madreprola, fabricada pela Smith & Wesson. Modelo de fabricao limitada, 
Ashley dissera com orgulho
para Esther quando lhe mostrara a arma pela primeira vez, anos antes. Era um revlver leve com gatilho de fcil manuseio, elaborado e fabricado para mulheres. Esther 
sabia que a amiga o carregava para todo canto. Mas quando Ashley o sacou da bolsa de crocodilo e o apontou para ela, no acreditou em seus olhos.
"Isso no tem graa", Keith falou.
"Para o banheiro, vocs dois", Ashley ordenou.
Esther segurou a mo de Keith. Sua cabea girava de volta no tempo. Lembrou-se da festa de natal em que Russell beijara Ashley debaixo do visco. Do dia em que ela 
entrara em trabalho de parto e em pnico chamara por Ashley porque no conseguia encontrar Russell, que por sua vez apareceu dois minutos depois com a camisa toda 
amarrotada.
"Voc nunca parou de dormir com ele!", ela falou com os braos erguidos.
"Para a banheira", Ashley ordenou.
"No se preocupe, Esther", disse Keith enquanto se encaminhava para a banheira. "Tenho tudo sob controle."
"Estou vendo", Esther retrucou.
"Ficamos rompidos por uns dois anos", disse Ashley, "mas ele voltou pra mim quando voc engravidou. Passou a detestar o seu corpo. Recomeamos nossos planos. Ele 
dizia que no podia te abandonar enquanto a criana no nascesse. Eu no entendia a razo, mas estava decidida a esperar. Penny nasceu. E ele ento comeou a dizer 
que no queria sair de casa com ela ainda to pequena. Estava preocupado. Voc era uma me incompetente. Ele tinha medo que voc fizesse mal  filha dele. Foi a 
que ele contratou aquela bab inglesa pra te ajudar. Eu aprovei. Se o deixaria mais  vontade pra te abandonar, tudo bem. Quando Penny estava com trs anos, Russell 
apareceu com uma idia brilhante. Para me proteger, ele diria que ia fugir com a bab. Jemima fingiria ser amante dele em troca de vinte mil dlares. Quando ele 
estivesse oficialmente divorciado, voltaria pra mim."
"Mas ele realmente amava a Jemima", disse Esther.
"Ele confiava em mim", Ashley rebateu. "Precisava que eu ficasse de olho em voc durante a batalha do divrcio."
"Ento, ele te traiu. Duas vezes", Esther replicou. "No fiz nada contra voc."
''Voc casou com ele!", Ashley afirmou. "Teve um filho dele!"
Atrapalhando-se com o roupo, Keith projetou-se para a frente e agarrou o cano da arma. Seus ps escorregaram no piso azulejado e ele caiu de costas, batendo com 
a cabea na borda da banheira. Ficou estirado no cho do banheiro.
"Keith!", Esther gritou.
"No se mova", disse Ashley.
"Ele no tem nada a ver com isso!"
"Ele me rejeitou", Ashley rebateu.
O crebro de Esther deu um clique.
"Foi voc que empurrou o Russell da mureta do shopping!"
"No empurrei, no", disse Ashley. "S o fiz tropear."
"O seqestro da Penny no shopping!", disse Esther, subitamente congelada.
"Foi idia minha. Sugeri para o Russell. Voc seria declarada incompetente, e ele conseguiria a custdia de Penny. Ele subornou um guarda da segurana do [i]shopping[/i]. 
E eu contratei a mulher."
"Voc arquitetou o pior dia da minha vida", Esther falou. "Eu me culpei. Eu me odiei. Aquilo determinou dcadas da minha vida. Estragou minha relao com Penny."
''Voc nunca mais vai ter que se preocupar com isso", disse Ashley, levantando a arma.
TUAC - um estalo ecoou contra as paredes do banheiro.
O corpo de Ashley tombou no cho. A cabea dela sangrava.
Esther ergueu os olhos e viu Penny em p  soleira da porta do banheiro, segurando uma garrafa de champanhe.
"Se a vida lhe d limes", disse Penny, "faa uma limonada."




































Captulo 39

"PARECE BEM MAIS ALTO HOJE", comentou Penny, debruando-se sobre a mureta da sacada do segundo andar do Short Hares Mall.
"Mais alto que o qu?", perguntou Esther.
"Que antes."
"Voc vem aqui com freqncia?", sua me quis saber.
Elas estavam em p exatamente em frente ao Pottery Barn e em cima da fonte, onde Russell Bracket fizera seu ltimo vo.
"Voc no pode me culpar porque procuro saber dele", disse Penny, que costumava freqentar aquele lugar. "Era o meu pai. E voc nunca me disse nada."
"E tambm lamento muito por isso", disse Esther.
Penny gostava (desconfiando) da nova atitude de mea culpa da me. Aceitara os esclarecimentos e as desculpas, j que fazia tempo que esperava por isso. Por outro 
lado, agora sua me parecia frgil e sensvel,
Um contraste gritante com a antiga intocabilidade de Esther. Agora Penny tinha me. Mas sentia falta da mulher durona que a criara. Ela observava o movimento no 
andar de baixo - pessoas em grupos de trs a cinco que zanzavam pelos corredores, mulheres que entravam no Victoria's Secret e adolescentes que matavam o tempo por 
l.
"Eu me pergunto se ele viu Ashley antes de tropear e cair", disse Esther.
"Eu gostaria de ter sabido que Russell era essa merda", Penny comentou.
"Eu tambm", Esther rebateu.
Esther devia ter pesquisado mais o sujeito antes de se casar depois de apenas duas semanas de romance; Penny levara mais de um ano para conhecer Bram antes de aceitar 
ficar noiva. Pelo que ela sabia, at aquele momento ele ainda estava internado no Short Hares Memorial Hospital, junto com Morris Nova, Keith Shiraz e Ashley Logmead. 
Penny golpeara Ashley com fora suficiente para fraturar o crnio dela (ops). Ela estava na unidade intensiva, vigiada pela polcia de Short Hares. Vita no causara 
muito estrago nos crnios de Bram e Morris, mas ambos estavam em estado de choque. Keith Shiraz tivera uma pequena contuso na cabea e um brao quebrado. Sua queda 
tinha sido engraada.
Por mais que no aparentem gravidade, os ferimentos na cabea so notrios por apresentarem pioras sbitas. Sendo assim, os homens foram aconselhados a ficar sob 
observao mdica por quarenta oito horas. Keith e Morris trocaram ento as sutes de hotel por quartos contguos de hospital. Bram ficou em outro quarto.
Penny fez com que eles ficassem bem-acomodados no hospital. No que os tivesse visto. Keith, Bram e Morris desistiram de prestar queixa contra Penny, Vita e Esther, 
aquelas garrafeiras loucas, mas solicitaram ordens de proteo contra elas. Individual e coletivamente. A menos que sangrassem ou apresentassem fraturas, elas seriam 
presas se entrassem no hospital.
"Compreendo que voc era jovem e queria escapar de sua famlia", disse Penny. "Papai era importante. Mais velho. Rico. Voc no desconfiou que ele pudesse ser amoral?"
Esther apoiou os cotovelos na mureta.
"Fiz essa pergunta milhes de vezes a mim mesma. Seria bem melhor se eu tivesse visto alguma coisa ou escutado com mais ateno quando ele falou do seu primeiro 
divrcio. Ou notado as pistas relacionadas a Ashley, que hoje parecem bvias. Eu estava fascinada. E havia Shirley, Ashley e Jemima. Quem sabe quantas mais?" Ela 
fez uma pausa e olhou a fonte l embaixo. "Ele deve ter se apavorado quando despencou. At agora eu nunca tinha sentido pena dele."
"E Penny sempre sentira pena dele - at aquele momento."
"Por mais que o fim tenha sido horrvel", Esther continuou, "o comeo com Russell foi maravilhoso. Quando fiquei grvida, ns explodimos de alegria. Vou tentar me 
lembrar dele dessa maneira."
"Boa sorte", disse Penny.
"Se eu pudesse voltar atrs, casaria com ele outra vez.  lgico que dessa vez seria mais esperta e teria um bom advogado."
"Isso  insano", disse Penny. "Voc podia ter casado com um homem bom e decente. Algum que sua famlia aprovasse. Algum que pudesse faz-la feliz."
"Mas a no teria tido voc", Esther replicou.
Ainda na mureta, ela estendeu a mo para a filha. Penny se aproximou mais da me e apoiou o brao no ombro dela. Esther correspondeu ao movimento da filha, e de 
repente as duas se abraaram.
"No olhe agora, mame. Estamos abraadas."
"Com licena", uma voz feminina falou atrs delas.
"Vem aqui", chamou Penny. Vita voltava da Mrs. Field's com um pacote de biscoitos de chocolate.
"No gosto de abrao grupal."
"Nem eu", Esther rebateu.
"Ento, se abracem, e eu fico assistindo", disse Penny.
"Voc  doente", Vita comentou.
"Ento, apertem as mos", Penny sugeriu. "Se Vita no tivesse acertado o Bram e o Morris, no teramos voltado para o hotel e voc no teria seguido a Ashley at 
o quarto de Keith, e ficaria sem conhecer a verdade sobre ela. Eu no teria sado em busca de Keith  e no teria detido Ashley. Graas a Vita, voc ficou livre de 
qualquer suspeita. Ashley est sob vigilncia policial no hospital enquanto estamos aqui no shopping, comendo biscoitos."
"Obrigada pelo sumrio, Penny", disse Esther, "e obrigada por t-los golpeado, Vita."
"De nada, Esther."
"Estou olhando", Penny falou.
"Querida, preciso contar uma coisa: voc no  judia."
"O qu?"
"Eu queria muito te dizer isso", Esther continuou. "Teu pai era judeu, mas eu nasci e fui criada numa famlia catlica."
"Eu sabia!", Vita exclamou. "Ningum com um cabelo assim podia ser judeu."
"Meu pai era um adltero", disse Penny, e tenho metade de sangue judeu. E o que mais? Por acaso nasci com duas cabeas?"
"No, mas voc tinha seis dedos no p direito", Esther rebateu.
''Voc est brincando", disse Penny, piscando.
''Voc j reparou que nenhuma foto sua de beb mostra os ps?"
"No estou achando graa nenhuma."
"Ns vamos ou no vamos fazer compras? Voc prometeu nos encher de presentes, Esther", Vita interrompeu.
"S um instante." Penny pescou uma moeda no bolso. "Meu ritual." Ela arremessou a moeda na fonte e se ps a observ-la enquanto caa em cmera lenta pela abertura 
da esfera.
"Conseguiu!", Vita gritou, batendo palmas.
"Pela primeira vez", disse Penny, abrindo um sorriso largo. "Depois de quase dez mil tentativas."
"Isso quer dizer que voc jogou centenas de dlares nessa fonte?",
Vita perguntou depois de fazer alguns clculos de cabea.
" verdade, Penny?", Esther quis saber.
Era verdade, embora ela tivesse parado de contar depois de cinco mil arremessos, aos quinze anos de idade. Costumava levar rolos de moedas para aquele lugar e arremessava 
uma de cada vez em seu tmulo aqutico.
"Voc sempre faz o mesmo pedido ou muda de cada vez?", Esther perguntou.
"Sempre o mesmo pedido", Penny respondeu.
"Bem, como dessa vez acertou o alvo, claro que ele vai se realizar."
"Tomara que no seja um desses pedidos chatos", disse Vita. "Como sade e felicidade."
"Meu desejo era ganhar um outro bichinho de estimao", disse Penny, mas tinha em mente algo completamente diferente.
"Eu estava errada", Esther comentou. "Esse desejo no vai se realizar."
































Capitulo 40

VITA RETORNOU A NOVAYORK E ao seu personagem na novela The House of Blusher. Esther e Penny foram para a manso assustadoramente vazia. Exceto pelos esquilos. E 
pelos enormes urubus pousados no telhado, prximos da clarabia.
''A casa fica estranha sem Natasha", Esther falou.
"No consigo acreditar que ela tenha ido embora", Penny comentou. "Eu achava que ela nos amava."
"Natasha amava na medida em que podia amar algum", disse Esther. "O que significa que ela no amava assim to profundamente. S cuidava de si mesma."
"Mas voc faz isso e mesmo assim no deixa de amar", Penny replicou.
"Decidi que agora vou comear a dar algumas festas", Esther anunciou. "Quero ampliar o meu crculo social."
"Me convida", disse Penny.
"Voc no vai ficar?", perguntou Esther. ''Achei que se mudaria  aqui pra casa. "
"E desistir do meu apartamento no Village? Nem pensar!"
Esther se sentiu feliz, mesmo que a manso ficasse ainda mais assustadoramente vazia sem a filha nem a russa.
''Ainda no vi como ficou o quarto de Natasha", disse Esther.
Juntas, elas entraram no quarto vermelho. Esther se deparou com a cama nua, os aparadores vazios e marcas quadradas nas paredes, onde os quadros estavam dependurados. 
Abriu as gavetas dos armrios s para ver se Natasha tinha deixado alguma coisa. E ficou surpresa por Natasha no ter carregado o armrio.
Mas ela se enganara. Natasha deixara algo para trs. Um envelope branco que Esther encontrou no centro de uma gaveta.
"O que  isso?", Penny perguntou.
"Um outro bilhete?", perguntou Esther. "No tenho mais estmago pra isso. "
Penny pegou o envelope e o abriu. Removeu os papis e os sacudiu a fim de examin-los.
"Duas passagens de avio e um comprovante de pagamento de txi", ela falou.
"Deixe-me ver", disse Esther, examinando cuidadosamente a pequena pilha de papis. J tranqila, ela viu que as duas passagens eram para o Hava, com partida marcada 
para a manh do dia seguinte.
Uma estava em nome de Penny Bracket. A outra em nome de Bram Shiraz. O txi fora contratado para uma corrida at o aeroporto internacional de Newark.
Havia um bilhete anexado na passagem de Bram. Esther reconheceu imediatamente a letra de Natasha. E o leu: "Esther e Penny, queridas, achei as passagens no quarto 
de Penny. Queria us-las com a Alexia. Mas a chegou o fax de minha me. Vocs duas devem ir para o Hava. Divirtam-se. Peguem uma cor. E quando estiverem na praia, 
pensem em mim, tremendo de frio em Moscou, e comendo carne no espeto assada numa pilha de lixo em brasa. Com amor, Natasha".
"Ela ia roubar as passagens da minha lua-de-mel!", Penny exclamou.
"Ento ela estava planejando sair daqui antes do fax", disse Esther. "Acho que devemos seguir  o conselho de Natasha. Vamos nos divertir. Pegar uma cor. E imagin-la 
fazendo churrasco assado numa pilha de lixo em brasas."
"Natasha parece uma personagem de desenho animado: "Mate os cervos e os esquilos", Penny comentou. "Por falar nisso, se vamos partir amanh para o Hava, seria bom 
chamar o dedetizador hoje."

"Cad o carro?", Esther perguntou pela dcima quinta vez.
Ela e Penny estavam mais que prontas para partir; plantadas  frente da manso (sem esquilos) com as malas. O txi j era para ter chegado vinte minutos antes. Com 
a margem de tempo que Esther estimara, elas j estavam a ponto de chamar um outro txi, caso o primeiro no aparecesse nos prximos trinta segundos.
"Chegou", disse Penny, avistando um sed preto que subia pelo caminho da casa. "E se voc vai ficar neurtica, seria melhor a gente ficar em casa."
''Vou relaxar quando estivermos em segurana", replicou Esther, que no passava bem em viagem.
O motorista estacionou, saiu do txi e ps as malas no porta-malas enquanto Esther e Penny se acomodavam no confortvel banco de trs.
O vidro escuro que separava o motorista dos passageiros estava arriado.
"Bom dia, senhoras. Meu nome  Charlie. Se as senhoras precisarem de alguma coisa, por favor, me avisem", ele disse ao entrar no carro.
"Vamos logo", Esther falou com vigor. "Para o aeroporto de Newark, por favor. Em frente ao porto da American Airlines."
"Pois no, madame." Ele ligou o carro e apertou um boto. Imediatamente, o vidro escuro subiu.
"Ele gostou de voc", disse Penny.
"Cale a boca", Esther rebateu.
O carro comeou a descer a rampa e depois tomou o caminho da estrada. As portas trancaram-se com um rudo metlico
"Est fazendo calor aqui dentro", Esther comentou. E tentou abrir a janela. "Trancada. Tente abrir a sua."
"Trancada", Penny falou.
Esther deu uma batidinha na divisria de vidro.
"Charlie. Queremos abrir as janelas."
Nenhuma resposta.
"Ele no consegue nos ouvir", Penny afirmou.
Esther achou um interfone e repetiu seu pedido.
O homem no respondeu, mas de repente o ar-condicionado comeou a funcionar.
Esther e Penny se entreolharam, perplexas.
Finalmente, o txi se aproximou da entrada do aeroporto. Mas em vez de entrar nela, dirigiu-se para a entrada que dava na rodovia New Jersey Turnpike.
''Voc pegou a entrada errada", Esther falou pelo interfone. E acrescentou para a filha: "Ser que ele nos ouve? No consigo enxergar nada pelo vidro."
"Estou com uma sensao de que estamos sendo observadas", disse Penny.
Esther puxou o interfone:
"Pra esse carro. J!"
Mas o motorista continuou na direo norte, rumo aos pntanos de Meadowlands.
"No se preocupe, mame", disse Penny. "Eu posso peg-lo. Sei alguns golpes de karat."
"Esse homem pesa uns cento e cinqenta quilos!"
"Usarei a fora dele contra ele prprio", Penny explicou.
"Suas artes mgicas e marciais faro com que ele d um soco em si mesmo?"
"Voc acha que estamos sendo seqestradas?", Penny perguntou.
"Se sobrevivermos, eu vou matar Ashley por isso!"
"Mame, ela est em coma."
"Ela conseguiria planejar o meu fim mesmo do tmulo!"
"Olha, ele est diminuindo a marcha."
"Prepara o teu karat", disse Esther. "Se por acaso isso for o fim, quero que voc saiba que te amo. Que vivo pra voc. Que espero que' voc se apaixone outra vez."
"Eu ainda amo o Bram", Penny confidenciou. "Se essa  minha hora derradeira, devo admitir esse amor para mim mesma."
"Ento, espero que voc o consiga de volta", disse Esther.
"Voc vai apoiar o relacionamento?"
"Com certeza", Esther afirmou. "E at pago uma outra festa de casamento. Menor,  claro. Sem buf. Nem bolo. Somente canaps. Brinde com champanhe, mas sem outras 
bebidas."
"Pra mim, est perfeito", Penny falou. "Ento, voc concorda que vale a pena perseguir o amor?"
" claro que vale a pena", Esther assentiu. "Mas, e depois que voc conseguir agarr-lo?"
"Que tal aliment-lo com coquetel de camaro?", respondeu Penny.
"No se esquea do salmo defumado", Esther replicou. "Olha s, filha, ele est estacionando. Onde ser que estamos?"
"Parece um acostamento." Era a parada do Vince Lombardi Memorial.
De repente, os trincos das portas foram destravados. O motorista saiu do carro e abriu a porta de Penny.
''Aqui estamos, senhoras", ele disse, inclinando-se.
"Voc est falando no sentido metafrico?", Esther comentou.
"O passeio acabou", ele afirmou.
"Na estrada que chamamos de vida?", Esther rebateu.
"Por favor, saia do carro", ele insistiu.
"Estou saindo", disse Penny, piscando para Esther. Estendeu as pernas longas e musculosas para fora do carro.
Depois, acertou a virilha de Charlie com uma joelhada mortal.
O gorila de quase cento e cinqenta quilos se dobrou como uma boneca de papel. Penny comeou a chutar as costelas dele. Esther j estava fora do carro e aderiu ao 
ataque, desfechando pontaps nas coxas e nas costas de Charlie com o bico fino dos sapatos.
"Parem!", Charlie berrou.
"Nem tente nos estuprar e matar", Esther gritou ameaadoramente.
"S trouxe vocs para um passeio", o homem protestou, estatelado no cho.
''At o final da estrada que a gente chama de vida!", Penny replicou, dando-lhe um chute rasteiro bem no meio da barriga.
Som de passos apressados. Em seguida Penny e Esther foram agarradas e erguidas do solo, com as pernas se debatendo no ar.









Captulo 41

BRAM DIRIGIA UM DOS MUSTANGS da empresa do pai. Era um carro praticamente novo, preto, lustroso, um verdadeiro escndalo.
"Eu me sinto um novo homem", comentou ele, acelerando a mquina, que respondia maravilhosamente.
"Diminui a velocidade", disse Keith. ''A polcia vai acabar te mandando parar. Ainda mais com esse turbante!"
Bram se olhou pelo espelho retrovisor. Seu capacete de bandagens o deixava com aparncia de perigoso, como um paciente fugitivo de uma lobotomia ou um extremista 
islmico em fuga.
"O mdico disse que posso remov-lo em dois dias. E tambm me deu permisso para dirigir. Tenho isso escrito no porta-luvas."
"Cristo, mais um bilhete, no. Chega de bilhetes, est bem?", Keith retrucou, ele tambm com o brao todo engessado na tipia. "Isso inclui o nosso velho hbito 
de trocar cartas. Escrevemos um bocado, mas nunca falamos das coisas cara a cara. Vamos fazer um trato. Ou isso  categoricamente impossvel pra voc?"
Bram sabia o momento de se calar. Desde que haviam recebido alta do hospital, Keith se dedicara a expor o que sentia em relao  fuga de seu filho do casamento. 
Bram no dizia nada. Sabia que tinha pisado na bola. No precisava que o pai esfregasse isso no seu nariz.
"Pegue  direita, ali", Keith ordenou. "Naquele acostamento."
Bram entrou e em seguida estacionou numa parada de caminho.
"Quanto tempo?", ele perguntou.
"Uns poucos minutos", Keith repondeu.
"Voc acha realmente que isso vai funcionar?"
Keith deu de ombros, e estremeceu.
''Voc devia fazer isso s com o ombro esquerdo, pai."
"Vou anotar."
Os dois homens olhavam pelo pra-brisa. Bram pigarreou. Estava inquieto no assento; estalou os dedos.
"Pare com isso", Keith pediu.
"Quando mame morreu", disse Bram, "eu sabia que voc teria outra namorada. Imaginei que seria uma mulher mais nova. Daquele tipo com quem o homem sai algumas vezes, 
se diverte e depois parte para outra. Voc merecia isso, principalmente depois de tudo que fez durante a doena da mame. Eu achava que voc devia evitar relacionamentos 
mais srios. No conseguia imaginar voc com algum mais ou menos da sua idade. Devia estar com medo de que voc substitusse a mame ou de que eu tivesse que lidar 
com uma estranha que dominasse a sua vida. Quando o vi com Esther Bracket..."
''Voc foi contra Esther por outras razes."
"Mas quando o vi na cama com ela, o que me deixou louco foi pensar que voc havia me trocado por ela. Depois da morte da mame, achei que passaramos mais tempo 
juntos. E ento conheci a Penny. Acho que o deixei sozinho quando voc estava mal, no ?"
"Fiquei feliz por voc", disse Keith. "Os pais sempre desejam a felicidade dos filhos."
Bram assentiu com um gesto de cabea.
"J entendi por que Esther Bracket pirou no dia do casamento. Ela estava defendendo a filha. Mas depois do que a Penny fez com Ashley Longmead, acho que ela pode 
muito bem se defender sozinha."
Keith riu.
"Eu s lamento estar inconsciente quando ela acertou a Ashley."
"Ento, a Esther no  assassina. Espero que ela seja recompensada." Bram fez uma pausa. "O que estou querendo dizer  que por mim tudo bem que vocs dois fiquem 
juntos."
Keith sorriu, e Bram retribuiu o sorriso. O pai tentou dar um abrao paterno no filho, mas se deteve com um grito de dor.
" o brao", ele disse.
"Ainda bem que eles chegaram, papai."
O melhor carro da empresa de Keith, o carro preto, estacionava no acostamento. Charlie saiu e acenou para o Mustang estacionado nas proximidades. Eles viram Charlie 
abrir a porta traseira. Bram sorriu quando avistou uma das pernas de Penny para fora. Depois, o resto do corpo da ex (e futura noiva) se mostrou.
Bram achava que conhecia perfeitamente o corpo de Penny, mas estava comeando a conhec-lo. Eles a viram abrir um sorriso maravilhoso para Charlie e em seguida dar 
uma joelhada nos testculos dele.
''Ai'', Bram e Keith reagiram.
Penny surrava o pobre-coitado, ao mesmo tempo que gritava, com um brilho nas mas do rosto. Esther Bracket logo se juntou  filha, chutando e gritando.
Keith fez uso de seu walkie-talkie:
"George. Al, George".
Chiado.
"Sim, chefe?"
"Mande reforo para o Charlie."
"No mesmo lugar?"
"Sim", respondeu Keith, "E rpido", disse ele, desligando o aparelho.
Keith encolheu-se quando Esther chutou as costas de Charlie.
"Mais um que elas vo mandar para o hospital."
"No se deve mexer com uma garota de Nova Jersey", Bram afirmou.
"Vamos ter que nos comportar direitinho com essas duas", Keith rebateu.
"Seno elas nos chutam o traseiro", Bram acrescentou. "De novo."
" melhor det-las", disse Keith.
Os dois homens deixaram a segurana do Mustang e correram na direo das duas mulheres com a rapidez que os ferimentos permitiam.














Captulo 42

ESTHER SENTIU QUE ALGUM a levantava, agarrando-a com fora. Seus cabelos cobriam o rosto e ela no conseguia enxergar o homem que a segurava por trs. Tentou dar 
um chute para trs, mas ele a carregava
debaixo do brao, na horizontal, como um saco de lavanderia.
"Pare de se debater", ele disse. "Cada vez que faz isso, meu ombro di."
"Keith?", ela disse. O que ele estava fazendo ali? E, mais importante, teria chegado para salv-la ou para ajudar Charlie no seqestro? E acrescentou: "Me pe no 
cho".
Ele jogou-a no banco traseiro do carro. Ela olhou para trs e viu Penny conversando com Bram (que usava uma bandagem branca na cabea).
"Charlie", Esther sussurrou. "Oh, Deus! Esse", e ela apontou para o homem prostrado no cho, " o seu Charlie?"
"Vou ver como ele est", disse Keith.
Ela assentiu. E se ps a observ-lo, Mesmo engessado, ele mantinha a aura de masculinidade e competncia. Ele ajudou Charlie a se levantar. O homem vacilou um pouco, 
e parecia prestes a cair em prantos. O estmago de Esther se revirou com o que ela havia feito.
"Posso ajudar", ela gritou do carro.
"No!", Charlie berrou.
Keith o amparava com o brao bom. Com muito cuidado, ajudou Charlie a se acomodar no banco traseiro do carro, dizendo-lhe que um outro motorista estava a caminho 
e o levaria em segurana para longe das mulheres, ou, se necessrio, para o hospital.
Depois, Keith retornou para Esther.
''Achamos que ele estava nos seqestrando."
"Eu sei", Keith falou. "Desculpe, falha minha. Pedi ao Charlie para no dizer aonde estava levando vocs."
''Voc pediu ao Charlie... No entendo. Estvamos indo para o aeroporto", disse ela, consultando o relgio. Por pouco no perderiam o vo. "Como  que voc soube 
que eu havia contratado um carro?"
''Voc me disse." Keith parecia desconcertado.
"De acordo com a ordem judicial, no posso me aproximar da sua casa e do local de seu trabalho, nem estabelecer contato com voc."
"Voc telefonou na noite passada para fazer uma reserva na minha empresa de carros", ele disse. "Eu estava l, verificando os negcios. Atendi a chamada. No percebeu 
que estava falando 'comigo?"
''A ABC Limo  sua?", ela perguntou.
"Voc foi muito educada ao telefone", ele continuou. "Por isso, achei que sabia que estava falando comigo, e que, para no violar a ordem judicial, tinha arranjado 
um jeito de me fazer saber que queria me ver."
"Hein?", disse Esther.
"Ento, mandei o Charlie peg-la e traz-la para um territrio neutro. Desculpe pela confuso. Eu devia ter imaginado que voc ia pensar que fosse um seqestro."
"Sou sempre educada ao telefone, no importa com quem esteja falando", ela replicou com insolncia.
"E quanto  minha rdem de proteo", ele disse, "os nimos estavam um pouco esquentados naquele dia."
"Como  que est o Bram?", ela quis saber. "E o Morris?"
"Os dois esto timos", ele respondeu. "Bram no est zangado com voc. Ele me deu a bno."
"Agora ele  padre?", ela rebateu. "Primeiro, advogado; depois carpinteiro.  melhor esse garoto se decidir."
"J se decidiu", ele afirmou. "Como voc pode ver."
Esther se virou. No Mustang preto, Bram e Penny conversavam com intensidade. A impresso que dava  que ele estava implorando.
"Dei a Penny a minha bno", ela disse.
"Ento, agora voc  padre?"
"Deixe de ser tolo", disse ela, mordaz. "Ns dois sabemos que as mulheres no podem ser sacerdotes."
Keith sorriu, e Esther no pde resistir. Ele era de fato um homem terrivelmente sedutor.
"Diz pra mim, qual era a sua inteno?", ela perguntou. "Mandar o Charlie nos pegar e nos trazer at aqui, e mais o qu?"
"Eu ia te levar", ele respondeu.
"Pra onde?"
"Pra qualquer lugar."
"Qualquer lugar?", ela repetiu. "Eu simplesmente amo Qualquer Lugar.  um dos meus lugares prediletos! Como  que voc sabia?"
Keith deu de ombros, estremecendo de dor.
"S sabia", ele disse. "Sai da e vamos pegar sua bagagem."
Enquanto ele tirava as malas do bagageiro, um outro carro despontava e estacionava no acostamento. Ele deu uma pancadinha no porta-malas do carro recm-chegado, 
e o motorista saiu para abri-lo.
Keith ps as malas de Esther dentro do porta-malas e o trancou.
A bagagem de Penny ficou no cho. Ele se dirigiu at o carro que estava  frente e conversou brevemente com o motorista. O homem assumiu o volante do carro de Charlie, 
acenou em despedida e partiu, levando Charlie deitado no banco traseiro.
"Voc gostaria de pegar no volante?", disse Keith.
"Pego o carro inteiro... mas com voc dentro", disse Esther. "Se isso for bom pra voc."
Os olhos de Keith brilharam, e o corao de Esther cantou.
"Ento, voc ou a estrada", ele disse.
"Eu e a estrada", ela rebateu.
"Tem mais uma coisa que preciso saber."
"Qual?"
Com um sorriso matreiro, ele perguntou:
"Que sada?"









Captulo 43

ESTHER E KEITH ENTRARAM NO carro recm-chegado e se dirigiram at o lugar em que Penny e Bram estavam. A me abaixou o vidro da janela do motorista para falar. Do 
lado de fora da janela do passageiro, Bram conversava com o pai.
"Me, para onde esto indo?", perguntou Penny.
"Estamos sendo espontneos", respondeu Esther, sorrindo. "E vocs, para onde esto indo? No sentido metafrico."
"No sei", disse Penny. "No fim ambas as estradas vo dar no mesmo lugar."
"E que lugar  esse?"
"Um novo comeo", disse Penny.
O queixo de Esther tremia e seus olhos ficaram marejados. Penny no estava acostumada a v-la emocionada.
"Voc est segura quanto a isso? Quanto a Keith?", ela perguntou para a me.
"Sim, estou feliz", Esther sorriu.
E como num passe de mgica, depois de mil tentativas, finalmente Penny viu seu desejo se realizar.
"Para mim, no basta que s eu seja feliz. Voc tambm tem que ser feliz. Eu faria qualquer coisa pra isso", Esther falou.
"Voc j fez o bastante, de verdade", disse Penny. "Se um dia precisar de sua ajuda, juro que peo."
Penny afastou-se da janela. Esther acenava freneticamente para ela enquanto o carro se distanciava e saa do acostamento. Ao mesmo tempo Bram erguia os braos para 
segurar o turbante, e isso alongava seu peito e fazia com que sua camiseta aderisse ao corpo. Observando-o, Penny pensava que seria muito mais fcil para ela se 
Bram fosse baixinho, gordo e feio.
"Voc j perdeu os quilos que ganhou no quarto de brinquedos", ela observou. ''A comida do hospital  to ruim assim?"
"No muda de assunto", ele replicou.
Bram lanou um olhar severo para Penny. Como se a reprovasse. Como se ela estivesse brincando de propsito com suas emoes, agora que ele estava aos ps dela. E 
ela se aprazia em se aproveitar da situao. O poder tinha criado uma gigantesca onda eltrica sob sua pele. Ela gostou da sensao, desse crepitar. Era como se 
houvesse um campo de fora protetor no qual Bram no podia penetrar.
"No estou pronta para casar", ela disse.
"Voc no pensava isso quatro dias atrs."
"Eu era muito mais jovem nessa poca."
"E agora voc virou uma anci?", ele perguntou.
"Quatro dias atrs voc no queria casar, e eu queria. Agora a situao se inverteu."
"Voc est errada", ele disse.
"Por qu?"
"Voc tambm no queria casar", ele afirmou. "Levou a idia adiante, mas no fundo estava apavorada."
Ele estava certo. Na ocasio ela estava ansiosa e insegura. Lembrou-se de si mesma a se olhar no espelho, vestida de noiva, reunindo todas as foras para acreditar 
que no fim tudo daria certo.
Um outro carro entrou no estacionamento. Passou t perto da mala que por um triz no a danificou.
"Tenho que pegar minha mala antes que algum a atropele. Ou a roube", ela disse.
Foi at onde estava a mala e pegou-a. As passagens estavam enfiadas num compartimento externo da mala. Penny olhou o relgio. Se tivessem sorte, se evitassem o trnsito 
e corressem como loucos pelo aeroporto, eles talvez conseguissem tomar o avio.
Ela voltou para o Mustang e mostrou as passagens para Bram.
"Nossa viagem de lua-de-mel", ele disse franzindo a testa.
"Se a gente se apressar, d tempo de pegar o avio."
"Duas horas at o aeroporto. Dez horas de vo. Uma hora de ano at o hotel.  isso que voc quer?"
"Voc no quer?"
"So treze horas desperdiadas", ele argumentou. "Estou pensando num lugar mais romntico. Conheo uma cabana perto de uma piscina que tem uma espreguiadeira incrvel."
Penny sorriu enquanto visualizava a cabana e a manso, completamente vazia e cheia de comida.
"Sempre preferi o conforto de casa ao estresse de viagem", ela disse.
"Sua carruagem", disse ele, abrindo a porta do Mustang.
Ela entrou. Ele ps a mala no banco traseiro e ajeitou-se no banco do motorista.
"Antes de partirmos, quero ser totalmente honesto com voc", ele disse.
Penny sentiu uma pontada de medo e falou:
"Pode dizer; eu agento".
Bram desenrolou a atadura da cabea. Estava completamente careca.
"Agora, quem  que est exposto?", ele perguntou.
Penny riu, mas depois quase chorou. O que mais gostava nele eram justamente os cabelos castanhos quase dourados.
''Vai crescer de novo", disse ela, acariciando com delicadeza o crnio careca com dois ferimentos.
''Voc estar por perto para ver?" Ele agora estava srio. "Para onde vamos, Penny?"
"Para minha casa", ela respondeu. "Para a cabana deliciosa com minigeladeira e toalhas quentinhas."
"No foi isso que eu quis dizer."
Penny sabia muito bem que no era isso.
''Vamos saber para onde vamos quando estivermos l", ela disse.
"Por enquanto vamos prestar ateno na estrada."






*FIM*
